Garanhuns, 18 de dezembro de 2004
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CULTURA
 

O rosto do menino Deus

Conto inédito de Roberto Almeida


Às 19 horas da sexta-feira, dez de dezembro, Ana Luíza saiu de sua casa, numas das mais tranqüilas ruas de Cruzeiro do Sul e em passos lentos seguiu em direção à igreja, que ficava quase a 500 metros de sua moradia. Ao chegar à avenida, foi quase ofuscada pelas luzes coloridas, estrelas descendo pelas árvores, em “fila indiana” e o som das músicas de Natal se espalhando por cada metro quadrado de asfalto, lojas, bares, restaurantes, bancas de revista e ônibus em trânsito

A velha senhora levava na cabeça os romances de Dickens, a poesia de Drummond, a saudade das aulas no velho colégio e as palavras escolhidas para produção do último artigo no principal jornal da cidade. Apesar da toda carga de literatura e poesia, não lhe passava despercebida a beleza da província, comparada, muitas vezes, nas revistas e reportagens de TV, a lugares bucólicos da Holanda, Suécia e Dinamarca.

Deixando de lado o ar um tanto aristocrático, Ana Luíza cantarolou uma das canções religiosas que marcaram sua infância. Sutilmente, embora pouco se importasse com os olhares curiosos dos que se atreviam àquela hora em passear pela avenida.

Estava feliz pelos encantos da cidade, por acreditar nas pessoas e no criador. Nem conseguia explicar porque a pressão arterial subia em meio a tanto otimismo. E a intrigava mais ainda o fato de em determinados momentos temer pelo inevitável, o fim. Esperava, contudo, que algo acontecesse. E quem sabe seria neste Natal...

A festa que celebra o nascimento do menino Jesus também tornara mais humana a grande cidade. As luzes mudaram a face da Paulista e de certa forma amenizaram o estresse provocado pelo engarrafamento nos milhares de motoristas que todos os dias passavam pra lá e pra cá.

Juliana, acostumada a xingar, mandar à puta que pariu os que viviam costurando o trânsito ou encostando demais na traseira do seu carro, parecia anestesiada. Não que ligasse para a igreja, rezas ou mesmo para os ensinamentos do filho de Deus.

O catolicismo e todos os ismos tinham sido abandonados há muito tempo. Desde que aprendera a ganhar dinheiro, a valorizar a moeda, consciente de que somente com um belo carro, um apartamento próprio e uma gorda conta bancária seria respeitada.

Mas com a cidade mais bonita, as pessoas mais afetuosas, músicas suaves no rádio e na TV, um festival de cores nas ruas, mensagens de paz... Como ficar indiferente a tudo isso e não relaxar?

Por isso entrava no clima, decorava seu apê e separava uma quantia razoável para dar presentes aos amigos, à irmã, aos dois sobrinhos, aqueles que mereciam um pouco de sua atenção.

Terminadas as compras, no caminho de volta pra casa, Juliana sentiu uma espécie de euforia, a sensação de que algo ia acontecer. Procurou ser racional, imaginando aquela expectativa uma bobagem. Uma angústia, então, lhe bateu no peito. Estaria ficando velha, dadas a sentimentalismos, influenciada pelas mensagens publicitárias das revistas e da televisão?

Era comum, nos finais de semana Rick desaparecer. De cabelos encaracolados, sandálias tipo franciscana e calças jeans procurava um sítio, distante da neurose e do intenso calor da capital. Sem querer saber dos jornais que noticiavam todos os dias as manobras políticas, a ação dos trombadinhas e as jogadas maravilhosas do legítimo herdeiro de Zico, no maior estádio do mundo.

Meio vagabundo mesmo, jurava já ter entrado num disco voador, ter estabelecido contato com seres de outras galáxias e confessava que a experiência com os ETs mudara completamente sua vida.

As crianças, em êxtase, acreditavam em cada palavra, pediam mais detalhes, mais histórias e Rick as atendia com bom humor, sempre sorrindo.

Isso quando estava na casa da irmã, Anita, uma professora suburbana casada com Ted, um bancário convencidíssimo de saber das coisas por já ter lido meia dúzia de best sellers e ter conseguido terminar a faculdade de administração.

No sítio, sem luz elétrica, sem conversa de bundões, cercado de mato verde, grilos e sapos que coaxavam no riacho próximo, Rick imaginava estar sozinho no universo e ansiava pela volta do povo de outro planeta.

- Um dia eles vão voltar repetia consigo mesmo, convencido de que o período de Natal era apropriado para um retorno dos extraterrestres.

Quem sabe se o próprio Jesus, se não passar de uma invenção dos padres e dos homens para dar um sentido à existência, virá como um índio num disco voador?

Rick sabia que essas idéias assustavam a irmã, deixavam o cunhado irritado, mas não podia, em determinados momentos, deixar de explicitá-las, porque não era feito do mesmo barro dos inocentes, dos crédulos, dos ingênuos, dos que oferecem a outra face.

Assim, só lhe restava amar as crianças, porque estas não se chocavam com nada. Ou a solidão do sítio, que não lhe cobrava um pensamento politicamente correto e o deixava livre para andar torto à vontade.

- Algo vai acontecer. - Desta vez Rick não tinha nenhuma dúvida.

Numa terra distante, seca, as mulheres eram obrigadas a usar véus. Lia Vesak, robusta, olhos grandes, coxas roliças, ansiava por ficar nua, correr em pêlo pelas areias do deserto. Se pudesse, se não fosse proibido, cairia nos braços de Nabuk, cobriria seu amigo de infância de beijos, faria como fazem as ocidentais, sem ter medo do pecado e do castigo dos homens.

Lia assistira a invasão do seu país pelos bárbaros, vira o massacre dos fanáticos, acompanhara à distância a escolha dos novos governantes.

Nada mudara, contudo, pois continuava sem poder mostrar o rosto, freqüentar uma escola e muito menos deitar com Nabuk.
Na sua aldeia quase ninguém conhecia o mundo, poucos tinham viajado, mal conheciam o próprio país, imagine terras distantes.

América, Brasil, Inglaterra, eram nomes estranhos, terras habitadas por seres diferentes, por mulheres que - isso sabia - não precisavam usar véu.

Lia Vesak ruminava poucas idéias, mal aprendera a ler e mesmo sobre religião conhecia apenas o que vinha ditado pelos homens.

No entanto era mulher. Mesmo sem a exata percepção do que é ser mulher, mesmo sem coragem de admitir a vontade de se entregar a Nabuk, mesmo sem poder mostrar o brilho dos olhos e banhar o corpo nas poucas águas do rio da aldeia, era uma mulher.
À noite, todos dormindo, podia pegar nos próprios seios, passar as mãos pelo ventre, sentir sensações que davam medo.

A vida seria assim até o último dos seus dias? Nunca mudaria nada em seu país, mesmo com as guerras, as invasões, as orações?

Ou viriam homens de turbante, guerreiros de outras terras para libertar as mulheres?

Alá, quem sabe, poderia se materializar na frente deles, ensinar que todos estavam errados e que homens e mulheres foram feitos complementares, um do outro, com a capacidade de abraçar e de sorrir.

Então os aviões surgiram do nada, derrubaram as grandes torres, os castelos, os palácios dos governos, jogaram bombas, nalpam, metralharam índios, massacraram os negros nas favelas, provocaram a reação dos santos, dos líderes das cruzadas.

A cidade, civilizada, foi transformada numa nuvem de pó. Os escombros no chão, pernas, braços, cabeças, sangue e milhares de mulheres chorando. Nem as crianças escaparam à sanha dos loucos, que explodiram com os aviões, entre risadas, gritos e mensagens típicas dos fanáticos.

As imagens foram captadas em Cruzeiro do Sul, na Paulista e no bem equipado apartamento de Ted e Anita. Mesmo Lia Vesak, impedida de tanta coisa, pôde ver na TV a ação dos acrobatas. Somente Rick ficou alienado, estava no sítio, estendido numa rede, quando apenas a luz de um lampião iluminava a sala.

Desinformado do ataque, da destruição, pensava apenas que eles viriam. O disco desceria, ele seria convidado e sem receios embarcaria na viagem em busca de outros mundos.

Ana Luíza, perplexa, lamentou a loucura daqueles homens. E apesar da queda das torres, da morte das crianças e dos adultos inocentes, fez uma prece, imaginou as razões do criador para permitir a barbárie. E disse aos seus amigos, na igreja, que aquela tragédia não representava o fim dos tempos.

- Esse não é o acontecimento aguardado. Deus ainda dará explicações e os homens puros serão capazes de entender - enunciou.

Juliana, atordoada, chorou ao volante do automóvel. E lamentou que os sentimentos contraditórios daquela noite a levassem àquele desastre. “Se é assim, como ter fé?”, questionou.

Mas Luíza, Juliana, Lia, Rick eram apenas pontinhos no universo. Em milhares de lares de todo mundo, notadamente no ocidente, árvores de Natal enfeitavam as casas abastadas, as pessoas sorriam, trocavam presentes e mesmo os pobres se enchiam de esperança, carentes de que algo ainda devia acontecer. Bem diferente da ação dos pilotos, dos que derrubaram as torres.

Milhões de pessoas nos quatro cantos do planeta, apesar de toda miséria, desafiavam a lógica, a ciência, e podiam sentir e até tocar, o rosto do menino Deus.