Garanhuns, 17 de julho de 2004
  Início
  Colunas
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Especial
  Cultura / Diversão
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


As desventuras de Raulzito na Terra das Sete Colinas

Raulzito nasceu em Ponto Alegre, um distrito de Caetés que não tem nada a ver com Porto Alegre, a capital do Rio Grande do Sul. São apenas 40 casas, uma praça vazia e um bode que teima em comer grama no meio da rua.

Com 11 anos, o hoje colunista do Correio veio morar em Garanhuns, tendo passado pelas salas do Diocesano e pelos sermões do monsenhor Adelmar. Dizem que deu tanto trabalho ao padre que este desistiu de discipliná-lo.

- Éis um caso perdido, Raul. Acho que nem o Deus todo poderoso é capaz de te agüentar - teria confessado o monsenhor a um espantado padre Tarcísio. Este, conhecendo de perto as diabrites do menino do Caetano, chegou a prever que um dia o então diretor do Diocesano seria canonizado, por ter de suportar meninos do quilate do Raulzito.

Como mostra a história atual, padre Tarcísio errou, quem irá virar santo é Dom Expedito, que fez o milagre de levar um tiro do esqüentado do padre Hosana e morreu. Dizem que é tudo uma jogada de Dom Irineu Roque V, para ofuscar padre Adelmar, mas aí pode ser fococa plantada na imprensa pelo próprio Raulzito ou pelo Tiago Salsicha e não vou entrar nessa briga, porque posso ser processado.

Bom, mas o fato é que Raul, como Lula, é de Caetés. O segundo hoje é presidente da República e, com a ajuda de dona Mariza, do Zé Dirceu e do Palocci hoje manda em todos nós. O primeiro - que nunca trabalhou de operário em São Paulo, nunca liderou greves e em comum com sua Excelência só tem o fato de ter nascido no mesmo município e gostar de tomar umas branquinhas - não manda em porra nenhuma e até de sua namorada, uma tal de Viviane, leva de vez em quando umas sarrafadas.

Raulzito garante que não se sente um estranho ou um forasteiro em Garanhuns, porque aqui quase todo mundo veio de fora. Até os prefeitos e radialistas. Ivo nasceu em Lajedo, Bartolomeu Quitute em Flores e Sirvino na Paraíba. O Aluízio Ronda é de Correntes, Simão Silva de Bom Conselho e Luciano Andrade de Brejão. Assim, não tem nenhum problema, nenhum trauma que o Raulzito seja de Caetés, que antigamente, no tempo de Lula menino, era chamado de Caetano.

Mas o hoje (mau) afamado colunista do jornal abandonou os estudos no Diocesano no segundo ano ginasial, agora sexta série, deixando eufóricos o monsenhor Adelmar, padre Tarciso, professora Lenice e até a Luzinete Laporte.

O gigante da Praça da Bandeira perdeu um aluno e ganhou sossego. Raulzito virou vagabundo e depois de pelo menos 20 anos procurando sua verdadeira vocação dediciu virar jornalista. Por quê? Porque em Garanhuns é a coisa mais fácil do mundo. Basta escrever qualquer porcaria em jornal, botar um crachá no pescoço e dizer a palavra mágica: imprensa!

Não pensem, contudo, que tudo são flores na vida do amado e odiado colunista. Ele mesmo que narra suas desventuras pela terra das Sete Colinas:

"Quando aqui cheguei, na década de 70, fui morar na pensão de Aliete. No inverno fazia um frio dos diabos, a sopa era rala e ruim e todo dinheiro que eu pegava era pra assistir filme no Cinema Jardim. Essa história de que só fui até a sexta série é mentira, cursei o segundo ano científico inteirinho e só não fiz o terceiro por causa dos filmes de kung fu e das putarias nacionais. Fui reprovado por faltas embora tenha conseguido quase 100% de freqüência no Cine Jardim."

"Embora os saudosistas digam que Garanhuns é a terra do já teve, nos anos 70 e 80 era muito pior. Tinha cinema, é verdade, mas não havia ainda o Festival de Inverno nem a garanhagem. Só havia uma banca de revista e viado assumido só um ou dois. Loja grande só a de S. Moraes e mesmo assim escada rolante era um sonho. A única rádio era a Difusora e nesse tempo o Aluízio ainda usava calças curtas em Correntes."

"Agora além de magazines, restaurantes, locadoras de vídeo em cada esquina, jornais a três por quatro, meia dúzia de rádios, sapatarias moderninhas, música nos parque e na igreja, no último festival colocaram até uma boate gay. Homem beijando homem, mulher agarrando mulher, os mais conservadores se arretando e os mais avançados dando vivas: o progresso chegou."

"Confesso que sofri para me acostumar com Garanhuns. Todos nós que chegamos matutos lá do Caetano, ou Capoeiras, Jupi, Brejão, Paranatama, Lajedo, Angelim e outras cidadezinhas somos olhados de cima por essa gente metida a besta que vive aqui."

"Com essa história de Suíça Pernambucana, Cidade das Flores, Cidade Serrana e outros títulos pomposos os bestas se convencem de que estamos na Europa mesmo. E assim, eternamente vestidos como se estivessem prontos para um baile, olham nós fudidos com ar superior."

"Um colega meu, professor, que vive numa cidade aqui pertinho. Outro dia sofreu isso na pele. O cara da locadora de vídeo se recusou a fazer a ficha sob a alegação de que "nós não alugamos fitas para o pessoal do interior".

"E Garanhuns é capital de quê? Perguntaria, diante dessa imbecilidade. Nem do crime organizado pode ser mais, já que a cidade ficou muito pacata nos últimos anos (ainda bem)."

"Depois de muitos anos, porém, fui me acostumando, fui fazendo amigos e hoje estou tão integrado à paisagem do município quanto as sete colinas da cidade. E depois, é preciso ver que aquela provinciazinha das décadas passadas não existe mais."

"A periferia foi crescendo e sem que a elite percebesse a parte fudida hoje representa quase 90% da tal Suíça Pernambucana. As Cohabs, Parque Fênix, Massaranduba, Vila Canadá, Manoel Chéu, Mundaú, Novo Mundaú, Magano, Brahma, Indiano e outros bairros menos votados abrigam atualmente a grande maioria dos moradores, pessoas que não podem ter casas belas, nem vestir belos casacos ou se divertir nos camarotes do festival de inverno e da garanhagem."

"Então, meus 24 leitores, sofri na terrinha uma espécie de preconceito. Como um negro nos Estados Unidos ou um nordestino em São Paulo. E a coisa piorou depois que comecei a namorar uma loirinha lá do bairro de São José. Tudo porque ela usa saias curtíssimas, fala um pouquinho errado e gosta da banda Calypso, que o Marcelo Jorge abomina."

"Já tentei emprego na rede de farmácias Droga Rápida, mas disseram que eu sou muito lento para fazer parte do seu quadro de funcionários; fiz uma entrevista no Pérola, sendo recusado porque disse à psicóloga que detesto o amarelo e sou ligado no vermelho; enfrentei a mesma rejeição em Ferreira Costa Center, na Sapatos, na Music Center, na Insinuante e nas lojinhas dos camelôs do Pop Shop (que camelódromo de nome chique, hein?)."

"Na rádio Jornal não consegui vaga porque não sei noticiar crimes e bebedeiras, na Sete fiquei de fora por desconhecer os grandes nomes da MPB, na Marano disseram que pra trabalhar tinha de votar em Jorge Branco e na Estação exigiram título de eleitor e compromisso de gritar o nome de Givaldo. Na Meridional, nem pensar, sou quase ateu e quando cheguei na Monte Sinai já tinha gente demais..."

"Assim, depois das pensões sujas com direito a rato e barata, depois de encarar as expressões impertinentes de quem se julga importante, após tantos fora na tentativa de arrumar emprego, só me restou mesmo o Correio Sete Colinas. Um jornal tão respeitado, tão bom e tão engraçado, que faz até o prefeito de Capoeiras lê alguma coisa e consegue fazer o Sirvino esquecer às vezes o seu conhecido mau humor."

"O editor só dá um dinheirinho ao colunista uma vez por ano, é verdade, porém com a cre-dencial de imprensa na mão, ou no pescoço, posso comer na feijoada e na dobradinha da Kitty, no churrasco do Saulo e na festas da Josália. E ainda pego coquetel quando tem lançamento de livro, inauguração de obra pública e lançamento de candidatura à prefeitura."

Como dizia o famoso bloco recifense, que desfila no Carnaval: "nós sofre mas nós goza". Em Garanhuns tenho sofrido muito. Menos do que quando fiz um estágio pra ensacador de supermercado no Bompreço, no Recife, e bem menos de que quando passei um mês debaixo de um viaduto em São Paulo."

"Sofro, no entanto, por não ter uma mansão na parte recém asfaltada de Heliópolis, com uma bela piscina para os dias de verão e uma aconchegante lareira para os dias de inverno. Sofro por não ter carro e ter de subir tanta ladeira, como um lascado qualquer. As piores são as subidas do Magano e da Boa Vista. Já carreguei tanto meu peso por essas ladeiras que tenho mais varizes que piniqueira depois dos 40."

"Defendo, inclusive, aproveitando o projeto pra lá de inteligente do Paulo Camelo, que em vez de um teleférico o próximo prefeito dote a cidade de escadas rolantes. Elas serviriam a pobreza que não pode pagar ônibus e de todo modo uniriam as sete colinas de Garanhuns. Escada rolante pra o Magano, pra Boa Vista, pra o Monte Sinai, pra Mãe Rainha... Um negócio arretado e só quem ira sair perdendo com isso era Dr. Jorge Lyra, pois diminuiria o número de mulheres com varizes no seu consultório."

"Vou parar de escrevinhar tanto, contudo, pois se não o jornal não publicará mais nada. Faltará até a cobertura do último festival. As minhas desventuras na cidade são muitas e só cabem num livro, ou têm de ser divididas por capítulo."

"Assim, fiquem tranquilos que voltarei ao assunto. E como a campanha já está nas ruas posso também dar mais sugestões ao Camelo, ao Quitute, a Alexandre o Grande, a Givaldo Falante e a Luís Carlos do Jardim das Oliveiras."

"Que o próximo prefeito me arranje um emprego, uma ocupação ou mesmo um trabalho. Juro que se fizerem isso deixo de sofrer, deixo de aporrinhar no Correio e aí não falo mais de ninguém. E aí Sirvino, Dom Irineu Roque V, os comerciantes do pólo, os colegas de imprensa, vão todos poder dormir em paz."