Garanhuns, 18 de dezembro de 2004
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Cultura
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
POLÍTICA
 

Acaba a era Silvino

A partir do dia primeiro de janeiro de 2005 começa um novo ciclo na história política de Garanhuns. Depois de oito anos governando o município, numa gestão marcada por muitas obras e contradições, Silvino Andrade fica sem mandato e deixa para Luiz Carlos a tarefa de dar continuidade ao seu trabalho. Mesmo tendo feito o seu sucessor e apesar da mulher, Aurora Cristina, está se preparando para assumir a cadeira de deputada estadual, por certo o peemedebista agora perderá um pouco da pompa que só o cargo de Executivo numa cidade do porte de Garanhuns pode proporcionar.

Silvino pode se considerar um vitorioso na política. Chegou a cidade egresso de Princesa Isabel, na Paraíba, e graças a uma mãozinha do ex-deputado José Tinoco conseguiu se estabelecer na cidade como médico. Depois, entrou na política e com votação modesta chegou à Câmara Municipal. Teve atuação mediana e quando tentou a reeleição estava em situação difícil. Mas novamente Tinoco, ajudado por Ivo Amaral, garantiram a volta do paraibano ao legislativo garanhuense.

O atual prefeito do município foi da Arena, do PDS e do PFL, partidos que deram sustentação à ditadura militar. Nos anos 70 e 80 quem reinava em Garanhuns era Ivo Amaral e José Tinoco - e nesse tempo Silvino Andrade Duarte não passava de um subserviente áulico dos dois líderes. Tinoco tinha tal apreço ao médico egresso da Paraíba, que em 1982 emplacou o seu nome como vice de José Inácio, que venceu com facilidade o pleito daquele ano.

A gestão de José Inácio não foi bem sucedida, tanto que o ex-prefeito não conseguiu se eleger para mais nada no município. Mas Silvino escapou à hecatombe e voltou à Câmara na eleição seguinte. Em 1996, ainda como vereador, começou a grande virada na vida do até então obscuro vereador pefelista. O paraibano deixou o PFL sem dar satisfações a Ivo Amaral, se aliou a Bartolomeu Quidute (então prefeito) e Miguel Arraes, terminando por se candidatar ao Executivo pelo Partido Socialista Brasileiro.

Silvino Andrade derrotou o favoritismo de Ivo Amaral por uma diferença relativamente pequena, pouco mais de dois mil votos. E nem ao menos sentou na cadeira deu um tchau a Bartolomeu, que nunca mais conseguiu se recuperar do que chama “a maior traição da história política de Garanhuns”. O prefeito logo abandonou também Arraes e se aliou a Jarbas Vasconcelos, eleito novo governador de Estado a partir de 1998.

Na prefeitura, Silvino pegou as boas idéias de Bartolomeu, que não foram colocadas em prática, e começou a mudar a face da cidade. Instalou o Centro Administrativo no prédio do antigo Cine Jardim, retirou os camelôs que estavam impestando o centro da cidade e construiu um shopping popular imprensado na Avenida Santos Dumont, recuperou a frota de veículos do município, organizou as finanças, ampliou significativamente os Postos de Saúde do município, melhorou os salários dos professores e possibilitou que a Faculdade de Administração, Faga, deixasse de ser uma escola modesta para se transformar numa respeitada instituição de ensino superior. Pra completar ainda fez praças à vontade, calçou e asfaltou dezenas de ruas, a exemplo da antiga rua do Ipiranga, na Boa Vista e o acesso da esquecida Cohab II.

O resultado do trabalho do prefeito foi colhido quatro anos depois, quando disputou a reeleição contra Bartolomeu, maior responsável pela sua vitória em 96. Silvino deu um banho no seu antecessor, que ficara marcado por uma gestão de poucas obras e o empreguismo de muitos parentes. O próprio ex-pefelista, ex-socialista e agora peemedebista trataria de acabar com a imagem do médico de flores, num urdido trabalho feito através do adesismo dos políticos e da submissa imprensa da província.

No segundo mandato, Silvino caiu de produção. Os dois primeiros anos foram tímidos, nem parecia o prefeito que governou de 97 a 2000. A periferia foi abandonada à própria sorte, aliados começaram a lhe abandonar e o discurso bombástico de Izaías Régis passou a causar um grande efeito. O resultado? Em 2002 o político nascido na vizinha Teresinha deu um banho, conquistando 21 mil votos na Suíça Pernambucana, contra pouco mais de 13 mil de Aurora Cristina, a mulher do prefeito.

Nos últimos dois anos de mandato, no entanto, Silvino recuperou-se e principalmente no final, no período eleitoral, trabalhou como nunca. A esquecida periferia voltou a ser lembrada e as obras, antes restritas apenas a parte nobre da cidade, apareceram com força no Magano, na Boa Vista, no Indiano, no Parque Fênix e na Cohabs.

Eficiente na política de resultados, o prefeito ainda teve a sorte de escolher um candidato leve, sem rejeição. E com o uso descarado da máquina, o carisma de Luiz Carlos de Oliveira e o apoio de partidos como o PSDB, o PV e o PP, Silvino Andrade conseguiu virar o jogo e derrotar o favoritismo de Bartolomeu, que liderou as pesquisas eleitorais até o final de agosto.

A partir de janeiro, como díziamos no início, começa uma nova era. Maquiavel já dizia, no século XVIII, que ninguém governa o governante. Certamente Silvino não vai mandar em Luiz, como Bartolomeu não conseguiu mandar nele. Assim, teremos a partir de agora a “era Luiz”, que em muitos aspectos será diferente da que terminou.

Essa, que finda agora em 31 de dezembro, pode ser lembrada como a da construção da nova entrada da cidade, do asfaltamento da maioria das ruas de Heliópolis, da implantação do Pólo Heliópolis e da ampliação da Praça Guadalajara, que virou Esplanada.

A gestão de Silvino pode ser lembrada também pelos gestos autoritários, pela perseguição aos profissionais de imprensa da cidade, como Marcos Cardoso e Gerson Lima, pela pouca preocupação em honrar a palavra e por uma soberba imensa no trato com auxiliares e adversários.

Inteligente, o prefeito que sai muitas vezes não parece admitir que outras pessoas possuem cérebro. Assim, muitas vezes chamou os seus secretários, escolhidos por ele, de medíocres ou incompetentes. O atual vice-prefeito eleito, Almir Penaforte, chegou a levar um carão publicamente, no Palácio Celso Galvão, após o resultado da eleição de 2000. O titular do Turismo, Ivan Júnior, também sofreu das suas com o chefe, embora não goste de admitir, coisa que pode ser feita pela ex-secretária de Educação, Girlane Santana. Esta, aliás, nunca teve muito a simpatia do príncipe, que parece gostar mais dos subservientes, tendo nisso aprendido muito com Miguel Arraes.

Uma ex-secretária, demitida do cargo no estacionamento do Centro Administrativo, assistiu a muitas cenas de descompostura que nunca esquece e por isso parece traumatizada. Silvino, claro, é indiferente a tudo isso. Na sua cabeça, ao que tudo indica, o que importa mesmo é ganhar eleições. Como rezava Paulo Maluf, hoje um político em desgraça, “em política o feio é perder”. Não é à toa que nas duas campanhas em que enfrentou Bartolomeu, uma delas pessoalmente, o prefeito disse muitas vezes, e seus auxiliares ouviram “Isso é um idiota. É o meu maior cabo eleitoral”. As vitórias lhe deram razão. Mais até quando? (R.A.)