Garanhuns, 20 de novembro de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


Mijado

"De fato o mijo é próprio, ora mais amarelo, ora mais incolor".
-H. Hémil-


Acordava de madrugada. Tinha mijado no colchão de capim. Pelejava para prender o mijo até a casa tomar movimentos. Sentia o mijo fazendo pressão. Apertava-me, dobrava as pernas, encolhia-me, parecia um feto. Findava a bexiga por estourar ali, dilacerando a minha luta, esborrotando-a. Acordava de madrugada. Descobria-me do lençol grosso, tirava o corpo que se atolava na água quente, desviava-o para a outra banda do colchão. Não dormia, pensava algum tempo na luta perdida. Angustiava-me, tronxo, espremendo-me no fim da cama, livrando-me da água quente fétida.

Decerto que naquelas horas os meus amigos afundavam-me nos sonos. Enchiam os pulmões de ar, arqueavam o corpo e danavam-se nos sonhos. Dormiam tomados banho, acordariam com as caras amassadas, cabelos assanhados, remela nos cantos dos olhos, de resto acordariam limpos, como deitados a noite anterior.

Acordado, como se fosse um diabo, uma cãibra. Torto, o espinhaço doendo. Molhado. Precaviam-me de ir mijar antes de deitar-me. Conversa inútil. Movia-me para a cama e deitava sem dar por nada, embriagado de sono, fraco. Um inferno.

Queria dormir. Apertava os olhos. Afrouxava o corpo, espantava a resignação. Abria a boca como que tivesse sono. Uma chatice. Queria envocar o sono de minhas forças simples.

Pensava nos meus amigos. Dormiam em camas de espuma. Deviam sonhar que faziam presepadas, asneiras, artos. Acordariam enxutos. Passariam o dia todo sem tomar banho. Jogariam chimbre, matariam calangos. Arengariam uns com os outros por besteiras, safadezas pequenas. Estes pensamentos abalavam-me o corpo. Invejava-os; enxutos e decentes, dormindo em colchão de gente, amassando a cara, babas nos cantos das bocas, cabelos assanhados. Limpos como castiçais.

Por que eu não dormia? Havia de ser pelo espinhaço torto, doído, pelo pensamento que maquinava, pela angústia.

Meus amigos dormiam limpos, enxutos, mereciam colchão de espuma, lençóis alvos, babas nos cantos da boca. Atolava-me no mijo. Assado, envergonhado no colchão de capim. Um garrote na lama.