Garanhuns, 31 de julho de 2004
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OPINIÃO
 

Os preconceitos contra o Nordeste

Da atriz Liliam Ferreira o Correio recebeu interessante e-mail, duma polêmica que rolou nas páginas da Folha de São Paulo. A artista garanhuense mostra que Danuza Leão, em artigo publicado no respeitado jornal paulista, revela claramente "o tamanho do preconceito que a elite deslumbrada do sul maravilha tem para com uma das mais importantes manifestações culturais brasileira que são as festas juninas e claro com o Presidente LULA e seu governo".

No outro dia a Folha de São Paulo publicou como réplica um "ótimo artigo que pode ser lido logo após o artigo de Danuza", registrou Liliam. Abaixo, os artigos publicados no maior jornal do país:


ARTIGO

DANUZA LEÃO COLUNISTA DA FOLHA

Com todo o respeito: a idéia de comemorar as bodas de pérola com uma festa caipira não podia ter sido pior. O Brasil tem tantos regionalismos bacanas, uma culinária riquíssima, várias maneiras de ser cheias de ginga e charme que deslumbram o mundo inteiro, e o presidente e dona Marisa Letícia vão escolher logo uma caipirada dessas? Foi um desastre desde o começo: o tema da festa, o carro de boi chegando cheio de paçoca e cachaça, o autoritarismo de obrigar os convidados e suas respectivas esposas a vestir o traje típico, e ainda pedir que levassem um pratinho de doces ou salgados. Quem eles acham que estão enganando na hora em que a assessoria de imprensa da Presidência da República anuncia que o presidente ajudou a pendurar as bandeirinhas do arraiá? Oh, mas que almas tão genuinamente brasileiras? Socorro, Duda Mendonça. Alguns mais sensatos não pagaram o mico de usar aquele chapeuzinho de Jeca Tatu, mas é difícil dizer não ao presidente. Como estamos num Estado quase totalitário, a imprensa foi proibida de cobrir o acontecimento, o que nos leva a pensar: terá algum ministro pintado um dentinho e um bigodinho com carvão, como é de praxe? O vice-presidente, talvez? Um país que quer tanto ser moderno poderia ter se inspirado em qualquer outro folclore que não o do atraso, o da jequice explícita. Quem não se lembra do personagem Jeca Tatu, cheio de lombrigas, personificando um Brasil de que lembramos com carinho, mas que não é exatamente a imagem a ser exportada para os grandes estadistas do mundo com quem Lula gosta tanto de conviver de igual para igual?

Não há uma mulher que se realce num vestidinho caipira; não existe imagem masculina que resista a uma camisinha xadrez remendada e uma costeleta postiça. E essa história das despesas da festa serem divididas? Foi um vexame atrás do outro, em nome de uma economia sem sentido, tipo me engana que eu gosto. Então é preciso que alguns empresários rachem a reforma das goteiras do Palácio da Alvorada para mostrar o quanto são parcimoniosas as despesas da Presidência? E essa de levar um pratinho de doces eu não ouvia falar desde que tinha dez anos, morava no interior e era pobre. Se investigassem mesmo o affair Waldomiro, sairia bem mais barato. A gente temia que fosse acontecer esse tipo de coisa; até agora foi refresco, mas agora eles pegaram pesado. Olhem bem a foto para não perder nenhum detalhe: a margarida no bolso de Lula, o chapéu de palha desfiado, as trancinhas e as pintinhas feitas a lápis no rosto de dona Marisa. Pior, impossível.

Sempre se soube que a saudade de Fernando Henrique e dona Ruth Cardoso ia ser grande, mas não dava para imaginar que fosse ser tão grande. O arraiá foi de uma breguice difícil de ser superada, mas não vamos perder as esperanças: até o fim do mandato eles talvez consigam.


RÉPLICA

Com todo o respeito, Danuza!

MÁRCIA CAMARGOS ESPECIAL PARA A FOLHA

A carga de preconceito patente no artigo de Danuza Leão ontem neste jornal, ao criticar o arraial caipira promovido pelo presidente da República, estarrece quem se preocupa com a preservação da cultura e da identidade nacional.

Por que a idéia de celebrar as bodas de pérola com uma festa autenticamente brasileira, comemorada de Norte a Sul no país inteiro, não é apropriada?

Qual o problema de o primeiro casal promover um tipo de confraternização realizada em cada escola, praça e rua, por pobres e ricos, nas capitais e no interior durante o mês de junho? Que outro "regionalismo bacana" eles poderiam ter encenado, já que esta é a época, por excelência, das fogueiras de São João? E por que seria um mico usar trajes típicos e pendurar bandeirinhas, se são esses os ingredientes que tornam a festa mais saborosa?

Quando a colunista resolve citar Jeca Tatu para personificar um "Brasil que lembramos com carinho, mas que não é a imagem a ser exportada", a emenda sai pior do que o soneto. Criado por Monteiro Lobato em 1914, o personagem, retrato da indolência e do atraso, nasceu do descontentamento do fazendeiro frente aos insucessos agrícolas no solo esgotado da sua fazenda no Vale do Paraíba. Quatro anos mais tarde, o escritor descobre que a apatia do caboclo advinha do subdesenvolvimento, da fome e da exclusão social. "Está provado que tens no sangue e nas tripas um jardim zoológico da pior espécie", afirma então. "É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte." Na década de 40, outra guinada, e Lobato passa a ver o camponês como agente da própria história. O velho Jeca Tatu virava Zé Brasil, um trabalhador rural em luta por terra, saúde e educação.

Por tudo isso, Danuza confunde "chique" com moderno. Participar de um "arraial" pode não ser o supra-sumo da sofisticação para quem se espelha em "Maiami". Mas revela sintonia com nossa cultura popular e com gostosos folguedos tradicionais que resistem aos bombardeios "roliudianos". Para a colunista, chique deve ser comemorar "Ralouim" fantasiado de abóbora, alimentando a eterna submissão que tão bem define os colonizados. Além do desserviço à nossa cultura, considerando "brega" um evento vivo do folclore, ela ainda se arvora em porta-voz da nação. Expressar uma opinião particular, ainda que ultrapassada e esnobe, pode ser aceitável no caso de uma colunista. Mas dizer que "sempre se soube que a saudade de Fernando Henrique ia ser grande" é generalizar sentimentos personalíssimos.

Quanto a mim, prefiro um presidente "caipira", um homem que não se envergonha de suas raízes nem das tradições do seu povo, do que, com a licença do macaco Simão, uma Maria Antonieta dançando minueto no Planalto.

Caia na real, Danuza! Não estamos na Sorbonne, e isso aqui não é a corte de Luís 15. Ainda bem.

Marcia Camargos é jornalista, doutora em História Social pela USP e co-autora de "Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia" (Senac/1997).