Garanhuns, 22 de maio de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas

Hélder Herik


Em crônica de 1962, Rachel de Qnueiroz se pergunta: "O que é o amor?". O escritor italiano, Aldo Carotenuto, diz que "o amor é por natureza indizível". Portanto, eu poderia encaixar-me por aqui e dar tudo por acabado, mas eu quero falar da crônica de Raquel de Queiroz. Quero dar gracejo a coisa.

Vamos para a crônica. D. Alda, que fazia bodas de ouro, quando perguntada disse: "Amor é paciência, principalmente paciência". Uma recém casada disse: "Amor é materialismo, aquela figuração da moça solteira, tudo aquilo se acaba com o casamento". A Terreze disse: "Amor é iludimento, no começo é dançar, tomar coca-cola com pinga, ganhar corte de pano, depois vem a barriga e o pai sumido. É iludimento". A mãe de família disse: "Amor? Bem, tem amor de noivas, que é quase só castelos e tolices. Tem a de jovem casada, que é também muita tolice, mas sem castelos". Um pastor protestante disse: "É melhor casar do que arder". Um padre disse: "Amar é a capacidade e sacrifícios".

Ao meu ver todos tem suas razões. Estão certos. Agora a grande definição, e isso não me espanta, veio de uma puta de meia idade, vejamos: "Amor? Amor é uma coisa que dói dentro do peito. (...) É a mão que vem do lado vizinho, de noite, e segura na sua, adormecida. E você prefere ficar com o braço gelado e dormente a puxar a sua mão e cortar aquele laço, tão preciso ele é. Amor é ter medo de quase tudo, da morte, da doença, do desencontro, da fadiga, do costume, das novidades. Amor pode ser uma rosa e pode ser um bife, um beijo, uma colher de xarope, mas o que o amor é, principalmente, são duas pessoas neste mundo".

Drummond disse certa vez que "amar se aprende amando" e é justamente aí que a puta tem mais autoridade entre os demais, que em meio a tantos fregueses, tem um que ela ama. Deus abençoe o amor das putas. Deus me dê uma amor de puta. A mim e a todos.



O que diabo é uma mulher? Uma coisa que se dilata para outra coisa expandir. Um sorriso, de mesmo, quando cheira numa flor de esqueleto, que alguém lhe prendera na orelha e jurara está presa a si. É uma mão fina e mansa que doma os cabelos natrás dessa orelha da flor de esqueleto. São lábios ncalibrados nde baton, um lábio de cima que se amanseba com o lábio de baixo pra se caiarem. É uma cara que se pole, que se esmera, é o couro curtido, envernizado. É um piso que; e um mar. Um mar que se pisa, que si corre das ondas. É uma praia sobre o mar, praia de coqueiro e água-viva e de gente que passa e pisa sem saber onde é um salto alto, uma plataforma, um salto que é um macaco de carro, que suspende o calcanhar e comprime tudo nos dedos? É uma porta cara que empena. É um lugar longe, um lugar que dói e que o pneu fura sem ter o de repor. Uma cama desforrada.



Um cadeado é uma vela branca que se acende em semana santa para clarear o caminho de uma alma que deixa, por hora, o enlace que tinha com o corpo amado. O corpo amado que fora vivo de perfumes e de semblantes amigos, como o rosto de uma ncriança de quatro anos que risca perigosamente pela primeira vez um fósforo de marca Olho. Um cadeado é uma taça de cristal, longa e fina e transparente como uma alma boa de uma criancinha de seis meses que descobre o nosso brinco e brinca de puxar, como se o brinco fosse um bizorozinho inofensivo, com ferrão de borrancha nque nfizesse ncócegas. Uma cadeado é uma declaração de amor e da força do corpo e um cadeado é ainda mais, porque é uma pérola que está no meio do coração como coisa sagrada e cara como coisa mais bonita de cegar os olhos de estátuas e gentes.