Garanhuns, 08 de maio de 2004
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POLÍTICA
 

Padres desafiam bispos e participam da política

Garanhuns sediou esta semana um dos mais singulares encontros políticos dos últimos tempos. Estiveram na cidade, a convite do paróco da catedral de Santo Antônio, Aldo Mariano, padres que são prefeitos, padres deputados e religiosos que pretendem disputar um mandato este ano. Vieram sacerdotes do Estado de Alagoas, da Paraíba, de Sergipe e de Pernambuco. Os religiosos representavam diferentes partidos, como o PT, o PSB, o PDT e o PL. Daqui da região participaram o próprio Pe. Aldo Mariano, o prefeito de Jupi, Pe. Ivo Francisco, o prefeito de Quipapá, Pe. Djalma Correia, além dos padres Daniel (São João), e Jorge (Águas Belas).

Os padres, como o socialista Eraldo, do PSB de Alagoas, que disputou a última eleição de deputado e obteve 18 mil votos, fizeram uma defesa veemente da participação dos religiosos na política, apesar da posição contraria da maioria dos bispos. Segundo ele, os religiosos sempre participaram da vida pública, a exemplo de padre Cícero que foi prefeito do Juazeiro e vice-governador do Estado. "O melhor senador de Alagoas foi um monsenhor e nas revoluções que aconteceram em Pernambuco os padres sempre estavam envolvidos", lembra o Pe. Eraldo.

BISPOS - No entender do sacerdote alagoano os bispos têm uma posição que deve ser respeitada, mas a Igreja não proíbe os padres de disputarem eleições, apenas recomenda que se afastem de suas funções. "Nós temos essa resistência no Brasil inteiro. Mas na verdade todo mundo faz política, o problema é saber de que lado se está fazendo", questionou o representante do PSB.

Ele ressaltou que nas quermeses e nas festas de padroeiro sempre está por trás o prefeito ou a mulher deste e chegou a citar o último número do Correio Sete Colinas, onde na página da colunista Kitty Lopes aparece uma foto de Silvino e do bispo Dom Irineu Roque Scherer. "Veja aqui, um monte de políticos ao lado de Nossa Senhora, da Mãe Rainha, que nem gostava muito desse povo", alfinetou padre Eraldo, que chegou a insinuar ser hipocrisia a crítica da militância dos padres na vida política.

Outro que passou por Garanhuns foi o frei Anastácio, deputado estadual no segundo mandato pelo PT da Paraíba. O sacerdote disse que no seu Estado os padres sempre tiveram uma atuação marcante na política, como o atual vereador Adelino e Luís Couto, atualmente deputado federal por aquele Estado. "Eu vejo que os padres quando entram na política não estão atrás do poder pelo poder. Eles querem ajudar", disse o frei.

O sacerdote considera natural a resistência dos bispos a participação da Igreja na política, uma vez que os padres são os seus colaboradores diretos, embora pondere que o direito canônico não diz nada contra essa militância na vida pública. Segundo frei Anastácio, a reunião realizada em Garanhuns foi importante porque permitiu uma troca de experiências entre os religiosos.

PREFEITO - Prefeito de Poço Redondo, em Sergipe, já no segundo mandato, o frei Enoque (PL) disse que está tendo uma experiência de vida pública boa e ao mesmo tempo sofrida, por conta da situação do país e da própria consciência do eleitor. "Muitas vezes ele encara a política e a eleição como se fosse uma paixão. O eleitor ainda não se deu conta de que o voto dele é o voto da criança que está na barriga da mãe, é o voto do deficiente, é o voto por estrada, por saúde e por dignidade", observou. Segundo o frei, como falta essa consciência o cidadão usa muito o voto para adquirir favores ou confunde as coisas. "Ora, o favor se paga com favor e o voto com voto. Infelizmente nesse Nordeste é difícil enfrentar essa dificuldade", completou.

O religioso lembrou que em Poço Redondo fica Angicos, que foi onde Lampião morreu. "Independente do fato dele ter sido bandido ou herói isso marcou muito a região. E foi ali que a Igreja realizou um trabalho e as pessoas lá desenvolveram uma consciência que permitiu uma mudança de mentalidade e até de atitude", ressaltou o sacerdote.

"Assim, é uma experiência por um lado gratificante, que nos permite partir do princípio de que administrar é olhar mais para quem tem menos, sem desprezar os ricos, mas tendo toda uma preocupação com a geração de renda, a dignidade das pessoas. É preciso lutar para que os bens públicos sejam tão bons quanto os privados, porque é um escândalo saber que o professor ensina numa escola pública, mas os filhos dele estudam no estabelecimento particular porque nem ele como professor acredita no ensino do qual ele participa", frisou frei Enoque.

Segundo o frei, o fato de ser da igreja tem ajudado o seu trabalho por conta da consciência que o sacerdote deve ter de que será julgado mais severamente pelo eleitor e por Deus e também porque é possível alargar o altar. "Como prefeito eu tenho de ser dos evangélicos, das muitas outras religiões e até dos que não têm fé", afirma o religioso.

QUIPAPÁ - Pe. Djalma, prefeito de Quipapá, disse que admininistra com uma visão diferente, que permite fazer mais, com menos rccursos. Segundo ele na sua gestão o município cresceu e tem apresentado índices positivos, que lhe permitiu ter uma reeleição tranquila. O religioso tentará este ano fazer o seu sucessor e espera ter uma vitória consagradora, dando a José Jorge, o seu candidato, uma margem de votos de 60 a 70% dos votos válidos.

Na opinião de Pe. Djalma a participação dos padres na política é um fato positivo. Ele confessa que quando ingressou na vida pública foi bastante criticado, inclusive no meio da Igreja. "Diziam que eu era mau intencionado, que deixaria o ministério, uma série de coisas que eu nunca procurei alimentar. Mas o padre tem condições de fazer um trabalho bom, que corresponda ao anseios da comnunidade", afirmou o prefeito de Quipapá.

"É evidente que eu sei e todos nós sabemos que é impossível fazer 100%, mas sem dúvida podemos fazer grande parte do que a comunidade está precisando. A prova disso é que estou no oitavo ano do meu mandato e tenho hoje - dito pelas pesquisas - 85% de aprovação popular. Isso é prova de que meu trabalho é um trabalho sério. Trabalhamos para beneficiar todas as classes e no final todo o município sai ganhando", finalizou Pe. Djalma.