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Crônicas Fraturadas
Hélder Herik
"O fazer artístico, para
quem se compro-mete, é sempre estar tirando algo de si".
(Candido Portinari)
Og tinha o hábito nojento de colecionar catotas. Já
tivera uma coleção de pontas de cigarro. Toda manhã,
antes do gari, ele ia ao ponto de ônibus e pronto: se acocorava
junto ao meio fio, desse jeito e ia catando. Catava não as
que eram fumadas no talo, as que o fumador fuma até sair
o gosto de mato com tempero. Pegava somente as que ainda tinham
um talo. Não era pra fumar nem nada. Era porque cada ponta
tinha o desenho de um mapa, aqueles contornos bambos, aquelas linhas
tremidas que tem no mapa do Brasil. Para Og, mapas só tinham
graça, só mereciam contemplação se fossem
assim, tremidos, que nem o do Brasil. O mapa que Og mais odiava
na história do mundo era o dos Estados Unidos. Era um mapa
todo certinho, parecia que tinha sido feito à régua.
Era o único certinho de todos. Mapa mesmo só tinha
graça pra ele se tivesse aquelas curvinhas meio pontudas
que ele chamava de ' Dobras na Esquina'. Og também já
colecionara espinhas de peixe, borrachas usadas, folhas secas, essas
coisas assim que tivesse a graça de um desenho involuntário,
uma coisa do acaso, meio do além.
O hábito de colecionar lhe veio de mediante uma obrigação.
Era ele o encarregado de varrer o quintal e de pôr o lixo
pra fora. Nesse costume forçado, nessa obrigação
de jumento é que Og atentou para os diferentes contornos
das folhas de seu quintal e as do seu vizinho; um talo mais fino
que outro, uma folha menor, mais contornada que a outra. Juntou
a sua com a do vizinho, juntou com o vizinho da frente à
do homem da esquina. Tinha ele agora se iniciado na vida inquieta
de colecionador.
Um dia Og tirara uma cotota e a catota ficou enganchada na unha,
ele ia tirar ela dali de qualquer jeito. Do jeito que fosse. Esfregaria
o dedo na parede, fingindo que estava lixando a unha, ou então
ele ia limpar na calça mesmo, junto à barra, que mal
haveria?
Og fora chamado urgente para fazer alguma coisa e acabou por esquecer
a catota ali, na unha. A bem ver que aquela catota tinha cola forte,
tinha um cimento potente, não desgrudava da unha, ficara
ali, fiel como um cachorro. Mas tarde, quando Og não fazia
mais mando algum, quando ele ficava de cara feia, reclamando de
tantos serviços, da exploração medonha ao seu
ser, quando ele ficava vendo os seus arranhões e os calos
do serviço puxado, desumano, desmenino, é que ele
atentara para aquela catota fiel: as variações de
cinza, as partes mais achatadas, outras mais roliças e sobretudo
os contornos.
Og enfiou o dedo no nariz a fim de puxar outra catota. Puxou e
ficou comparando o cinza mais claro desta com o mais escuro da outra.
A catota nova era amolecida e daí foi que veio no juízo
dele a idéia de dar contornos ao material que tinha em mãos.
Ele agora iria modelar, não o modelar de artesãos,
aquele modelar de enfeite, de pôr na estante e dizer "Foi
eu que comprei em tal lugar, de tal artesão, tal preço".
Iria modelar sim, de impulso, de inconsciente, faria com liberdade
em fazer, que nem os artistas modernos; uma abstração.
Todo dia, pela manhã, ele faria uma coisa diferente. Até
jogaria bola que era pra dilatar mais as narinas e respirar aquela
poeira do chão. Aquela poeira amarela daria nova pigmentação
as suas obras. Em nome dessa arte interior, encheria a palma seca
da mão, fazendo uma concha pra não derrubar nada,
de talco, pó de café e colorau e sacudiria pra cima,
bem alto e ficaria esperando aquela poeirinha de tal cor descer
pra respirar bem com força. Chegaria até a mexer na
maquilagem da mãe.
Og se transformaria numa coisa nova para ele, num artista de envergadura.
Exporia em bienais e faria sua biografia. Discursaria os novos caminhos
da arte: "O artista contemporâneo deve voltar-se para
elementos internos; o cuspo, as fezes, o sangue, é daí
que ele deve produzir, de si. Não se deve temer o cheiro
dessa arte, porque tal arte não é pra churrascaria,
é pra tal coisa da existência".
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