Garanhuns, 11 de setembro de 2004
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OPINIÃO
 

Collor x Lula e os 35 anos do JN

José Sales


Transcrevo o comentário do jornalista Osvaldo Maneschy postado há pouco neste blog. "Lendo o texto de Ronald de Carvalho no "Comunique-se" sobre o famoso debate editado pela Rede Globo entre Collor e Lula na véspera do segundo turno da eleição presidencial de 1989, me senti na obrigação de escrever essas linhas pelo fato de ser, naquela época, juntamente com Silvia Morethzon, integrante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Especialmente porque em determinado trecho de seu artigo, Ronald - ex-colega de JB nos anos 70 - afirma: "Surge no livro sobre os 35 anos do Jornal Nacional um depoimento novo. O jornalista Otávio Tostes se contorce em culpa pela edição do debate. Otávio, que até hoje nunca tinha aparecido nessa ciranda, poderia aliviar sua angústia ao se lembrar de que, em todo o episódio, foi apenas um coadjuvante, assim como o tal editor de imagem. Otávio foi um pequeno figurante sem fala no texto da peça".

Pois quero lembrar que imediatamente depois do escândalo nacional causado pela edição dos 'Melhores momentos de Collor X Piores momentos do Lula', que quem acompanhou as eleições presidenciais de 1989 se lembra perfeitamente, a Comissão de Ética do Sindicato convocou os profissionais do jornalismo da Globo para que se explicassem sobre o "debate" à luz do Código de Ética. O único que atendeu a convocação dos representantes da categoria para explicar o que acontecera nos bastidores da Globo foi exatamente o "pequeno figurante" Otávio Tostes. E seu relato e o nosso, de integrantes da Comissão de Ética, se manteve praticamente inédito esses anos todos. É importante frisar que Otávio Tostes foi o único profissional da Globo, agora posso dizer sem nenhum problema, que teve a coragem pessoal e profissional de abrir a alma diante da Comissão de Ética não fugindo de suas responsabilidades como cidadão e como jornalista. Foi um gigante. E nós soubemos naquela ocasião, com riqueza de detalhes, tudo o que acontecera e que só anos mais tarde viria a público. Otávio, sozinho, relatou tudo que aconteceu envolvendo o debate que beneficiou o candidato do Dr. Roberto Marinho.

Os demais profissionais da emissora ignoraram o chamado da Comissão de Ética - preferiram se omitir, não explicar nada, refugiando-se na postura imperial das Organizações Globo de praticamente ignorar o Sindicato e as criticas ao "debate". Tanto que só no clássico documentário "Além do Cidadão Kane", de Simon Hartog, da BBC, é que alguém da Globo se explicou publicamente sobre o episódio. No caso Armando Nogueira - jogando a responsabilidade final da edição sobre Alberico Souza Cruz que, coincidentemente, assumiu o seu lugar na direção do jornalismo da Globo - exatamente, segundo Nogueira, pelo fato dele se recusar a editar o debate Collor X Lula, o que Alberico teria feito com muito prazer - segundo narra o próprio Nogueira no documentário da BBC. Hoje, passados tantos anos desse episódio, é interessante ver a própria Rede Globo levantar essa questão, falando nos 35 anos de "bom jornalismo" do Jornal Nacional. Como se "editar" debate na véspera da primeira eleição direta para a presidência da Republica depois de 25 anos de ditadura militar, atropelando inclusive o Código Eleitoral que até hoje proíbe propaganda eleitoral 24 horas antes da eleição, fosse a coisa mais natural do mundo.

Parabéns a Globo por ter conseguido manter o assunto no limbo por tanto tempo, parabéns a Ronald de Carvalho, por assumir toda a culpa pela edição do debate no lugar dos donos da emissora. Trabalhei nove anos no jornal "O Globo", muitos deles na editoria de política - e se uma coisa aprendi naquela casa é que em se tratando de política, nada, absolutamente nada, sai publicado ou vai ao ar nas Organizações Globo sem ser expressamente filtrado - o que naquela época, 1989, véspera da primeira eleição presidencial depois da ditadura, era atribuição única, exclusiva e não delegada do Dr. Roberto Marinho. Pedi demissão da Política do "Globo" exatamente em 1989 porque não agüentava mais a forma descarada com que o jornal e a televisão distorciam o noticiário em benefício da campanha de Collor. Aquilo foi uma vergonha e eu, como Otávio Tostes, fui testemunha ocular da historia. Ninguém me contou. Eu vi. Como também integrante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas naquela ocasião, diante do depoimento singular de Otávio Tostes, me senti na posição de leão de circo romano. E vi Otávio Tostes - velho e correto companheiro do jornal O Globo - na posição do cristão prestes a ser devorado na arena.

Naquela ocasião eu e Sylvia decidimos não punir, à luz do Código de Ética, Otávio Tostes. Por sua hombridade de ir ao sindicato e nos contar tudo. Puni-lo por que e para que, se os verdadeiros responsáveis não se apresentaram e continuariam a trabalhar impunes? Fizemos uma nota explicando a posição da Comissão de Ética sobre o episódio e a distribuímos - e como acontece sempre quando o assunto não é do interesse dos donos da mídia - ninguém a publicou, não teve a menor repercussão. É bom lembrar também que Collor teve o apoio maciço da mídia: todos os grandes jornais, rádios e tevês deram ampla visibilidade a sua campanha, alavancando a sua vitória.

Também é importante lembrar que durante toda a campanha eleitoral Collor teve de um minuto a um minuto e meio de seus melhores momentos de campanha, diariamente, divulgados no Jornal Nacional. O mesmo que ignorava, por exemplo, as candidaturas de Lula e Brizola ou as noticiava só para falar mal. Aquela cobertura foi uma vergonha!"