Garanhuns, 19 de junho de 2004
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CULTURA
 

PESADELO

Conto inédito de Roberto Almeida


(a Ronaldo César e Sonita)

Era falsa a alegria exposta nos salões do clube: através dos telões, nas rodadas de uísque, nas taças de vinho e nos copos de chopp. Nos discursos, no demorado aperto de mão, nos abraços e mesmo no paletó azul marinho, o jogador atento podia perceber toda uma estratégia desenvolvida por um prolixo e pedante homem de marketing. Este, sempre de smoking, impermeável, alteando a voz como se estivesse num estúdio de rádio, a abusar da verborragia e os substantivos, adjetivos, conjunções, concordâncias nem sempre perfeitas, além da mania de subtrair os artigos definidos ou indefinidos.

O mandarim, o palhaço, o rábula, o bobo da corte. O clube recebera o granfinaço inteiro, inclusive algumas esculturas loiras. Outras morenas. Coxas grossas, peitos rasgando as blusas diminutas, olhos temperados... O desejo explícito de uns contrastando com a alta dose de autorepressão dos organizadores da confraternização. De olho no relógio, no calendário, na decisão de Sua Excelência.

Terry estava vestido de forma desleixada; cabelos já ralos e grisalhos, emaranhados para trás, sem importar-se nem um pouco com as plumas, paetês, tratamentos de salões de belezas e grifes da trupe, a serviço do comandante. Viera, como em outras ocasiões, por ter sido convidado, por obrigação profissional, por fazer parte do espetáculo da mídia. Por fazer parte do grupo de homens obrigados a informar, distorcer, mentir, enganar e manter o populacho na santa ignorância.

Depois das duas horas da manhã, meio cambaleante, mas não completamente bêbado, saiu do clube olhando a madrugada fria e disposto a caminhar. Dispensara o manobrista, o táxi, o mototaxista, o ônibus, a carona e a companhia de um talentoso repórter especial do jornal da Metrópole.
Soraya ainda quis seguilo, porém conseguiu despistála rapidamente, fingindo uma ida ao banheiro.

Amava Soraya, logo logo teria dela provas de um amor enorme, quase impossível, inexistente. Desse tipo de amor onipresente nos boleros do passado, na voz daquele tipo talhado para ser cantor de ópera e que terminou melancolicamente; só renascendo muitos anos depois, na trilha sonora de uma novela da televisão.

O festival de asneiras, contudo, deixou-o inquieto. Precisava fugir dos mandarins, dos marketeiros, dos comunicadores. E talvez pelo efeito da bebida tenha preferido sair só, errando ao trapacear com Soraya, que provaria dentro de poucas horas ser o único e o seu verdadeiro amor.

Terry já estava longe, deixara para trás as vaidades do clube, margeara a avenida, lamentando o corte no verde e as águas poluídas estancada nos canais. Chegara, ao cabo de dez minutos, na Praça Principal. A mesma que vinte e três anos atrás fora sacudida por uma misteriosa explosão. Corpos voando em direção aos prédios dos bancos e magazines, velhos acordando com a certeza do fim do mundo, crianças chorando. E veio o exército, o corpo de bombeiros, o governador do Estado, estações de rádio e uma emissora de TV do Rio de Janeiro.

Agora tudo estava calmo, os canteiros restaurados, margaridas e dálias embelezando um lado e outro da Praça Principal. A cidade dormia, os automóveis estavam nas garagens, nos estacionamentos dos edifícios, os vidros bem fechados, os alarmes ligados, tudo feito metodicamente para prevenir assaltos.

Não havia o que temer. Chegar em casa era uma questão de minutos, só que as palavras da vidente, pronunciadas dois dias antes, atravessaram repentinamente determinada região do cérebro, provocando uma inexplicável arrepio.

Tudo, então, aconteceu rápido demais. Como se o céu estivesse sendo rasgado por relâmpagos ou por inacreditáveis discos voadores.

Sabia que eram homens de branco. Não lhes via os rostos, nem os olhos duros, as expressões fechadas, as bocas mudas e os cabelos negros. Teve os pés amarrados, a cabeça encoberta por um capuz negro e foi jogado dentro de um dos carros do pequeno grupo surgido do nada.

Mesmo no escuro, morrendo de medo, pôde ter certeza que eram os mesmos dos sonhos e dos quadrinhos que povoaram sua juventude.

Os homens de branco rodaram com ele mais de 500 quilômetros, adentraram o enorme hospital, jogando-o como um fardo numa cama de UTI.

Ficou sedado, entubado, amarrado, cercado por enfermeiras que obedeciam militarmente os homens de branco. Faziam comentários, observações, estudos. O hospital parecia em eterno burburinho como nas feiras livres de sua cidade natal , mas o barulho se fazia suportável porque o tinham colocado dentro da bolha, inerte, quase morto, distante, percebendo tudo graças a um sentido extra até então desconhecido.

Terry na verdade estava inconsciente, a percepção da parafernália que o cercava vinha através dos sonhos, da memória passada, da vontade de viver e superar o trauma daquele rapto, perpetrado por médicos frios, mal remunerados pelo Estado.

Dias se passaram, tudo como num filme, as imagens dos parentes queridos fazendo orações, centenas de pessoas pedindo a sua volta, ansiando por têlo novamente nas rodas dos bate papos semiintelectualizados da província.

De todo modo, não estava perdido. Homens e mulheres lutavam por ele, procuravam os padres, os santos, os inocentes. Todos crentes de que alguma coisa podia ser feita.

E entre tantos, próximos, distantes, sinceros, indiferentes, Soraya apareceu. Dentro do hospital, invadindo a UTI, travando um diálogo firme com os médicos, vencendo os homens de branco com a firmeza e a determinação da mulher nordestina que se preza.

Olhos negros, boca pequena, passos curtos. Ela enfrentou tudo e todos, recebeu e despachou telefonemas, escreveu cartas e digitou emails, conseguindo sensibilizar até os mandarins e os marketeiros.

Disse, sem receios, sem pieguice e sem influência de telenovelas: te amo, te amo, te amo.

Tornou suportável o seqüestro, os fios amarrando os braços, os tubos enfiado pela boca, o corte necessário (segundo eles) na traquéia.

O telefone tocou muitas vezes, acordou Soraya, perturbou as enfermeiras, os paramédicos, as visitas, os estranhos, os meninos que na porta vendiam salgadinhos, o vigilante interessado em ver Silvio Santos no domingo do SBT.

O telefone recolocou-o no mundo, foi o sinal de que a viagem estava para acabar, significou a vitória de Soraya e dele mesmo, Terry, contra os homens de branco.

E apenas uma semana depois do primeiro alerta, no celular, recuperou a voz, pôde dizer à mulher que também a amava. Despachou recados para centenas de cidades, como Divinópolis, Nova Iguaçu e Buenos Aires.

Lugares onde nunca estivera, mas que agora, definitivamente, estavam ligados ao seu projeto jornalístico e literário. Graças à internet, ao seqüestro, ao rapto, à cirurgia; ao sofrimento imposto ao seu corpo pelos homens impecavelmente de branco.

E pôde voltar, rever amigos, abraçar os avós, contar uma piada, escrever no jornal e ouvir os sons dos novos deuses da MPB. Numa missa, no colégio, sentiu que o padre, na velha batina preta que usara em vida, sobrevoava a aeronave, fazia um sermão, reclamava dos novos tempos, dos alunos barulhentos, dos governos sem pulso...

Os vivos, no entanto, cantaram hinos, disseram palavras agradáveis e gentis, saudaram seu retorno e conseguiram fazêlo chorar pela primeira vez em 300 anos.

Vida, vida, vida.

Nos braços de Soraya. Na flor que nasce alimentada pelo inverno da cidade serrana. Na carroça de burro que transporta a lenha da fogueira junina. No drama psicológico visto em DVD. Nos filhos que tropeçam até aprender a andar. Na rodada de chopp e no grito de gol. No espetáculo de teatro, na leitura dos jornais e do conto kafkiano. Na água que escorre pelas ruas ladeirosas da cidade antiga, na charge, na imagem da TV, no feijão e arroz acompanhado de bife, bata frita e purê.

Vida, vida, vida.

Na boca, nos olhos, na paciência infinita de Soraya. No seu jeito de amar. Na chuva que bate forte na janela do escritório, no pão quentinho com manteiga e no atendimento inteiramente banal da mulher do padeiro. Na corrida do automóvel, no vento que sacode os cabelos, nas pessoas que passam pra lá e pra cá, atravessando as ruas, superlotando as casas comerciais, comprando em quatro suaves prestações o presente do dia dos namorados.

Vida, simplesmente, nos dias que seguem, no ritmo lento das horas que levam à noite. O frio, o cobertor, o desejo e o sono. E o despertar ao lado da companheira. Sem agulhas, sem soro, sem cirurgia, sem dor, longe dos homens de branco e da ciência. Da experiência que, felizmente, foi superada e o trouxe de volta.

Terry novamente no clube. Com os amigos, cercado de flashes, atento às conversas de bastidores e aos detalhes, estes fundamentais na produção da mais respeitada coluna semanal da província.

Na mesma mesa, Roylof olhava Terry e procurava imaginar tudo que o amigo passara. Admirava sua simplicidade e coragem, sua capacidade de despejar dezenas de idéias por minuto, viabilizando projetos importantes ao desenvolvimento do município, principalmente no campo da cultura e das artes em geral.

Roylof saiu de clube depois da meia noite, deixando Terry e Soraya a circular pelos salões, como que meio embriagados com a volta ao mundo dos vivos. Eles mereciam...

Percorreu os mesmos caminhos do amigo, três meses atrás. Atravessou a Praça Principal e chegou em casa antes de uma da matina. Joany o recebeu carinhosa e em questão de minutos o pôs a dormir.

Sono pesado, sem sustos, até que uma dor insuportável o fez levantar. Joany assustada. Então os homens de branco chegaram impiedosos, levaramno num carro equipado e veloz, internando-o sem necessidade de preencher papéis ou de uma autorização do SUS.

Espetaramno pelas costas, cortaram sua carne, fizeram cada perna pesar 500 kg, implantaram uma sonda no pênis capaz de paralisar por meses o já precário sistema urinário.

Profissionais, eficientes, o puseram pra dormir.

Longe de Joany, dos tantos filhos, da busca de notícias, da azáfama da cidade, das prateleiras dos supermercados. Talvez perto de Deus.

Mulheres e homens de branco se revezaram, receitaram diferentes comprimidos, rasgaramlhe as veias, tentaram reanimálo com um soro especial produzido na Bélgica ou outro país qualquer da Europa.

Nele foram testados medicamentos enviados pelos americanos ao Iraque, quando da invasão.

Foram dias de terror. De medo. Dor. Sombras pelo quarto, a solidão do banheiro, o sacrifício da cama, a saudade das ruas, o risco de perder a vontade de viver.

Mesmo quando o carcereiro o liberou, informando que o grupo já assinara a papelada, percebeu que dias sombrios ainda teria à sua frente.

Seria a agonia, sem as imagens dos santos, no quarto escuro, sem Joany, ou Anny, os filhos dormindo. Os filhos nas festas, espalhados pelo mundo, encenando peças de teatro, outro estudando anatomia; num desespero de quem acabou de perder o pai e a mãe está orgulhosa e distante.

Dor. Por que a dor? Por que viver assim? Sem um abraço, um beijo, um afago, sem poder soltar o sorriso ou experimentar os prazeres do corpo.

Sozinho no quarto escuro, desacreditando de tudo, odiando a madrugada, lamentando a ausência e a incompetência dos homens de brancos, a inexistência do criador ou dos invisíveis seres de outra galáxia e seus discos voadores.

Nada pior do que a noite insone, as horas sem perspectiva, as lâminas cortando a carne sem uma explicação lógica do sofrimento.

Deus. Ainda bem que amanhece o dia e oferece a possibilidade de um pedido de socorro.

E nesse ínterim foram tantos os apelos, os ofícios, as mensagens, os afagos, que o pessimismo deu lugar a uma centelha de esperança. Palavras de conforto, heróis dispostos a combater a burocracia do sistema, ouvintes sinceros que o queriam de volta à labuta.

Assim, ancorado, prestigiado, não se deixou vencer.

Joany presente, assim como Anny, Judy e os tantos filhos.

Como que ouviu alguém sussurrando: "O pesadelo pode e deve acabar. É preciso. Chega de sofrimento".

Assim como Terry, eu quero a vida ousou ditar e repetir o
esquartejado Roylof.

E já podia prever a vitória. Os pés descalços a pisar os campos, os olhos namorando o mar de Jatiúca, os filhos crescendo, o nascimento dos netos, a pureza de Anny, o reconhecimento público do novo poema, a singeleza de Joany...

Enfim, a vida.