Garanhuns, 14 de agosto de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


Eu disse que não se borda numa borboleta. De onde é que eu tiro uma coisa dessas? E eu disse depois que uma borboleta já foi bordada no casulo. No "casulo da carne". Não sei explicar de onde tiro essas coisas. Tiro-as da cabeça, da vida. Sou poeta...

Ei disse com uma voz firme, voz de boi: te amo, mafia. Ou então eu disse assim, sem a pausa da vírgula: te amo mafia. E você me pergunta por que é que eu digo essas coisas. Eu te amo porque eu te amo? Não sei explicar porque digo essas. Eu te amo porque eu te amo, e porque sou triste e porque sou alegre, e porque sou inteligente e sou burro, e sou ignorante que nem uma faca de mesa, de mesa de açougue, e sou sensível que nem um alfinete novo no meio de uma folha branca e sem amasso. Eu te amo por que soi isso que digo e porque encontro tudo isso em você. E você parece ter mais isso do que eu.

Acho que te amo não por uma coisa que me falta, porque se uma coisa me falta essa coisa não chega nem a ser uma ausência, porque não a conheci e eu não gosto do que não conheço. Então eu te amo porque você tem coisas que eu tenho, coisas que são minhas. Então é como se eu te amasse te roubando. Roubando o que me pertence. Um ladrão só rouba uma coisa que lhe interessa. E sendo assim eu não tenho um amor que nem o de cristo, que ama o que lhe é alheio ao interesse. Então eu te amo porque você tem coisas que eu posso roubar.

Um sapo que vai ao jardim,
Que vai roubar as azaléas.
Um sapo sempre a voltar
ao jardim e sempre a roubar
azaléas pra se roubar.
Hélder Herik

"E então José se virou para olhá-la, bruscamente,
a fundo, como se uma idéia tivesse afluído a
sua cabeça"
Gabriel García Márquez


Ele disse assim, então a gente se separa, porque não dá mais pra gente viver emendado que nem borboleta na flor. Porque não dá mais não. Ela queria falar mas ele tinha os olhos duros e ai ela ficou com os lábios tremendo. Ele disse que aquela situação era uma bosta e ela disse que uma bosta era ela. E ela disse que era pra ele acabar com aquela situação logo se não iria escurecer. E ele disse que eles eram tão emendados, disse que iria acabr com aquilo e que ela ficasse tranquila mas que ia demorar um pouco porque ele queria ver escurecer em pouco tempo e ela disse que queria ser uma fruta madura pra ele tirar do pé e eles começarem tudo de novo outra vez e ela ainda disse que só chegou até ali, até aquele estado medonho, até aquela bosta toda, porque ela queria estar dentro dele que nem sangue e que ela nunca tinha desejado ser perfume e ela disse, já escurecendo, que era a parte ruim dele e implorou para ele dá um fim nisso tudo e ele se vestiu e disse assim, até, depois ele foi e puxou a descarga.

"Tudo o que poderia existir,
já existe. Nada mais pode
ser criado senão revelado."
Clarice Lispector

Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, Ucrania, ex-URSS, a 10 de dezembro de 1925. Com dois meses de idade veio com a família para o Brasil. A própria escritora assim se refere a sua infância: "Sou brasileira naturalizada, quando, por uma questão de meses, poderia ser brasileira nata. Fiz da lingua portuguesa a minha lingua interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram e escrevi-os em português, é claro. Criei-me em Recife. Com sete anos eu mandava histórias e histórias para a seção infantil que saia as quartas-feiras num diário. Nunca foram aceitas."

Leitor amigo, o parágrafo acima não é meu. É interessante. Não é meu. Coloquei-o porque o editor deste jornal me dá liberdade. Tenho que garantir minha coluna e nem sempre escrevo coisas que prestem. Como sabem eu não escrevo sobre acontecimentos da cidade, não dou informações, isso é coisa pra Roberto Almeida, nem falo sobre política, quem fala é Rafael Brasil. O que eu faço é contar estórias, como esta, por exemplo: Nasceu uma flor à cores pelo orifício esquerdo de seu nariz... Essa estória eu vo contar noutra crônica, tenha nervos e esperem, leitor amigo. Até a próxima edição.