Garanhuns, 3 de julho de 2004
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OPINIÃO
 

Frutas e votos

Diorindo Lopes Júnior


É curioso: sempre que uma cidade comemora aniversário redondo (década ou centenário), suas fotos mais antigas mostram ruas repletas de árvores frutíferas, oferecendo abundância adocicada e refrescante, além das sombras indispensáveis para quem (como nós) nasce em um país tropical - abençoado por Deus e bonito por natureza, canta Jorge Ben.

Fui aprendendo que, com a multiplicação dos automóveis, essas árvores frutíferas foram sendo substituídas por árvores puramente decorativas, de modo a proteger a lataria dos seres de quatro rodas.

Gostaria de conhecer (ao menos o nome) este primeiro gênio da plena e absoluta imbecilidade que privilegiou o automóvel em detrimento de seu inventor e beneficiário imediato: o Homem - mesmo que este homem, hoje, não reúna recursos para comprar o seu próprio automóvel.

Há coisa de uns cinco ou seis anos, ficou famosa uma propaganda de um sujeito que queria estacionar seu carro pertinho da praia e o deixou, todo pimpão, debaixo de uma palmeira; nem um minuto se passou para um coco amassar-lhe o capô. Podia ser um abacate, uma jaca, uma fruta-do-conde, quem sabe uma graviola, uma manga...

Podia também ser um pêssego, uma acerola, um figo, abiu, goiaba, pitanga, carambola, caju, laranja, mexerica, amora, cereja... Como bem escreveu Caminha, quinhentos anos passados: aqui, em se plantando, tudo dá. E dá mesmo.

Para este abestamento de políticos municipais (prefeitos, vereadores e caterva de puxa-sacos) eu só posso imaginar uma explicação para o favorecimento dos veículos em detrimento da ratatuia que paga impostos: a gana pelos porforas que sempre rolam quando de obras para facilitar o fluxo desses veículos que, a cada dia, excluem mais os cidadãos.

É uma dica, prefeitáveis e vereáveis : enfiem em suas plataformas de campanha a plantação de mudas frutíferas nas calçadas de suas cidades (periferias incluídas); funciona muito melhor do que muros e postes emporcalhados com cartazes e pichações que ninguém lê ou sequer presta atenção.

Candidatos: o governo federal se elegeu prometendo erradicar a fome do país e a fome continua por aí, espreitando pelas quebradas. Fruta não é arroz com feijão, bife e ovo, mas engana bem as barrigas vazias. Atentem, candidatos, atentem.

O que fazer para proteger os indefesos capôs das frutas? Eleitos, estimulem a abertura de novos estacionamentos e multipliquem a tributação, oras!

Mas que coisa, será que eu preciso ensinar tudo...?!


Diorindo Lopes Júnior (diorindo@uol.com.br) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (www.editorasaraiva.com.br) e Cesta de 3 (www.aliseditora.com.br).