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Janeiro e as bibliotecas
Nivaldo Tenório
Já faz algum tempo me propunha escrever um artigo sobre o
que eu considero ser um grande equívoco que acontece em nossa
cidade, auto denominada das flores, Suíça brasileira
ou de inclinação artístico-cultural. Eu bem
sei dirão alguns que Garanhuns faz parte do Brasil e nosso
país, forçoso é dizer, classifica-se ali entre
países tais e quais que entre outras coisas como padecer
o infortúnio de apresentar uma das menores, talvez a menor,
renda per capta do mundo, também não cultiva o hábito
da leitura e desta feita, ato contínuo, as bibliotecas tema
deste artigo passam por coisas despropositadas, fora de moda ou
habitação para aranhas, acadêmicos, traças
e outras figuras exóticas ou excêntricas.
Isso posto, convenhamos, um artigo que cobra a atenção
das autoridades ou do público em geral para as tais famigeradas
bibliotecas parece coisa extravagante. Como, porém, encontro
lugar entre os tais excêntricos e a ociosidade das férias
tem me restringido as opções, resolvi arregaçar
mangas e finalmente materializar o tal artigo tantas vezes planejado
e posto de lado e que se configura a um só tempo em protesto
e súplica de quem não dispõe de dinheiro suficiente
para formar sua própria biblioteca e não depender
mais de ninguém.
Por que, pergunto, e agora a questão propriamente dita,
as bibliotecas de Garanhuns, notadamente a Biblioteca Municipal
e a Biblioteca do SESC, permanecem durante todo o mês de Janeiro
mês de férias e de melhor disponibilidade de tempo
livre para a leitura com suas portas completamente fechadas? Decerto
nem todo mundo está de folga do trabalho, mas uma coisa é
certa: estar-se livre ao menos das obrigações escolares,
sendo, portanto, o momento mais que oportuno para substituir os
grossos volumes de química ou gramática por uma leitura
mais prazerosa, algo mais de acordo com o mês de descanso,
e desse modo desfrutar o prazer de percorrer as páginas de
Guerra e Paz, Os Irmãos Karamazov, Dom Quixote, Grande Sertão:
Veredas, Os Sertões ou outros tantos do agrado e identificação
do leitor, livros esses que normalmente não dispomos em casa
ou não encontramos em nenhuma das sete livrarias de Garanhuns.
Essa prática, a de fechar as bibliotecas em janeiro, reflete
um costume que se formou a partir da mais completa descrença
nos jovens, a saber: a de que eles utilizam as bibliotecas apenas
para fazerem trabalhos escolares que nada são senão
cópias de assuntos encontrados em enciclopédias ou
na internet. Infelizmente isso não é de todo exagero,
e o pessimismo ou niilismo de alguns a respeito de nossos jovens
é algo que encontra correspondência na realidade dos
fatos e é por isso que as bibliotecas são fechadas
em janeiro; sem aula nas escolas ou faculdades, não há
nenhum aluno que necessite copiar seu trabalho.
Então se isso é verdade, isso que nos escandaliza
e parece comprovar o péssimo nível de nossos estudantes,
incapazes, muitas vezes, de escrever uma redação e
ali ponderar sobre si mesmo e o mundo que o rodeia simplesmente
porque não lê e vive apenas o seu cristo-jesus, extraindo
de seu medíocre cotidiano ou das "lições"
da Rede Globo sua experiência intelectual. Se isso é
verdade, o que fazemos então? Fechamos as portas de nossas
bibliotecas em janeiro e contribuímos ainda mais para a alienação
e estupidez de nossos jovens.
Ultimamente se tem falado muito em campanhas de incentivo à
leitura, acho que Garanhuns também poderia fazer sua parte
e um bom começo seria mudar certos costumes caducos como
abrir as portas de suas bibliotecas em janeiro e convidar a todos
para o mais salutar de todos os festins.
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