Garanhuns, 6 de novembro de 2004
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CORREIO DOS BICHOS

Bruno Neves Wanderley


Saiba um pouco mais sobre adestramento.

Gostaria de saber a diferença entre adestramento de obediência, de ataque, de defesa, e de guarda. E qual é o mais indicado?

A primeira e mais importante fase do aprendizado canino, chama-se adestramento de obediência, antes de pensarmos em adestrar nosso cão para a defesa, ataque e guarda, devemos mesmo, adestrá-lo muito bem para obediência, e se este adestramento for realizado de forma incorreta onde o cão "aprenderá" a temer seu "condutor" não teremos jamais um cão para as fase seguintes do aprendizado, pois teremos um cão talvez bravo mais inseguro e obviamente temeroso.

No adestramento de obediência o cão aprenderá inicialmente a respeitar, e principalmente a confiar em seu condutor (seja ele o adestrador, ou seus donos), alguns adestradores iniciam este treinamento de respeito e confiança com os cães e seus proprietários logo aos 4 meses de idade e só aos 6 meses iniciam então o treinamento propriamente dito de obediência, tais como: o senta, o fica, o deita, o junto, o larga, o aqui e o atenção, o cão e seus donos só estarão aptos a passar para próxima fase do adestramento após exercerem com presteza e sem o auxílio do guia todos os comandos dentro ou fora de sua residência; nesta fase, o tempo de aprendizado sofrerá variações que poderá variar muito conforme a raça, o sexo, a idade inicial, os métodos e a freqüência do adestramento, e ainda das individualidades de cada cão e seus donos.

Logo após o adestramento de obediência o cão passará para a segunda fase e aprenderá o que denominamos de adestramento de defesa, ou seja, ele só irá demonstrar sinais de agressividade quando ele ou seu condutor forem ameaçados. Nesta fase do adestramento o cão fica ao lado do condutor, na guia, e o cobaia ameaça-os com movimentos agressivos. Neste momento o cão é incentivado a defender seu condutor que está sendo atacado pelo cobaia, numa reação de defesa.

É nesta fase que será testada a aptidão ou não do cão para o treinamento de ataque e guarda, e só continuaremos o adestramento dos cães com temperamento equilibrado, cães que apresentem algum desvio de comportamento (inseguros, medrosos e excessivamente violentos entre outros) não deverão ser adestrados para ataque ou guarda.

Na terceira fase de treinamento, teremos um cão completamente obediente, que responderá imediatamente aos nossos comandos e só faremos o adestramento de ataque aos poucos cães aptos para tal função. Nesta fase o cão é incentivado a atacar, encurralar e imobilizar quando preciso for qualquer pessoa sob nosso comando, mesmo que não haja nenhuma ameaça aparente.

A quarta fase do treinamento será o adestramento de guarda. Nesta fase o cão irá atacar qualquer estranho que tentar invadir a sua propriedade ou que tente chegar perto de um objeto a ser guardado. Nesta fase o cão não precisa mais que o dono esteja por perto ou que seja dado um comando para ele executar o trabalho.
Lembre-se: Não é qualquer treinador que é bom para avaliar e treinar o seu cão e, principalmente, não é qualquer dono que pode ter um cão treinado para defesa, ataque ou guarda. Vale lembrar que cães adestrados precisam de reforços periódicos de adestramentos realizados por profissionais competentes.

Muitas pessoas ao adquirirem um cão de "guarda" e "feroz", não adestram-no ou o que é pior, ensinam-lhe o comando de ataque com o famoso "pega" simplesmente por que querem possuir um cão bravo mesmo sob o risco de estar criando um futuro "assassino" independentemente da raça do animal. São estas pessoas os verdadeiros responsáveis por tantos acidentes ultimamente vistos provocados por cães.

Sempre que lemos as várias notícias trágicas de cachorros que atacaram pessoas e crianças, com mortes e mutilações, não nos ocorre que muitas pessoas que possuem cães para a guarda não estão cientes da responsabilidade e do perigo que é ter um animal destes em casa. Como profissional da área, tive a oportunidade de ver e observar vários tipos de cães. Alguns mansos, outros agressivos, alguns neuróticos, outros inteligentes, alguns brincalhões, outros sérios, e poucos realmente equilibrados.

A maioria das pessoas quando pensa num cão de guarda, pensa logo nos cães da polícia: cachorros muito bem treinados, precisos no ataque de bandidos e sob controle total de seu dono.

Mas no Brasil, muitos daqueles que possuem "cães de guarda" nunca procuraram um treinador profissional, nunca trabalharam com seus cachorros, nunca socializaram estes animais. Poucos se preocuparam com a índole do animal antes de comprá-lo e partem do pressuposto de que cachorro de guarda tem que ser muito bravo. Acreditam que o cão deve ficar preso o dia todo e só ser solto durante a noite que é para não ficar amigo de estranhos.

Pode parecer estranho, mas os cachorros escolhidos para o policiamento não são aqueles que apresentam propensão para a agressividade. Muito pelo contrário. Os melhores cães para a polícia são os que apresentam maior poder concentração e vontade de brincar. Para estes cães, não existe motivo algum para temer ou odiar pessoas estranhas. Para que sejam confiáveis e úteis na segurança da população, eles, os cães da polícia, têm que ser dóceis e mansos quando andando no meio das pessoas. Numa rua cheia, eles devem se manter sempre do lado esquerdo de seus companheiros policiais e aceitar com prazer os carinhos das crianças que nunca se cansam de admirar tão belo animal.

O ataque para estes cachorros não é pessoal, ou seja, eles não são treinados para ter raiva, ou perseguir nenhum grupo de pessoas específico, nem tampouco para serem agressivos ou arredios com estranhos. Estes cães são treinados para gostar de um jogo, uma brincadeira muito excitante que é pegar o cara mau. Isso mesmo, para o cachorro tudo não passa de uma brincadeira, que ele gosta muito, de imobilizar e morder uma pessoa que seu dono mandou pegar. O cão nunca vai iniciar uma perseguição ou um ataque sem que ele tenha sido comandado. Claro que este comando não precisa ser unicamente verbal. Um movimento brusco por parte da pessoa que está sendo investigada, ou a tentativa de fuga desta pessoa pode ser a "deixa" para uma imobilização.

A visão de uma arma, a agressão ao dono por parte do suspeito, ou um discreto comando físico pode ser suficiente para o cão iniciar um ataque. Os cães escolhidos para se tornar um cão de guarda devem fazer parte da família. Conviver com as crianças, brincar no quintal e ser companheiro inseparável de seus donos.

Qualquer pessoa que deseja ter um cão de guarda deveria ter os mesmos cuidados que a polícia. Escolher a raça mais adequada. Investigar o temperamento dos pais do filhote e evitar qualquer animal que apresente sinais de agressividade excessiva ou medo e desconfiança de pessoas estranhas. Socializar o filhote e educá-lo com amor e paciência para que ele cresça confiante e tranqüilo. Fazer com que este animal participe da vida da família, fortalecendo os laços de amizade entre cão e humanos. Procurar um treinador profissional competente e capaz e solicitar uma avaliação do animal, aceitando se o parecer deste treinador for contrário ao treinamento do cachorro para guarda. Participar ativamente das seções de treinamento do cachorro. Prover alimentação e cuidados veterinários adequados. E, principalmente, ser responsável pelo animal e pela segurança das pessoas que trabalham ou visitam a sua residência.

Para evitar tantas tragédias como as que aparecem nos jornais todos os anos é preciso lembrar que um cachorro não é capaz de distinguir a diferença entre um atleta fazendo jogging ou um ladrão correndo em disparada; entre um bandido escondido num beco ou uma criança brincando de esconde-esconde; entre um ladrão atacando seu dono, ou apenas um amigo mais espalhafatoso.

Em última análise, um bom cão de guarda só precisa dar o alarme, latindo, na hora em que uma pessoa estranha se aproximar da casa para que o dono possa tomar as medidas necessárias para a proteção de seu patrimônio. A falsa segurança que as pessoas sentem quando possuem um cachorro feroz em casa pode ser fatal para os donos, para pessoas de bem e principalmente para crianças curiosas e indefesas diante de tamanha fúria.