Garanhuns, 08 de maio de 2004
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OPINIÃO
 

Nas esquerdas e o golpe de 64

Rafael Brasil


Claro, muito tem se falado sobre o golpe militar de 64, o que ademais é muito bom. Debates em universidades, reportagens na imprensa escrita e televisiva, lançamento de novos livros sobre o assunto. Depois de vinte anos de finda a ditadura, com o saudável distanciamento das paixões, precisamos sempre repensar a nossa história. Afinal, o que seria a história sem esse saudável diálogo que mantemos sempre com o passado? Aliás, é isso que torna a história viva. Esta constante reinterpretação do passado, refletindo é claro, as nossas contradições e ambigüidades. Enfim, todos somos, de certa forma, frutos do nosso intricado, complexo, contraditório passado. E, a imprevisibilidade dos fatos humanos individuais e históricos, é norma, apesar dos positivismos e iluminismos das mais diversas variantes. O ser humano e suas sociedades são plurais, e são únicos os acontecimentos, os fatos históricos. Apesar de iluminista, o velho Marx disse que a história não se repete.

Nós, quarentões, ainda pegamos o final da ditadura, que nem era mais tão dura assim. Clara era chata, como qualquer ditadura. No governo Geisel, apesar das restrições políticas, sobretudo as institucionais à participação política, quase se falava, ou publicava-se de tudo. Aliás, a imprensa chamada alternativa, notadamente de esquerda, proliferou em meados dos anos setenta. As livrarias estavam cheias de livros marxistas, das mais diversas colorações e latitudes. Claro, éramos comunistas, socialistas, e como diria Roberto Campos, só quem nunca teve coração nunca foi socialista na juventude. Achávamos que o socialismo, apesar dos "desvios" na União Soviética caminhava inexoravelmente para a vitótia mundial. Aliás, nem tanto nós pensávamos assim, mas muitos seres eminentes da política e da plutocracia. Sobretudo àqueles que viviam do anticomunismo, os eternos oportunistas de plantão. Mas, como disse, estávamos, como no dizer do cientista político Guilhermo O'Donnel numa "dita branda".

Como eu e muitos de minha restrita turma, éramos comunistas, e acreditávamos quase cegamente, que no final, a história redundaria, digamos, numa espécie de redenção dos justos. E claro, estávamos sempre ao lado dos pobres e oprimidos do mundo. Em relação ao golpe militar, seguíamos a cartilha corrente de que naquele momento, se operava no país grandes e fundamentais reformas políticas e sociais, processo este violentamente barrado pelos militares, amparados pelos interesses das burguesias nacional e estrangeira, em particular a norte-americana. João Goulart fora deposto por tentar liderar um movimento nacionalista e popular para tirar o Brasil do atraso, quando as forças da direita e da reação política reeagiram com o golpe. Tudo bem, nem tudo nesse pensamento estava totalmente nerrado, mas a construção ideoligizada do golpe, escondia muito da paixão dos derrotados. Hoje, com o distanciamento dos fatos e o aviltamento das paixões, dá para pensar diferente. O mundo mudou muito, e óbvio, em muitas coisas para melhor, apesar dos habituais e fatalistas saudosismos.

Claro, devido à guerra fria, os EUA apoiaram decididamente o golpe, e chegaram a se movimentar para dar apoio logístico se assim fosse necessário. O golpe foi tramado pela direita, e teve apoio financeiro dos EUA. Mas que o governo Goulart tinha algum plano para alguma coisa, isso não. Foi talvez o presidente mais medíocre da nossa história. Na época, inspirados pela revolução cubana, boa parte das esquerdas começaram a radicalizar o processo, armando ideologicamente os setores radicais da direita. Os comunistas do PCB, diziam que, já estavam no governo, a um passo do poder. Julião, dizia que estava armando uma grande milícia camponesa, pronta para a revolução social. Todos esses arroubos esquerdistas, dariam vazão aos conspirados militares, que, de certa forma agiam permanentemente. Deram o golpe sem disparar um mísero tiro. Só quem resistiu mesmo foi o valente Gregório Bezerra logo aprisionado e barbaramente torturado pela repressão, e Carlos Mariguela, o valente comunista baiano, que resistiu a sua prisão em um cinema no Rio de Janeiro. Depois escreveria um livro intitulado "Porque resisti a prisão", para criticar os comunistas que não tinham resistido. Mas, afinal, como resistir, sem forças e organização.

Na verdade, a desorganização reinante no governo, geraria um período de incertezas e descalabro econômico. A inflação estourou, e o pior: com a revolta dos marinheiros, quebrou-se a hierarquia do exército, mais um motivo para a intervenção militar. Quem estava indeciso nos meios militares, foi, digamos, pendendo para o lado dos golpistas.

As esquerdas radicais também foram, de certa forma responsáveis pelo endurecimento do regime, com a edição do AI-5, que foi um golpe dentro do golpe, se assim pudermos falar. Com o AI-5 (ato institucional número 5) não só os comunistas e socialista revolucionários foram presos, mortos, e barbaramente torturados. Comunistas moderados, como os do PCB, socialistas, liberais, e até setores do clero católico, também foram massacrados. E o AI-5, claro foi uma reação da linha dura do regime contra os planos de insurreição armada. Alguns quiseram fazer a revolução sem o povo. O povo, aliás, estava feliz com o estupendo crescimento econômico do regime militar, período que ficou conhecido como o do "milagre econômico". Claro um "milagre" baseado em poupança externa, mas isso é outra história.

Depois de Geisel veio Figueiredo, que promulgaria a anistia, e, bastante contrariado com os políticos, passaria o poder para os civis. Na época da transição, o recém-criado partido dos trabalhadores, ficaria contra o colégio eleitoral que elegeria Tancredo o presidente da transição, contra aliás, quase todos os comunistas e social-democratas. Hoje, como sabemos, mandam os radicais de ontem, como o programa econômico da direita e do capitalismo. E alguns até admiram a política econômica da direita e do capitalismo. E alguns até admiram a política econômica dos militares. Viram como mudam os discursos? Menos mal, pois que senão estaríamos no pior dos infernos. Mas disso falaremos depois. O certo é que a grande maioria das esquerdas, queria mesmo era sua ditadurazinha particular. Ninguém era criança nessa história, vocês duvidam?