Garanhuns, 4 de dezembro de 2004
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OPINIÃO
 

Pai... Perdoa-lhes...

Gerson Lima


O monumento do Cristo no Alto do Magano está completando este ano, meio século. Naquele dezembro de 1954 o então prefeito Celso Galvão dava mais uma demonstração de capricho a Garanhuns inaugurando o belo monumento, num dos mirantes mais bonitos da cidade. Há quem diga que a estátua ali erguida, pelo Sr. Renato Pantaleão, foi também um capricho de promessa religiosa do velho artesão que se encarregava ainda de fazer em bonecos, os personagens bíblicos que compunham o presépio da avenida Santo Antonio no período do Natal todo os anos. Tudo isso teria mais importância se as administrações públicas tivessem demonstrado, ao longo desses 50 anos, o respeito pela preservação de um patrimônio que narra em pedra e concreto um enaltecer de fé e de zelo pela terra de Simôa. Mas, ao contrário do que a pouca inteligência possa achar bonito, as reformas de recuperação do monumento do Cristo parecem não alcançar essa ética de preservação da memória de Garanhuns e dos autores de seus feitos, nem muito menos, quem um dia teve sempre na memória o mais legítimo capricho para com esta terra. O trabalho que ora se desenvolve no referido monumento, fere as linhas gerais da história e da arquitetura original da obra, esculhamba o espaço geográfico dos 360 graus de visibilidade do mirante para os flancos da cidade e ameaça alterar, no procedimento de uma obra, cujo projeto parece ter a competência e orientação de uma barata tonta, um monumento rudimentar, porém lúdico, daquilo que representa um dos orgulhos do Garanhuense e os deslumbres de quem visita o local.

As gafes são fartas por todos os lados ao redor do Cristo. O salão que faz a base do monumento, que tem construção em pedra, recebeu adornos nas bordas das janelas , de nada mais que tijolos do tipo seis furos igual aos projetos de casas populares. Ali, dizem, será uma lanchonete ou coisa parecida. O piso ao redor do monumento, foi construído com as indesejáveis pedras portuguesas e com pedacinhos de cerâmica, fazendo corropios infantis como um caleidoscópio de doido. Mesmo asssim, não fazem conjunto com a obra. Outros recantos da área, ora de pedra de calçamento, ora de asfalto dão completa falta de personalidade ao recanto numa vitamina de material largado e a visão do pôr do sol, ícone de quem visita aquele local nas tardes de verão, já está comprometida pela construção volumosa de um prédio que servirá de banheiro público, estilo rodoviária de interior. Até Deus, Pai do outro que está lá, crucificado em estátua, duvida que o troço não ande incoerente com a melhor prudência da arquitetura e do paisagismo. Aliás, o que a arquitetura moderna, o paisagismo e demais ciências co-relatas contemporâneas, chamam esse tipo de trabalho é de "reconstrução óbvia". Ou seja, o que possa existir do mais "imediato-óbvio", quando a tarefa é recuperar, revitalizar ou mesmo reconstruir com bom senso um patrimônio histórico. Entende-se como algo que está sendo feito sem estudo meticuloso, ou à base do imediatismo do improvisado, pelo aproveitamento de restos de material que formam uma colcha de retalhos sem a menor coerência

O projeto, ao que parece, deixa claro que é de algum anônimo, pois não existe placa de identificação no local, como se o autor se esquivasse em assumir tão feio parto. O que causa mais medo aliás, porque tudo que vem do desconhecido causa certo receio. Mas mesmo assim, a criatura ou grupo que estiver à frente da bagaceira, procure dar explicações condizentes para tal feito, antes de tentar subestimar o senso crítico da população que mesmo já sabendo de que o futuro de Garanhuns tem se resolvido com Pedra Portuguesa, tem sempre uma opinião formada quando o assunto é engodo.

Não precisa ler Oscar Niemyer para se saber que o que mais qualifica um mirante é justamente a vazão de sua amplitude para a contemplação do espaço a ceu aberto. Então, muitas maneiras haveriam de se construir a bateria de sanitários ou o que quer que seja, ao invés de serem exatamente à frente de quem avista o largo espaçoso onde descansa o sol todas as tardes ou nas lentes da próxima máquiana fotográfica que sofrerá o prejuizo de ângulos se seus proprietários ainda se sentirem estímulados em documentar o ambiente. Também não precisa devorar toda a literatura de Burle Marx, ou Brenand, para se saber que toda reforma ou revitalização de um monumento histórico requer o máximo de cuidado para se preservar os traços originais de quem o fez. Tudo em nome do respeito, do resguardo fiel do criador e da criação.

Vale a intensão da obra, não sobram dúvidas. As dúvidas que sobram é se quem está por trás daquilo tem ou não cérebro. É preciso equilíbrio quando se trata deste assunto para o profissional dessa área. Garanhuns já não se permite mais improvisos ululantes em nome do que rotulam como renovação. Como se já não bastasse os cristãos desvairados que tascam no rosto e no corpo da estátua do cristo, tinta à óleo produzindo na suposta imagem do Galileu uma admirável Dreg Queem. Agora, diante do exposto a olho nu, nessa hecatombe arquiteônico-paisagística, só resta a imagem se desatarrachar de agonia e dizer para os quatro cantos: "Pai...Perdoa-lhes... Porque não sabem o que fazem!"