Garanhuns, 22 de maio de 2004
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CIDADE
 

Mulheres driblam o desemprego com criatividade e coragem

O desemprego é hoje o principal problema nacional, como não se cansam de mostrar os jornais, o rádio e a televisão. Em Garanhuns, pesquisas recentes atestam que a primeira preocupação dos moradores da cidade é a falta de oportunidades de trabalho. Os mais angustiados com a questão são os jovens, mas também os homens maduros sofrem, pois a partir de uma certa idade o emprego vai ficando ainda mais díficil.

A dificuldade de encontrar um trabalho com carteira assinada é cada vez maior e penaliza igualmente hoje homens e mulheres. Muitos, para garantir a sobrevivência, têm de usar a criatividade e com muita disposição ir à luta, como única maneira de alcançar algum objetivo na vida. No Jornal da Sete 2ª Edição, na FM Sete Colinas, iniciamos uma série de reportagens mostrando o perfil de algumas pessoas que conseguem driblar o problema do desemprego e às vezes até garantem um ótimo rendimento por mês trabalhando como autônomas.

O material ficou tão bom que resolvemos aproveitá-lo também no jornal impresso, onde é possível aprofundar a discussão. Começamos, como no rádio, com as mulheres, que são um exemplo de força e fé, no sentido de vencer obstáculos. Elas, como muitos homens,l provam que apesar de tudo é possível vencer as adversidades e garantir, além da sobrevivência, pelo menos um mínimo de independência.

A MANICURE - Kênia Isley Maciel, 34 anos, é casada com um funcionário público estadual, tem dois filhos menores e trabalha na cidade como manicure. A dona de casa confessa gostar do seu trabalho, que lhe garante uma renda mensal na faixa de um salário-mínimo. "Gosto muito do que faço e além do dinheiro ainda aumento meu círculo de amizades", disse Kênia.

A manicure começou a atividade com apenas 11 anos de idade, quase que por brincadeira, ao fazer a unha dela e de uma amiga. A partir daí tomou gosto e se profissionalizou, estando no ramo há mais de 15 anos. Com o dinheiro que ganha, Kênia Maciel faz suas despesas pessoais, compra alguma coisa para os filhos e ainda consegue juntar umas economias, uma vez que as despesas de casa ficam por conta do marido.

Apesar de exercer uma atividade simples, Kênia garante não sofrer nenhum tipo de preconceito no seu trabalho, tendo conseguido o respeito da comunidade. "Outras mulheres, ao verem que deu certo pra mim seguiram meu exemplo e muitas hoje também ganham o seu dinheirinho, fazendo unhas. Acho que o meu exemplo foi um incentivo a outras pessoas", observou a manicure.

SAÚDE - Lurdes Wanderley tem 33 anos e trabalha como agente de saúde no Conjunto Residencial Francisco Figueira, atendendo a própria Cohab II e loteamentos em volta. Divorciada, dois filhos, a funcionária pública (a profissão ainda não foi reconhecida pelo Governo) mantém a casa e os meninos com o salário-mínimo mensal repassado pela prefeitura.

Apesar das dificuldades, Lurdes gosta do seu trabalho porque experimenta uma sentimento de liberdade, andando pela comunidade e visitando uma média de oito casas por dia. "É um trabalho calmo, no qual atuo junto ao pessoal conhecido e isso é muito bom", declara a agente de saúde.

Ela admite que o orçamento é apertado porque o pai do casal de filhos não está ajudando, contudo garante que consegue pagar aluguel, as contas de luz e água e comprar comida com o dinheiro que recebe por sua atividade. "É meio apertado, mas dá", se conforma a profissional.

Lurdes Wanderley assegura que o trabalho do agente de saúde comunitário hoje é bastante valorizado e os envolvidos na tarefa de visitar as residências são bastante respeitados pelos moradores do bairro, embora ainda exista uma minoria que não aceita muito bem o que fazem.

Na opinião da agente é importante a mulher ter sua independência, mesmo que tenha marido trabalhando e colocando as coisas em casa. "Faz bem pra o íntimo, pra o ego da mulher ela ter o seu próprio rendimento", ressalta Lurdes

LUTA - Nalva Lopes, 36 anos, casada, filho único, também trabalha como manicure atendendo tanto as mulheres da periferia onde mora quanto as madames endinheiradas do centro. Como a sua colega Kênia, ela gosta do que faz e consegue por mês pelo menos R$ 200, dinheiro que é usado para ajudar nas despesas de casa.

"Eu acho que tanto as casadas quanto as solteiras devem ir à luta, pois não de pode deixar de trabalhar", defende Nalva, convencida que as mulheres devem enfrentar a vida com determinação e coragem. "Nós não ganhamos muito, mas esse rendimento ajuda bastante. O importante é trabalhar", complementa.

A CABELEIREIRA - Fátima Maciel, 37, estudou para ser professora, mas logo sentiu que uma sala de aula não era a sua e então resolveu fazer um curso de cabeleireira com Arnaldo, que já faleceu. Depois fez outros cursos e não parou mais. "Foi o caminho que escolhi e estou satisfeita", afirma, mesmo tendo de trabalhar às vezes mais de 15 horas por dia, inclusive nos finais de semana.

Cortando cabelos, no salão montado na Cohab II, ao lado do Colégio Simoa Gomes, Fátima Maciel ganha por mês pelo menos R$ 800,00 líquidos, aumentando essa renda nos períodos de festa da cidade. "Um mês mais movimentado deixa no salão até R$ 3 mil brutos", revela.

Mesmo com muitas despesas para manter o salão, Fátima admite que poucas pessoas em Garanhuns tem uma renda igual a dela, vivendo de emprego ou numa atividade similar. "Se eu trabalhasse todos os dias renderia mais. Mas o movimento é maior somente nos finais de semana. Mesmo assim é muito satisfatório o que faço", salienta a cabeleireira.

Fátima avalia que as mulheres conquistaram muito espaço e hoje não dependem mais de marido ou de empregos menores. Como autônomas, imagina, basta ir à luta e se consegue alcançar os objetivos traçados. "Estou realizada na minha profissão", afirma, confessando ainda que sempre procura se atualizar através de cursos feitos em Garanhuns e outras cidades.

BOLOS, SALGADOS E COSTURA - Já Socorro Ferreira e Ana Maria, as duas com pouco mais de 30 anos, casadas com policiais militares, cada uma com um casal de filhos, vivem respectivamente de fazer bolos ou salgados pra festa de aniversário, e do ramo de confecções. Conseguem fazer por mês um salário-mínimo e meio e com o que ganham ajudam bastante os maridos nas despesas de casa.

"Passou o tempo de ficar só esperando pelo esposo", declara Socorro, que da mesma maneira que as colegas gosta muito do que faz. Já Ana Maria revela que existente uma grande concorrência entre as costureiras, mas admite que mesmo assim dá para garantir um rendimento razoável, principalmente nos períodos de festa. "É melhor trabalhar como autônoma, em casa, do que ter emprego fora, pois aqui podemos fazer o nosso horário e ter mais independência", finaliza a costureira.