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Crônicas Fraturadas
Hélder Herik
Eu disse que não se borda numa borboleta. De onde é
que eu tiro uma coisa dessas? E eu disse depois que uma borboleta
já foi bordada no casulo. No "casulo da carne".
Não sei explicar de onde tiro essas coisas. Tiro-as da cabeça,
da vida. Sou poeta...
Ei disse com uma voz firme, voz de boi: te amo, mafia. Ou então
eu disse assim, sem a pausa da vírgula: te amo mafia. E você
me pergunta por que é que eu digo essas coisas. Eu te amo
porque eu te amo? Não sei explicar porque digo essas. Eu
te amo porque eu te amo, e porque sou triste e porque sou alegre,
e porque sou inteligente e sou burro, e sou ignorante que nem uma
faca de mesa, de mesa de açougue, e sou sensível que
nem um alfinete novo no meio de uma folha branca e sem amasso. Eu
te amo por que soi isso que digo e porque encontro tudo isso em
você. E você parece ter mais isso do que eu.
Acho que te amo não por uma coisa que me falta, porque se
uma coisa me falta essa coisa não chega nem a ser uma ausência,
porque não a conheci e eu não gosto do que não
conheço. Então eu te amo porque você tem coisas
que eu tenho, coisas que são minhas. Então é
como se eu te amasse te roubando. Roubando o que me pertence. Um
ladrão só rouba uma coisa que lhe interessa. E sendo
assim eu não tenho um amor que nem o de cristo, que ama o
que lhe é alheio ao interesse. Então eu te amo porque
você tem coisas que eu posso roubar.
Um sapo que vai ao jardim,
Que vai roubar as azaléas.
Um sapo sempre a voltar
ao jardim e sempre a roubar
azaléas pra se roubar.
Hélder Herik
"E então José se virou para olhá-la,
bruscamente,
a fundo, como se uma idéia tivesse afluído a
sua cabeça"
Gabriel García Márquez
Ele disse assim, então a gente se separa, porque não
dá mais pra gente viver emendado que nem borboleta na flor.
Porque não dá mais não. Ela queria falar mas
ele tinha os olhos duros e ai ela ficou com os lábios tremendo.
Ele disse que aquela situação era uma bosta e ela
disse que uma bosta era ela. E ela disse que era pra ele acabar
com aquela situação logo se não iria escurecer.
E ele disse que eles eram tão emendados, disse que iria acabr
com aquilo e que ela ficasse tranquila mas que ia demorar um pouco
porque ele queria ver escurecer em pouco tempo e ela disse que queria
ser uma fruta madura pra ele tirar do pé e eles começarem
tudo de novo outra vez e ela ainda disse que só chegou até
ali, até aquele estado medonho, até aquela bosta toda,
porque ela queria estar dentro dele que nem sangue e que ela nunca
tinha desejado ser perfume e ela disse, já escurecendo, que
era a parte ruim dele e implorou para ele dá um fim nisso
tudo e ele se vestiu e disse assim, até, depois ele foi e
puxou a descarga.
"Tudo o que poderia existir,
já existe. Nada mais pode
ser criado senão revelado."
Clarice Lispector
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, Ucrania, ex-URSS, a 10
de dezembro de 1925. Com dois meses de idade veio com a família
para o Brasil. A própria escritora assim se refere a sua
infância: "Sou brasileira naturalizada, quando, por uma
questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da lingua
portuguesa a minha lingua interior, o meu pensamento mais íntimo,
usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos
logo que me alfabetizaram e escrevi-os em português, é
claro. Criei-me em Recife. Com sete anos eu mandava histórias
e histórias para a seção infantil que saia
as quartas-feiras num diário. Nunca foram aceitas."
Leitor amigo, o parágrafo acima não é meu.
É interessante. Não é meu. Coloquei-o porque
o editor deste jornal me dá liberdade. Tenho que garantir
minha coluna e nem sempre escrevo coisas que prestem. Como sabem
eu não escrevo sobre acontecimentos da cidade, não
dou informações, isso é coisa pra Roberto Almeida,
nem falo sobre política, quem fala é Rafael Brasil.
O que eu faço é contar estórias, como esta,
por exemplo: Nasceu uma flor à cores pelo orifício
esquerdo de seu nariz... Essa estória eu vo contar noutra
crônica, tenha nervos e esperem, leitor amigo. Até
a próxima edição.
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