Garanhuns, 6 de novembro de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


"O fazer artístico, para quem se compro-mete, é sempre estar tirando algo de si".
(Candido Portinari)


Og tinha o hábito nojento de colecionar catotas. Já tivera uma coleção de pontas de cigarro. Toda manhã, antes do gari, ele ia ao ponto de ônibus e pronto: se acocorava junto ao meio fio, desse jeito e ia catando. Catava não as que eram fumadas no talo, as que o fumador fuma até sair o gosto de mato com tempero. Pegava somente as que ainda tinham um talo. Não era pra fumar nem nada. Era porque cada ponta tinha o desenho de um mapa, aqueles contornos bambos, aquelas linhas tremidas que tem no mapa do Brasil. Para Og, mapas só tinham graça, só mereciam contemplação se fossem assim, tremidos, que nem o do Brasil. O mapa que Og mais odiava na história do mundo era o dos Estados Unidos. Era um mapa todo certinho, parecia que tinha sido feito à régua. Era o único certinho de todos. Mapa mesmo só tinha graça pra ele se tivesse aquelas curvinhas meio pontudas que ele chamava de ' Dobras na Esquina'. Og também já colecionara espinhas de peixe, borrachas usadas, folhas secas, essas coisas assim que tivesse a graça de um desenho involuntário, uma coisa do acaso, meio do além.

O hábito de colecionar lhe veio de mediante uma obrigação. Era ele o encarregado de varrer o quintal e de pôr o lixo pra fora. Nesse costume forçado, nessa obrigação de jumento é que Og atentou para os diferentes contornos das folhas de seu quintal e as do seu vizinho; um talo mais fino que outro, uma folha menor, mais contornada que a outra. Juntou a sua com a do vizinho, juntou com o vizinho da frente à do homem da esquina. Tinha ele agora se iniciado na vida inquieta de colecionador.

Um dia Og tirara uma cotota e a catota ficou enganchada na unha, ele ia tirar ela dali de qualquer jeito. Do jeito que fosse. Esfregaria o dedo na parede, fingindo que estava lixando a unha, ou então ele ia limpar na calça mesmo, junto à barra, que mal haveria?

Og fora chamado urgente para fazer alguma coisa e acabou por esquecer a catota ali, na unha. A bem ver que aquela catota tinha cola forte, tinha um cimento potente, não desgrudava da unha, ficara ali, fiel como um cachorro. Mas tarde, quando Og não fazia mais mando algum, quando ele ficava de cara feia, reclamando de tantos serviços, da exploração medonha ao seu ser, quando ele ficava vendo os seus arranhões e os calos do serviço puxado, desumano, desmenino, é que ele atentara para aquela catota fiel: as variações de cinza, as partes mais achatadas, outras mais roliças e sobretudo os contornos.

Og enfiou o dedo no nariz a fim de puxar outra catota. Puxou e ficou comparando o cinza mais claro desta com o mais escuro da outra. A catota nova era amolecida e daí foi que veio no juízo dele a idéia de dar contornos ao material que tinha em mãos. Ele agora iria modelar, não o modelar de artesãos, aquele modelar de enfeite, de pôr na estante e dizer "Foi eu que comprei em tal lugar, de tal artesão, tal preço". Iria modelar sim, de impulso, de inconsciente, faria com liberdade em fazer, que nem os artistas modernos; uma abstração. Todo dia, pela manhã, ele faria uma coisa diferente. Até jogaria bola que era pra dilatar mais as narinas e respirar aquela poeira do chão. Aquela poeira amarela daria nova pigmentação as suas obras. Em nome dessa arte interior, encheria a palma seca da mão, fazendo uma concha pra não derrubar nada, de talco, pó de café e colorau e sacudiria pra cima, bem alto e ficaria esperando aquela poeirinha de tal cor descer pra respirar bem com força. Chegaria até a mexer na maquilagem da mãe.

Og se transformaria numa coisa nova para ele, num artista de envergadura. Exporia em bienais e faria sua biografia. Discursaria os novos caminhos da arte: "O artista contemporâneo deve voltar-se para elementos internos; o cuspo, as fezes, o sangue, é daí que ele deve produzir, de si. Não se deve temer o cheiro dessa arte, porque tal arte não é pra churrascaria, é pra tal coisa da existência".