Garanhuns, 4 de dezembro de 2004
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OPINIÃO
 

Quinze anos da queda

Rafael Brasil


Já fazem 15 anos da derrubada do muro de Berlim. Foi a última revolução democrática da velha Europa. Em termos econômicos, a unificação está se realizando agora, com a entrada na federação européia de países como a Polônia e a República Tcheca, só para ficarmos nestes exemplos. A transição não tem sido fácil. Desmantelar os cacarecos estatais, as corporações e enfrentar o desemprego. Alguns sentem saudades dos tempos da cortina de ferro. Afinal, muitos fingiam que trabalhavam, e o governo que pagava. A ditadura era braba, e efetivamente não trazia mais manteiga para a mesa do povo. Muitos governantes comunistas fizeram grandes e sinceros esforços para fazerem as coisas funcionarem. No caso específico da Alemanha, dizem que eles conseguiram até fazer o comunismo de tipo estatal funcionar. Bem, mas de uma maneira geral, o sistema de estatização da estrutura produtiva foi um verdadeiro fiasco. Definitivamente, o estado é mau gestor, e nos anos 60 os Estados Unidos e a Europa capitalista deram um baile de produtividade. Nos anos 70 e 80, o sistema estagnou, e, para a felicidade de todos implodiu.

Na contramão dos eventos liberalizantes da queda, um pouquinho antes, seria promulgada a nossa constituição chamada cidadã, em 1988. Uma constituição nacionalista em termos econômicos, e corporativista, fazendo a festa dos milhões de funcionários públicos e de empresas estatais deste pobre país. Aliás, na época, numa de suas poucas declarações felizes, José Sarney afirmara que a constituição tornara o país ingovernável. Por isso é que, desde Fernando Henrique estão tentando, um tanto quanto inutilmente reformá-la. Claro, as corporações não deixam e continuamos patinando e aos poucos sendo ultrapassados por outros países. E não será Lula, com seu atrelamento histórico com as corporações quem vai fazer. E, convenhamos, o povo gosta de estatais, e enfim, todo mundo pensa em pegar um empreguinho em alguma teta estatal, seja nos âmbitos estadual, federal ou mesmo municipal. Por essa e outras a América Latina, juntamente com o Brasil, está ficando órfã de investimentos estrangeiros, e as perspectivas não são boas no médio e curto prazos. Com exceção do Chile e do México, depois do Nafta.

Segundo estimativas nem tanto pessimistas, daqui 20 anos, ainda estaremos discutindo a reforma tributária, e quem sabe, tentando resolver o crescente rombo na previdência. Isto sem falar na necessária reforma da nossa pífia federação, que na prática só existe no papel. E ainda tem muita gente defendendo o sistema, geralmente os que dele se beneficiam, que aliás são poucos.

Com a incorporação à União Européia, uma promissora luz no fim do túnel vislumbra os horizontes de muitos países da Europa Oriental, antes dominados pelas burocracias capitaneadas pela União Soviética, de triste memória. Liberdade com manteiga. Aqui, infelizmente, temos democracia com esmolas. Temos muitos pais dos pobres, como aliás, no passado. E, desse jeito, ainda teremos muita miséria no século que se apresenta. Que começou, efetivamente, quando terminou o sangrento século XX, com a derrubada do horrendo muro de Berlim. Como no passado, continuamos a passos de cágado.