Garanhuns, 11 de setembro de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


"Um profundo suspiro de
alívio deu fim ao pesadelo.
Nada havia a temer,
Todos os perigos eram
Apenas imaginários."
(Manuel Puig)


I filho de Og mandara-lhe uma carta solene. Carta magra, porque a carta acemelha-se a cara chupada dos dois; a pouca comunicação dos dois, o quase sem língua para a fala, a língua somente com a saliva para as bolachas da manhã. O filho de Og escrevera com força, com aquela letra tremida, letra primária. Escrevera com tanta força que abria sulcos no papel. Escrevera mesmo assim "Vou-lhe chamar de meu pai, porque não há raiva entre a gente." E ao escrever isso ele chegou a pensar que estava mentindo, mas até mesmo se mentisse, ali, naquela hora da carta, ele esqueceria prontamente, esqueceria como se nunca tivesse lembrado, esqueceria que estava mentindo para ele e para o pai. "Não há feridas no coração de um nem de outro. A nossa ferida que é certa está na boca, inchada. Na cobrança de sua boca. Nessa cobrança de querer-me herói; filho herói-do-pai. "Estou estupefato dessa guerra. Estupefato.

Og vivia ficando na sala, ficando ali, a frente da televisão que era esperando avistar o filho nela. Aparecendo lá como herói ferido; magro, a barba grossa por fazer, a cara magra igual a dele, mesminha, cara melada de lama e pólvora. Mais pólvora na cara do que lama. Lama de pólvora. Ficou aquele ano todo de cinza ali à frente da televisão.

Hoje eu o vejo... Eu vejo ele...

"Para o senhor, meu pai, Og." O envelope dizia isso Og lembrou a voz do filho, mesminha que a dele. Começou a leitura em voz alta, se tapeando que era a voz do filho. Um dia Og o tinha chamado de filho-da-puta, disse isso com raiva esticando o pescoço e espumando, dando-lhe um tapa nas costas. Og disse de novo, disse com alegria "Ele tá vindo, aquele filho-da-puta tá vindo. Aquele corno."