Garanhuns, 8 de janeiro de 2005
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OPINIÃO
 

Janeiro e as bibliotecas

Nivaldo Tenório


Já faz algum tempo me propunha escrever um artigo sobre o que eu considero ser um grande equívoco que acontece em nossa cidade, auto denominada das flores, Suíça brasileira ou de inclinação artístico-cultural. Eu bem sei dirão alguns que Garanhuns faz parte do Brasil e nosso país, forçoso é dizer, classifica-se ali entre países tais e quais que entre outras coisas como padecer o infortúnio de apresentar uma das menores, talvez a menor, renda per capta do mundo, também não cultiva o hábito da leitura e desta feita, ato contínuo, as bibliotecas tema deste artigo passam por coisas despropositadas, fora de moda ou habitação para aranhas, acadêmicos, traças e outras figuras exóticas ou excêntricas.

Isso posto, convenhamos, um artigo que cobra a atenção das autoridades ou do público em geral para as tais famigeradas bibliotecas parece coisa extravagante. Como, porém, encontro lugar entre os tais excêntricos e a ociosidade das férias tem me restringido as opções, resolvi arregaçar mangas e finalmente materializar o tal artigo tantas vezes planejado e posto de lado e que se configura a um só tempo em protesto e súplica de quem não dispõe de dinheiro suficiente para formar sua própria biblioteca e não depender mais de ninguém.

Por que, pergunto, e agora a questão propriamente dita, as bibliotecas de Garanhuns, notadamente a Biblioteca Municipal e a Biblioteca do SESC, permanecem durante todo o mês de Janeiro mês de férias e de melhor disponibilidade de tempo livre para a leitura com suas portas completamente fechadas? Decerto nem todo mundo está de folga do trabalho, mas uma coisa é certa: estar-se livre ao menos das obrigações escolares, sendo, portanto, o momento mais que oportuno para substituir os grossos volumes de química ou gramática por uma leitura mais prazerosa, algo mais de acordo com o mês de descanso, e desse modo desfrutar o prazer de percorrer as páginas de Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazov, Dom Quixote, Grande Sertão: Veredas, Os Sertões ou outros tantos do agrado e identificação do leitor, livros esses que normalmente não dispomos em casa ou não encontramos em nenhuma das sete livrarias de Garanhuns.

Essa prática, a de fechar as bibliotecas em janeiro, reflete um costume que se formou a partir da mais completa descrença nos jovens, a saber: a de que eles utilizam as bibliotecas apenas para fazerem trabalhos escolares que nada são senão cópias de assuntos encontrados em enciclopédias ou na internet. Infelizmente isso não é de todo exagero, e o pessimismo ou niilismo de alguns a respeito de nossos jovens é algo que encontra correspondência na realidade dos fatos e é por isso que as bibliotecas são fechadas em janeiro; sem aula nas escolas ou faculdades, não há nenhum aluno que necessite copiar seu trabalho.


Então se isso é verdade, isso que nos escandaliza e parece comprovar o péssimo nível de nossos estudantes, incapazes, muitas vezes, de escrever uma redação e ali ponderar sobre si mesmo e o mundo que o rodeia simplesmente porque não lê e vive apenas o seu cristo-jesus, extraindo de seu medíocre cotidiano ou das "lições" da Rede Globo sua experiência intelectual. Se isso é verdade, o que fazemos então? Fechamos as portas de nossas bibliotecas em janeiro e contribuímos ainda mais para a alienação e estupidez de nossos jovens.

Ultimamente se tem falado muito em campanhas de incentivo à leitura, acho que Garanhuns também poderia fazer sua parte e um bom começo seria mudar certos costumes caducos como abrir as portas de suas bibliotecas em janeiro e convidar a todos para o mais salutar de todos os festins.