Garanhuns, 14 de agosto de 2004
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Especial
  Cultura / Diversão
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
CIDADE
 

CENAS DE DESESPERO

Na cadeia, as cenas eram de desespero. As esposas, em histerismo, cabelos em desalinho, choravam com os órfãos a perda irreparável do marido; abraçados, as lágrimas caiam as bagas em meio a todo sofrimento, o desespero rolava na face de cada um.

Ao chegar defronte da cadeia, o sargento Malta, vendo o capanga com um fuzil de um dos soldados mortos, montando guarda à cadeia, intimou Pae de Égua a abandonar o fuzil e retirar-se, no que foi atendido, encontrando-se com ele o capitão Antônio Rosa, recebendo do subdelegado a ordem para providenciar uma carroça de lixo para conduzir os mortos à igreja matriz onde seriam colocados num dos corredores laterais. Antonio Rosa, agindo como se nada tivesse feito, mostrava-se indignado. Um procedimento calculado para minimizar sua culpa.

O sargento Malta ao entrar na cadeia que já estava invadida pelas famílias dos que ali foram sacrificados, verificou que estavam mortos todos os sete homens que ali foram levados com garantia de suas vidas, além do menor Gonzaga

Jardim, o cabo Cobrinha, os três soldados, e no pátio alguns jagunços que o sargento não conhecia.

Uma gritaria partiu da cela quando as viúvas se depararam com o quadro aterrador, os corpos mergulhados em sangue, o choro alto de lamúria das viúvas andou por toda direção. Devido a grande quantidade de sangue que formava uma enorme poça de sangue na cela, os rostos das vítimas irreconhecíveis encontravam-se todos ensangüentados o que levou as viúvas a buscarem bacias de água para limpar os rostos. Levantavam as cabeças lavando-as com água e lágrimas, o choro e o desespero pareciam não ter fim e crescia ao reconhecerem os esposos, parentes ou amigos.

Providenciada a carroça, já quase ao anoitecer, trataram de transportar os cadáveres de quase todas as vítimas, com exceção apenas de poucos deles,sendo permitido a condução para as casas das viúvas dos irmãos Mirandas, Francisco Veloso, Manuel e Gonzaga Jardim.

Entre os corpos dos soldados e capangas foram jogados na carroça o major Sátiro Ivo e o Dr. Borba Junior. Ao lado da carroça uma cena era comovente, um carneirinho de estimação do Cabo Cobrinha, berrava ininterruptamente e erguia as patas, tentando ver o corpo do cabo inanimado ser colocado na carroça. Ali o animal continuaria seu berro triste vários dias a espera da volta do cabo.

A carroça, em seu trajeto, da cadeia a matriz, tinham os carroceiros à ordem de pararem em frente da casa da viúva Ana Duperron, para poder ter ela a certeza de haverem sido cumpridas as suas ordens. Quando ouviam o canto do carro, o seu parente afim, o farmacêutico e conselheiro municipal, Jacome Sampaio saia da casa para isso verificar na rua e transmiti-lhe as notícias, depois de sua revista, tinham ordens os carroceiros de prosseguir a viagem.

Estevão, que acompanhava tudo à distância, junto com outros curiosos, viu o cadáver do Dr. Borba Junior, colocado sobre os outros, em decúbito dorsal, com as pernas dependuradas na carroça, encharcadas as suas vestes de sangue, já coagulado.

Eram imagens terríveis para o repórter, que embora acostumado desde muito as graves comoções e perversidades, jamais presenciara tamanha tragédia. Naquele dia o destino lhe reservou ser marcado por tão tristes acontecimentos.