Garanhuns, 08 de maio de 2004
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POLÍTICA
 

Bispo de São Paulo apóia padres na política

A maioria dos bispos brasileiros, inclusive através da CNBB, têm procurado restringir a participação dos padres na militância política. Isso tem se acentuado depois da ascenção do papa João Paulo II, que desmontou todo o trabalho que era feito pelo chamado clero progressita. Nas décadas de 60 e 70 a Igreja católica do Brasil se envolveu pra valer na luta contra a ditadura, com destaque para os posicionamentos do arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, que foi perseguido pelos militares e apelidado pelos conservaodres de "o bispo vermelho".

Atualmente, apesar do retrocesso ditado pelo conservadorismo, ainda existem na cúpula da Igreja religiosos que defendem o envolvimento da instituição com a política. Dom Demétrio Valentini, bispo de Jales, no interior de São Paulo, é um dos superiores hierárquicos dos padres que apóiam a militância partidária. Publicamos, na íntegra, uma carta de Dom Demétrio que foi lida no recente encontro dos padres realizado em Garanhuns. O título do documento é "Política, como fazer?" Confira abaixo:

É uma pergunta sempre recorrente. A igreja deve falar em política? A igreja deve fazer política?

Na verdade, quando se faz este tipo de pergunta, quem está em questão é o padre, é o bispo, é a hierarquia da igreja. Por que os bispos nfalam em política, por que o padre se mete em política?

Para esclarecer o assunto, se faz necessário proceder a uma prévia e ampla "limpeza do terreno". Começando por constatar que política não se faz só em tempo de eleições, nem se limita a opções partidárias. Política é postura permanente, e a fazem mesmo quando pensamos de não fazê-la. Calar diante das injustiças, consentir com os desmandos do poder estabelecido, é fazer política, e das piores. Com o risco de parecermos corretos, porque ninguém nos nquestiona, e assim nos iludimos com as aparências de neutralidade e com a capa da imunidade eclesial.

(A dimensão política da vida humana está presente em todas nas circunstâncias do cotidiano. Por outro lado, a fé creistã tem na força de penetrar em todas as dimensões da realidade humana, e dar-lhe novo sentido e direcionamento. Daí que é compromisso dos cristãos assumir a dimensão política da existência humana, como incumbência inalienável do próprio evangelho. De resto, o Evangelho está impregnado de política. Desde o nascimento naté sua morte, Cristo esteve diretamente envolvido com a política do seu tempo, implicando com Herodes, Pilatos e até o imperador César. O cristão só se livra da política se quiser fugir ou se omitir.)

A política é inevitável. Trata-se, então, de saber fazê-la. A questão é carregada de ambiguidades. O próprio Deus se encarregou de advertir seu povo, quando estee pensou em escolher para si um rei, como todos os povos faziam. E Salomão, o sábio, teve o bom senso de pedir a Deus exatamente a sabedoria para governar, para fazer bem a política. Pediu a Deus a graça de "reger o mundo com sanbedoria, paz e ordem, e exercer com retidão o seu julgamento"(Sab 9,3)

(É dever dos cristãos cumprir esta tarefa. Neste sentido, é toda a igreja que possui uma dimensão "leiga", ligada ao ordenamento deste mundo de acordo com os desígnios de Deus. Desta dimensão não se excluem os membros da hierarquia. E é a nque moram os desafios mais difíceis.)

Os responsáveis pela comunidade precisam se dar conta, antes de mais nada, que é seu dever incentivar a comunidade a assumir a dimensão política nda vida humana. É urgente superar a falsa desculpa de que "a igreja não deve fazer política". Deve, sim! Pois a omissão dos cristãos é responsável por muitos demandos políticos nque acontecem na sociedade.

Existem as situações excepcionais, em que até os membros nda hierarquia são chamados a fazer política diretamente. A CNBB, por exemplo, cumpriu uma lúcida tarefa, ao colocar o peso de sua autoridade moral, mas também de sua nação concreta, para coibir os abusos da ditadura militar. Valeu, e muito! Ao passo nque em outros países da América Latina, a omissão da hierarquia católica permitiu a ditadores cometerem milhares de assassinatos. As "situações excepcionais" não acontecem nsó em tempos de ditadura militar: Há outras "ditaduras" que andam soltas por aí: a corrupção eleitoral, a corrupção administrativa, a incompetência política.

Estas situações excepncionais podem justificar a participação direta de padres na política partidária e eleitoral. Mesmo com as muitas precauções que a situação requer, para que se evitem ambiguidades, se a motivação é esta, que se entre para valer, e que se busque dar uma demonstração exemplar de como se deve fazer política, animados pela fé, e com a disposição de recolocar a política a serviço do bem comum.