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HUMOR
Raulzito
As desventuras de Raulzito na Terra das
Sete Colinas
Raulzito nasceu em Ponto Alegre, um distrito de Caetés que
não tem nada a ver com Porto Alegre, a capital do Rio Grande
do Sul. São apenas 40 casas, uma praça vazia e um
bode que teima em comer grama no meio da rua.
Com 11 anos, o hoje colunista do Correio veio morar em Garanhuns,
tendo passado pelas salas do Diocesano e pelos sermões do
monsenhor Adelmar. Dizem que deu tanto trabalho ao padre que este
desistiu de discipliná-lo.
- Éis um caso perdido, Raul. Acho que nem o Deus todo poderoso
é capaz de te agüentar - teria confessado o monsenhor
a um espantado padre Tarcísio. Este, conhecendo de perto
as diabrites do menino do Caetano, chegou a prever que um dia o
então diretor do Diocesano seria canonizado, por ter de suportar
meninos do quilate do Raulzito.
Como mostra a história atual, padre Tarcísio errou,
quem irá virar santo é Dom Expedito, que fez o milagre
de levar um tiro do esqüentado do padre Hosana e morreu. Dizem
que é tudo uma jogada de Dom Irineu Roque V, para ofuscar
padre Adelmar, mas aí pode ser fococa plantada na imprensa
pelo próprio Raulzito ou pelo Tiago Salsicha e não
vou entrar nessa briga, porque posso ser processado.
Bom, mas o fato é que Raul, como Lula, é de Caetés.
O segundo hoje é presidente da República e, com a
ajuda de dona Mariza, do Zé Dirceu e do Palocci hoje manda
em todos nós. O primeiro - que nunca trabalhou de operário
em São Paulo, nunca liderou greves e em comum com sua Excelência
só tem o fato de ter nascido no mesmo município e
gostar de tomar umas branquinhas - não manda em porra nenhuma
e até de sua namorada, uma tal de Viviane, leva de vez em
quando umas sarrafadas.
Raulzito garante que não se sente um estranho ou um forasteiro
em Garanhuns, porque aqui quase todo mundo veio de fora. Até
os prefeitos e radialistas. Ivo nasceu em Lajedo, Bartolomeu Quitute
em Flores e Sirvino na Paraíba. O Aluízio Ronda é
de Correntes, Simão Silva de Bom Conselho e Luciano Andrade
de Brejão. Assim, não tem nenhum problema, nenhum
trauma que o Raulzito seja de Caetés, que antigamente, no
tempo de Lula menino, era chamado de Caetano.
Mas o hoje (mau) afamado colunista do jornal abandonou os estudos
no Diocesano no segundo ano ginasial, agora sexta série,
deixando eufóricos o monsenhor Adelmar, padre Tarciso, professora
Lenice e até a Luzinete Laporte.
O gigante da Praça da Bandeira perdeu um aluno e ganhou
sossego. Raulzito virou vagabundo e depois de pelo menos 20 anos
procurando sua verdadeira vocação dediciu virar jornalista.
Por quê? Porque em Garanhuns é a coisa mais fácil
do mundo. Basta escrever qualquer porcaria em jornal, botar um crachá
no pescoço e dizer a palavra mágica: imprensa!
Não pensem, contudo, que tudo são flores na vida
do amado e odiado colunista. Ele mesmo que narra suas desventuras
pela terra das Sete Colinas:
"Quando aqui cheguei, na década de 70, fui morar na
pensão de Aliete. No inverno fazia um frio dos diabos, a
sopa era rala e ruim e todo dinheiro que eu pegava era pra assistir
filme no Cinema Jardim. Essa história de que só fui
até a sexta série é mentira, cursei o segundo
ano científico inteirinho e só não fiz o terceiro
por causa dos filmes de kung fu e das putarias nacionais. Fui reprovado
por faltas embora tenha conseguido quase 100% de freqüência
no Cine Jardim."
"Embora os saudosistas digam que Garanhuns é a terra
do já teve, nos anos 70 e 80 era muito pior. Tinha cinema,
é verdade, mas não havia ainda o Festival de Inverno
nem a garanhagem. Só havia uma banca de revista e viado assumido
só um ou dois. Loja grande só a de S. Moraes e mesmo
assim escada rolante era um sonho. A única rádio era
a Difusora e nesse tempo o Aluízio ainda usava calças
curtas em Correntes."
"Agora além de magazines, restaurantes, locadoras de
vídeo em cada esquina, jornais a três por quatro, meia
dúzia de rádios, sapatarias moderninhas, música
nos parque e na igreja, no último festival colocaram até
uma boate gay. Homem beijando homem, mulher agarrando mulher, os
mais conservadores se arretando e os mais avançados dando
vivas: o progresso chegou."
"Confesso que sofri para me acostumar com Garanhuns. Todos
nós que chegamos matutos lá do Caetano, ou Capoeiras,
Jupi, Brejão, Paranatama, Lajedo, Angelim e outras cidadezinhas
somos olhados de cima por essa gente metida a besta que vive aqui."
"Com essa história de Suíça Pernambucana,
Cidade das Flores, Cidade Serrana e outros títulos pomposos
os bestas se convencem de que estamos na Europa mesmo. E assim,
eternamente vestidos como se estivessem prontos para um baile, olham
nós fudidos com ar superior."
"Um colega meu, professor, que vive numa cidade aqui pertinho.
Outro dia sofreu isso na pele. O cara da locadora de vídeo
se recusou a fazer a ficha sob a alegação de que "nós
não alugamos fitas para o pessoal do interior".
"E Garanhuns é capital de quê? Perguntaria, diante
dessa imbecilidade. Nem do crime organizado pode ser mais, já
que a cidade ficou muito pacata nos últimos anos (ainda bem)."
"Depois de muitos anos, porém, fui me acostumando,
fui fazendo amigos e hoje estou tão integrado à paisagem
do município quanto as sete colinas da cidade. E depois,
é preciso ver que aquela provinciazinha das décadas
passadas não existe mais."
"A periferia foi crescendo e sem que a elite percebesse a
parte fudida hoje representa quase 90% da tal Suíça
Pernambucana. As Cohabs, Parque Fênix, Massaranduba, Vila
Canadá, Manoel Chéu, Mundaú, Novo Mundaú,
Magano, Brahma, Indiano e outros bairros menos votados abrigam atualmente
a grande maioria dos moradores, pessoas que não podem ter
casas belas, nem vestir belos casacos ou se divertir nos camarotes
do festival de inverno e da garanhagem."
"Então, meus 24 leitores, sofri na terrinha uma espécie
de preconceito. Como um negro nos Estados Unidos ou um nordestino
em São Paulo. E a coisa piorou depois que comecei a namorar
uma loirinha lá do bairro de São José. Tudo
porque ela usa saias curtíssimas, fala um pouquinho errado
e gosta da banda Calypso, que o Marcelo Jorge abomina."
"Já tentei emprego na rede de farmácias Droga
Rápida, mas disseram que eu sou muito lento para fazer parte
do seu quadro de funcionários; fiz uma entrevista no Pérola,
sendo recusado porque disse à psicóloga que detesto
o amarelo e sou ligado no vermelho; enfrentei a mesma rejeição
em Ferreira Costa Center, na Sapatos, na Music Center, na Insinuante
e nas lojinhas dos camelôs do Pop Shop (que camelódromo
de nome chique, hein?)."
"Na rádio Jornal não consegui vaga porque não
sei noticiar crimes e bebedeiras, na Sete fiquei de fora por desconhecer
os grandes nomes da MPB, na Marano disseram que pra trabalhar tinha
de votar em Jorge Branco e na Estação exigiram título
de eleitor e compromisso de gritar o nome de Givaldo. Na Meridional,
nem pensar, sou quase ateu e quando cheguei na Monte Sinai já
tinha gente demais..."
"Assim, depois das pensões sujas com direito a rato
e barata, depois de encarar as expressões impertinentes de
quem se julga importante, após tantos fora na tentativa de
arrumar emprego, só me restou mesmo o Correio Sete Colinas.
Um jornal tão respeitado, tão bom e tão engraçado,
que faz até o prefeito de Capoeiras lê alguma coisa
e consegue fazer o Sirvino esquecer às vezes o seu conhecido
mau humor."
"O editor só dá um dinheirinho ao colunista
uma vez por ano, é verdade, porém com a cre-dencial
de imprensa na mão, ou no pescoço, posso comer na
feijoada e na dobradinha da Kitty, no churrasco do Saulo e na festas
da Josália. E ainda pego coquetel quando tem lançamento
de livro, inauguração de obra pública e lançamento
de candidatura à prefeitura."
Como dizia o famoso bloco recifense, que desfila no Carnaval: "nós
sofre mas nós goza". Em Garanhuns tenho sofrido muito.
Menos do que quando fiz um estágio pra ensacador de supermercado
no Bompreço, no Recife, e bem menos de que quando passei
um mês debaixo de um viaduto em São Paulo."
"Sofro, no entanto, por não ter uma mansão na
parte recém asfaltada de Heliópolis, com uma bela
piscina para os dias de verão e uma aconchegante lareira
para os dias de inverno. Sofro por não ter carro e ter de
subir tanta ladeira, como um lascado qualquer. As piores são
as subidas do Magano e da Boa Vista. Já carreguei tanto meu
peso por essas ladeiras que tenho mais varizes que piniqueira depois
dos 40."
"Defendo, inclusive, aproveitando o projeto pra lá
de inteligente do Paulo Camelo, que em vez de um teleférico
o próximo prefeito dote a cidade de escadas rolantes. Elas
serviriam a pobreza que não pode pagar ônibus e de
todo modo uniriam as sete colinas de Garanhuns. Escada rolante pra
o Magano, pra Boa Vista, pra o Monte Sinai, pra Mãe Rainha...
Um negócio arretado e só quem ira sair perdendo com
isso era Dr. Jorge Lyra, pois diminuiria o número de mulheres
com varizes no seu consultório."
"Vou parar de escrevinhar tanto, contudo, pois se não
o jornal não publicará mais nada. Faltará até
a cobertura do último festival. As minhas desventuras na
cidade são muitas e só cabem num livro, ou têm
de ser divididas por capítulo."
"Assim, fiquem tranquilos que voltarei ao assunto. E como
a campanha já está nas ruas posso também dar
mais sugestões ao Camelo, ao Quitute, a Alexandre o Grande,
a Givaldo Falante e a Luís Carlos do Jardim das Oliveiras."
"Que o próximo prefeito me arranje um emprego, uma
ocupação ou mesmo um trabalho. Juro que se fizerem
isso deixo de sofrer, deixo de aporrinhar no Correio e aí
não falo mais de ninguém. E aí Sirvino, Dom
Irineu Roque V, os comerciantes do pólo, os colegas de imprensa,
vão todos poder dormir em paz."
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