Garanhuns, 8 de janeiro de 2005
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ANGELIM - Emoção na volta de Samuel à prefeitura

Passados oito dias da posse do prefeito Samuel Salgado, muitos ainda comentam em Angelim e região o clima de emoção que marcou a solenidade, realizada no Clube Municipal, às 20h do domingo passado. O ato festivo foi prestigiado por uma ampla delegação de Garanhuns, por políticos, técnicos e personalidades de diferentes partes do Estado e de importantes cidades do Nordeste e outras partes do país. Teve gente do Rio Grande do Norte, do Rio de Janeiro e até do Mato Grosso, como acentuou o mestre de cerimônias, o radialista Marcos Cardoso. E o povão literalmente lotou as dependências do clube ARA e as ruas próximas, aplaudindo com entusiasmo os oradores que se sucederam na tribuna.

Samuel Salgado e seu irmão, Esberaldo Cavalcanti, foram recebidos com entusiasmo incomum pela multidão, que reviveu os momentos da campanha vitoriosa aplaudindo, fazendo buzinaço e gritando slogans lidados ao PT e ao número 13. A impressão que dava é que o povo estava com os adversários do PFL "atravessados na garganta" e aproveitou a ocasião para extravasar, mostrar toda sua alegria e comemorar uma conquista díficil, suada, numa eleição vencida por apenas 123 votos de diferença.

Falaram o vereador Valdinho, da oposição, ele que já foi aliado de Samuel e nos últimos anos se integrou ao grupo pefelista, o diretor do Banco do Nordeste, ex-deputado federal Pedro Eugênio, e o funcionário público Neilton, dos quadros da Chesf, que perdeu um irmão no período da ditadura militar e fez um discurso contundente contra o regime de 64. O presidente em exercício da Associação Comercial de Garanhuns, Roberto Ivo, representando o deputado estadual Izaías Régis, disse algumas breves palavras saudando o novo prefeito de Angelim.

A sessão, presidida pela vereadora mais votada no pleito de 2004, Edijane Bezerra Gomes, se prolongou até por volta das 22h30, quando falaram o vice Esberaldo e o prefeito Samuel. Logo depois, foi realizada a eleição do novo presidente da Câmara dos Vereadores, tendo sido escolhido pela maioria o vereador Geraldo Ferreira da Silva. Em seguida, os novos dirigentes foram a pé do Clube Municipal até a sede da prefeitura, quando Samuel Salgado recebeu as chaves das mãos do vereador Erasmo, uma vez que Marco Calado optou por não passar o cargo ao seu sucessor.

Mas nas ruas o povo comemorou a volta de Samuel, parecendo já esquecido do passado e disposto a viver os novos tempos, com a democracia prometida pelo novo governante. Apesar das dificuldades anunciadas pelo vice Esberaldo, como a dívida herdada da gestão de Marco Calado, no valor de R$ 5 milhões, a esperança, em Angelim, parece ter triunfado novamente, "derrotando o medo", como acentuou o prefeito em seu discurso, feito ainda no clube ARA.


O discurso da posse

Ao contrário do irmão, o vice Esberaldo, que fez um discurso de poucos minutos, no improviso, o prefeito Samuel Salgado optou por um pronunciamento escrito. Não resistiu, no entanto, e fugiu do papel várias vezes, inclusive quebrando o protocolo de uma maneira que lembrou os rompantes do presidente Lula. Foi uma fala eqüilibrada, marcada pela denúncia, pelo compromisso com a democracia e a liberdade e, no final, pela emoção, pela referência aos amigos ausentes, como o seu pai, Deoclécio Cavalcanti, que morreu o ano passado.

"Faço uma homenagem especial a minha mãe, Luzinete Salgado, que nos dá a satisfação de presenciar este fato histórico. Pela primeira vez na história de Angelim dois irmãos são empossados no cargo de prefeito e vice-prefeito", disse Samuel, assinalando também os nomes dos irmãos Vaneide, Valdete, Anita, Áurea,Valdênia, Esberaldo, Clóvis, Manoel e Júnior. "À minha esposa Ione, meus filhos Danielle, Isabelle, Rafaelle e Juninho, pelo que representam em minha vida, um abraço mito forte e carinhoso", frisou ainda o governante, cumprimentando os demais familiares "em nome do primo Rui".

Em seguida, Samuel falou do desafio de governar Angelim pela terceira vez, quando estava recebendo uma prefeitura cheia de problemas. "Muitos funcionários não receberam seus salários de dezembro. O patrimônio público foi dilapidado e saqueado em sua grande parte. Computadores, carteiras escolares, materiais de construção, fogões e botijões de gás desapareceram. A energia dos prédios públicos de nossa cidade foi cortada por não ter sido pago o débito à Celpe, fato esse amplamente divulgado pelo Diário de Pernambuco do dia três de dezembro de 2004. E tudo isso aconteceu depois que nossos adversários perderam as eleições", denunciou o prefeito petista.

DESMANDOS - Depois, prosseguiu: "Some-se ainda, entre outros desmandos, o fato de estarmos recebendo a prefeitura com débito de R$ 5 milhões, sendo R$ 2,5 milhões na Justiça do Trabalho e R$ 2,7 milhões no INSS. Como se não bastasse tudo isso, numa verdadeira tortura psicológica para deixar o povo desesperado e, possivelmente, tentando esvaziar este ato, divulgaram que eu não tomaria posse, pois sairia preso e algemado neste momento"

Samuel Salgado lembrou que tentou realizar uma transição de forma correta e democrática, mas a sua proposta não foi aceita pela administração pefelista. Criticou a postura do ex-governante e anunciou que na sua gestão não haverá desmandos administrativos, nem perseguição, injustiça e falta de atenção as pessoas. "Queremos comunidade e governantes juntos, contribuindo para uma verdadeira construção de políticas necessárias ao desenvolvimento econômico e social do município. Entendemos nossa escolha como uma convocação no sentido de colocarmos o município em sintonia com o excelente momento político que o Brasil vive, graças ao equilibrado comando do presidente Luiz Inácio Lula da Silva", observou o prefeito.

O dirigente petista citou ainda o trabalho dos ministros pernambucanos Humberto Costa e Eduardo Campos, dizendo que eles, juntamente com Pedro Eugênio, os deputados Izaías Régis e Armando Monteiro, seriam procurados para ajudar na recuperação de Angelim. "A prefeitura abre suas portas e coloca-se como parceira da União para a construção de um município aonde haja prosperidade", ressaltou.

Samuel enfatizou a necessidade de democratizar as decisões, criando instrumentos de participação popular e abrindo os espaços de poder. "A partir de agora em cada comunidade vai ser discutido o que se decide (que assunto será submetido à decisão), quando se decide (em que ocasião cada deicsão será tomada) e onde se decide (em que instância de poder será tomada a decisão), exemplificou.

HOMENAGENS - No final, Salgado homenageou três amigos "que já não estão mais no nosso meio". O primeiro deles, Nivan Rodrigues, irmão da professora Nelma (ex-diretora da Gere), contemporâneo do prefeito no Ginásio Cônego Carlos Fraga, em Angelim. Nivan foi uma das vítimas da ditadura militar, que no entender do líder petista lançou um véu de trevas em toda uma geração. "Anos sombrios aqueles, pois para fazer oposição, em qualquer nível, era preciso coragem de morrer pelo Brasil, ânimo de viver pelo Brasil", assinalou.

O segundo amigo homenageado foi o ex-vereador Israel, secretário de Obras de Samuel quando de seu segundo mandato na prefeitura. "Caracterizou sua vida lutando com obstinação pelo que acreditava, associando a seriedade e a alegria ao prazer de trabalhar e servir. Cordial, simples e humilde, constituiu-se num exemplo de dignidade e companheirismo", definiu.

O terceiro homenageado por Salgado foi seu pai, Deoclécio Cavalcanti, que morreu em 2001. "O homem saudade, o homem sensível que soube fortalecer a sua formação humana para enfrentar os desafios do mundo. Impunha sua personalidade pelo modo educado como se comunicava. Gostava de escrever. E muitas vezes nos momentos de inspiração, rapidamente, dava um sentido poético na montagem das palavras, como nesses versos em que deu uma lição de profundo significado sobre a desigualdade social:

"Quero um mundo de harmonia
A irradiar alegria
Em cada hora a se passar
Um mundo com habitantes unidos
Sem pobres, sem excluídos
Sem sofrimento a atrapalhar".

"Quero um mundo diferente
Do mundo de muita gente
Que só em riqueza quer pensar
Quero um mundo em que a humanidade
Combata a desigualdade
Com a justiça a imperar"

Ao falar do pai, com a voz entrecortada pela emoção, Samuel Salgado disse "como eu gostaria que ele estivesse aqui". E pediu a Deus que iluminasse a ele e o irmão para fazer um governo capaz de atender aos interesses da maioria do povo, com uma administração democrática e pluralista.