Garanhuns, 31 de julho de 2004
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Especial
  Cultura / Diversão
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


As Desventuras de Raulzito na Terra das Sete Colinas - II

Sinto muito, meus caros 24 fiéis ou infiéis leitores, mas tenho de continuar a escrever relembrando minha via crucis na terra das colinas. É que não tenho dinheiro para pagar um psicólogo, muito menos analista. E aí preciso desabafar fazendo minha autobiografia.

Apesar do tédio que foi o último artigo, recebi duas cartas e três e-mails de leitores e leitoras, estimulando que eu extravazasse de vez os meus sentimentos. Sei que alguns gostariam de telefonar também, só que não é possível, porque não dou o meu número a ninguém, principalmente porque o aparelho lá de casa foi bloqueado faz tempo. Agora só funciona o da descarga, assim mesmo amarrado com um barbante.

O fato é que sofri de verdade nessa cidade, só que nunca perdi o bom humor. Não tenho jeito pra Sirvino, nem Luís Carlos do Jardim das Oliveiras, assim, nunca vou chegar à prefeitura. Nem que distribua todo leite do mundo com as mães e crianças carentes do município.

No meu tempo de menino em Garanhuns, vindo só com a calça rasgada e a cueca suja lá de Ponto Alegre, no Caetano, tinha a matinê no cinema e o cabaré na rua da Madeira. Uma vez me levaram lá mas fiquei foi com medo daquelas luzes vermelhas e das mulheres que me pareceram todas velhas e sem dentes.

Hoje não tem mais cabaré, porém o número de putas aumentou bastante. E, sinal dos tempos e da democratização do país, agora elas estão presentes em todas as classes sociais. Deixemos as bichinhas em paz, contudo...

Quando nasci, uma tal de hecatombe já tinha acontecido na terrinha há pelo menos 60 anos. Nessa época Brejão, Caetés, São João e Garanhuns era tudo uma coisa só. E morreu tanta gente num dia (e depois desse dia) que ainda hoje tão procurando vaga nos cemitérios da cidade.

Dizem que foi por isso que a cidade ganhou fama de violenta. Uma injustiça devidamente corrigida com o passar dos anos. Hoje a terra de Simoa é uma das mais tranquilas do Estado, tanto que quinzenalmente tiro um sarro com a cara do Izaías Régua, o Bartolomeu Quichute e Alexandre o Grande e até agora escapei fedendo.

O quilombo, isto é, a hecatombe se foi, meu tempo de mijar no Pau Pombo e na praça da Bandeira também e meu sofrimento hoje é ter de aturar as múmias atuais. Principalmente na hora da política.

Agora mesmo, por todo canto que passo sou perseguido pelas fotos dos candidatos. Estão nos postes, nos muros, nas praças, nos carros e daqui a pouco acho que até nos banheiros. Não sei se eles estão pagando alguma taxa à Celpe para ocuparem os postes. Sei que se isso acontecer a companhia de energia elétrica está rica, nem vai mais precisar cobrar conta de luz de gente pobre.

E a vontade de pegar a boquinha é tanta, que mesmo com o frio da gota serena que está fazendo os homens do poste estão fazendo caminhadas e reuniões toda tarde e toda noite. Caminham dentro da lama, na chuva, nos bairros ricos e nos bairros lascados. Dizem que só Dom Quichute já gastou três pares de sapato. Bom pra seu Pedro Brandão, que vai vender mais calçados aos que tentam a prefeitura e a Câmara Municipal.

O certo é que nem consigo me concentrar mais nas minhas memórias. O trem foi embora, fecharam o Eldorado, o Veneza, o Jardim, o IAC, o Vagão e até demoliram o castelinho, uma casa bonita que tinha perto do colégio dos bode. Mas tudo isso é passado e agora não falta nada, principalmente retrato nos postes.

Diferente do tempo de seu Amilca, que ganhou a eleição somente com o discurso de vender leite. E do Zé Inácio, que era o Zé do Povo. Agora querem inventar o Luiz, que se for feito o da presidência a gente tá lascado de vez.

Eu acredito mesmo é no Camelo, por isso vou jogar no bicho. Quem sabe eu ganho um teleférico ou umas escadas rolantes pra escalar as sete colinas de Garanhuns.

Vou sugerir ao Saulo que depois da eleição promova na cidade mais concurso de miss. Pra limpar a vista da gente, poluída com tanta foto de homem feio. A Viviane acha o promotor bonito, e até já andamos trocando umas tapas por causa disso, mas eu torço mesmo é por um concurso de mulher bonita.

Assim eu esqueço meus traumas: os carões que levei no Diocesano, as aulas de Lenice, a falta de dinheiro pra comprar revistinha, a pensão de Aliete, o cabaré da rua da Madeira, as derrotas no campinho de pelada, os colegas endinheirados desfilando de carro, as mulheres que desejava e não conseguia comer, a procura de emprego e os fora que levei no comércio da cidade até chegar a tentativa mais ou menos bem sucedida de virar jornalista.

O Brasil ganhou dos argentinos com o time B, o Náutico lidera a segundona e sonha com a primeira divisão, enquanto o Sport tem pesadelos com a terceira. Quem sabe diante de tudo isso a AGA no próximo ano toma jeito, o Sete arranja um presidente que preste e o próximo prefeito de Garanhuns aprende a sorrir. Se misturo política, futebol e religião, não estranhem. É que sou o Raulzito, namorado da Viviane, o Indiana Jones do Agreste. Minhas desventuras na Suíça dos pobres bem daria um livro. Quem sabe eu consigo lançar essa obra tão edificante ainda antes da eleição, na presença de todos os candidatos. Ai, ia ser muito engraçado, o Raulzinho aqui autografando as suas memórias pra o Givardo, o Sirvino e todos os homens importantes desta cidade.