Garanhuns, 17 de julho de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


Og chegava desconfiado, lento, até parecia preguiça. Até parecia medo de entrar em casa. E ele não morava ali a vida toda atér resistir ser expulso pelo pai quando soube que Og fumava escondido no quarto. O velho descobriu as bitucas debaixo do colchão. Só se via as caixas de fósforos sumindo, sumindo, até que a curiosidade do velho descobriu a safadeza do filho. O pobre descobriu e emagreceu. Comia mas emagreceu. Era desgosto de ser enganado, o filho dele fazia alguma coisa ilícita, fazia não, todos tinham cabresto. Emagreceu de desgosto e medo do filho virar maconheiro dos brabos, aqueles olhos vermelhos, a boca chupada, o corpo bambo, a cara demente, safada. Era medo do filho perder-se. Se o filho se perdesse o velho caía na língua do povo. E ele não falava tanto da vida de seu fulano, metia a língua-de-pau pra cima. Tome, tome que não tinha fim. Pois foi com medo da língua dos outros que ele quis botar Og pra fora de casa . "- Saia maconheiro safado, tá pensando que eu sou um bosta, tá pensando que essa casa é um monte de bosta, tá pensando o que da vida? Ora bosta, rapaz!" O velho magro que não se aguentava disse isso. Mas quem disse que Og saiu, saiu nada, ia pra onde? Nem maconheiro era pra morar na casa de um. Saiu não, resistiu, hoje tá aí fumando na cara do velho e o velho calado. O velho se acostumou com a idéia de ter um filho fumante de cigarro Paraguay, do que um maconheiro, desses que vão pro Sertão, para Colômbia e tudo mais.

Pois Og chegou todo desconfiado e com um tempo perguntou: "-E não vão me perguntar nada não é, pergunte aí pai." O pai disse que já sabia que ele tinha virado um maconheiro safado. "-Mas não é isso não pai" e o pai disse que não sabia o que era, que nunca soube adivinhar porcaria nenhuma. "- Mas adivinhe mesmo assim, o senhor não é homem, adivinhe!" E o pai ficou alí um tempo, pensando, pensando e perguntou se ele tinha virado fresco, se chambregava com mulher dos outros se tinha emprenhado menina de colégio, perguntou o diabo e não acertou e já morrendo de raiva o velho disse para ele deixar de ser safado e dissesse logo qual era a safadeza e Og disse, com aquela cara cínica, que tinha roubado um carro e mostrou a chave ao pai e o pai disse que ia adivinhar a cor e disse a cor do arco-íris e não advinhou e o filho disse que tinha raspado a pintura do carro que era para não das na vista, mas que ia pintar logo, logo e o velho quis adivinhar a cor que aquela bosta ia ser pintada e disse a cor do arco-íris de novo e não acertou depois ele mandou o filho ir ao inferno e foi trancar-se no quarto, chorando baixinho, lamentando ter gasto a imaginação pensando porcaria.