Garanhuns, 23 de outubro de 2004
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HUMOR

Raulzito


Criança faz cada uma

Não tenho filhos ainda, pois a Viviane teima em tomar a pílula e não deixa eu ter um herdeiro. O nosso rebento teria direito a um barraco em Manoel Chéu, numa rua sem calçamento e saneamento, perto de um mercado embelezado com um belo poster do governador do estado e do prefeito do município.

Meu filho teria ainda um gato, um cachorro fedorento e um radinho de pilha para ouvir a ronda policial ou o Fernandinho desde pequenininho. Nas manhãs de domingo, eu o levaria para o balneário de Antônio Justino e se ele pegasse uma micose eu pediria um remédio ao seu Luiz da Farmácia, sem precisar pagar consulta.

Ah! Como eu gostaria de ter um filho! Mas a Viviane só gosta de brincar e nem pensa em assumir responsabilidade. E aí eu fico feito o Odair José, o meu cantor brega preferido da década de 70: "pare de tomar a pílula..."

Toda essa vontade de ser pai despertou quando da passagem do dia da criança, quando fui ao Parque Euclides Dourado e vi de perto dezenas ou centenas de pimpolhos animando aquele espaço público.

E aí vinham as mães, conversando, e contando as vivacidades dos seus pequenos. "Quem telefala?", dizia a esperta Roberta, de apenas dois anos, ao atender ao telefone. Vitória, aos seis anos, supreendeu os tios ao fazer esse comentário a respeito do pai: "coitado, perdeu a memória". Tudo porque ele não conseguia lembrar um certo número de telefone.

A criançada corre pelo parque. Um cai e abre o berreiro. Outro joga areia no coleguinha. Sandrinha, zangada chuta a canela do amigo, enquanto Bruno bota a pitoca pra fora e alivia a vontade ali mesmo, diante de todo mundo.

Criança encanta, mas também aperreia um bocado. Que o diga Judy, que tinha dois filhos a lhe tirar o juízo e resolveu ter mais um. Um dia, apoplética com o que os dois mais velhos faziam, protestou contra as diabrices: "São duas pestes...". A mais velha, tímida, observou: "Oh mãe, agora são três...".

E lá nos cafundó, bem longe da rua da Areia, da praça Guadalajara e da rua da Tábua, um menino todo dia subia em cima da casa, deixando os pais de cabelo em pé. Subia na cumeeira e ficava olhando o povo lá embaixo, tudo curioso. Esse era o Júnior, que vivia brigando com a irmã. Um dia, pra se vingar dela, pegou os três gatos - Rita Lee, Gal Costa e Maria Betânia - e trancou-os dentro da geladeira.

Depois de fazer a arte, o menino chamou um adulto e pediu segredo: "Não diz a minha irmã não, mas os gatos dela eu escondi dentro da geladeira". Com a confissão inocente, os felinos escaparam de morrer congelados.

Eu já fui criança, como esses aí. E me lembro que era muito bom mesmo. Uma vez, numa festa de aniversário, tinham uns palhaços animando o parabéns pra você. Atanazei tanto os artistas, puxei tanto os caçolões dos dois que terminei por derrubar um deles. O cara perdeu a graça e no fim confessou: "Se esse menino estiver por perto nunca mais me contratem. Por dinheiro nenhum".

Pior fez o Cassiano, que na escola quebrou os dedos da professora, ao fechar a porta sem ela esperar. E ele tem a cara de um anjo, os olhos totalmente inocentes...

E o que eu mais desejo é ter um filho assim: desses que correm, gritam, cantam, perguntam, brigam, sorriem, tropeçam, levantam, choram, dormem, provocam cansaço, encantam, preenchem a nossa vida.

Ainda vou convencer a Viviane de que sexo é bom, mas que há uma finalidade maior no ato de amar. E aí, quando tiver um filho, quero ele bem peralta. Vou deixar ele roubar uma flor no Pau Pombo, escolher um brinquedo de R 1,99 no pop shop e comer um pastel numa das barracas do Brás. Quando começar a falar, vou pedir que diga alguma frase no guia eleitoral, em época de propaganda política, e quem sabe o meu pimpolho será tão importante quanto eu.

Quero um filho que me liberte da babaquice, do conservadorismo e da monotonia; dos governantes medíocres e egoístas, do catolicismo alienante e neo-capitalista, e de algumas estrelas histéricas e vaidosas da mídia.

Filosofo e conto histórias engraçadas de crianças para convencer a Viviane, mas ela permanece irredutível. Diz que eu não vou limpar a bunda do menino ou menina, que não acordarei de madrugada pra fazer a mamadeira dele ou dela e que com o ordenado do Correio Sete Colinas meu filho ou filha morrerá de fome.

- Se tivermos um menino ele será virado como o diabo e todos perderão a paciência com o coitado. Quando ele aporrinhar muito vão logo chamá-lo de "filho da puta" e aí quem sairá do sério sou eu. É melhor ficarmos só no bem bom e não aumentarmos a população da terra - disse a minha namorada, com um linguajar surpreendente, talvez influenciada por alguma novela da televisão ou pelo programa do Marcos Cardoso.

Resolvi ficar calado e imaginei, resignado, que ainda iria passar muitos dias da criança sem ter um danadinho a aprontar. Como aquele moleque que outro dia, ao ver a foto de um político da cidade pendurada no poste, diagnosticou, seguro:

- Parece o mosquito da dengue!