Garanhuns, 08 de maio de 2004
  Início
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Cultura
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


A solução é o teleférico

Garanhuns não tem uma BR-232 duplicada, nem faculdade de enfermagem, shopping ou cinema. A única diversão por aqui é tomar sorvete na Milk Shake, se lambuzar na buchada do gago, almoçar aos domingos na picanha do Sargento, comer na feijoada da Kitty uma vez por ano e ser assaltado no Cristo do Magano.

Já tentaram de tudo pra animar a cidade. Criaram o Carnaval da Paz e só consequiram a paz dos cemitérios. Inventaram de fazer uma festa de Santo Antônio de verdade e só desanimaram mais ainda o padre Aldo, que não se aguenta de saudade de São Bento do Una. Construíram um monte de praças na Boa Vista, perto do Colégio Quinze, em Heliópolis (o tal de pólo, que nem os maconheiros procuram mais), guaribaram a Guadalajara, foi dinheiro perdido, os monumentos de cimento e pedra portuguesa só vivem vazios, não aparece nem jovem para namorar.

É um frio danado e todo mundo em casa, vendo televisão, aguentando no saco as chatices do Faustão, as risadas do Silvio Santos, os faniquitos do Borys Casoy e as canastrices do Tom Cavalcanti e do Casseta e Planeta.

Eu não sou pessimista, mas juro que estou preocupado. É que outro dia um empresário da cidade fez o maior sensacionalismo pra cima de mim. Disse que tá todo mundo indo embora. Ou pra Maceió, onde tem praia, ou para Caruaru, que pelo menos tem a feira da sulanca, boneco de Vitalino e o curso de Odontologia, ou pra o Recife, lugar de mulheres bonitas, canais fedorentos, assaltos e homicídios em cada esquina.

Estão indo embora porque em Garanhuns até a matança está em decadência. E querem colocar os filhos pra estudar. Um vai ser médico, outro advogado, engenheiro, psicólogo, dentista, tem doido até que inventa de fazer jornalismo. Muitos nunca vão usar o diploma, mas aí já é outra história.

Mas Garanhuns tem solução sim e chega de desânimo. E a salvação da lavoura não vem dos céus, nem das mentes iluminadas de Sirvino, Bartolomeu Quichute, Márcio Quinino, Jorge Quase Branco ou de Alexandre, o Grande.

Padre Lelé nos deixou órfão, mas temos um dromedário ou um camelo que vai nos redimir.

E ele já anunciou a boa nova. Mais edificante do que o bondinho do pão de açúcar, mais original do que o elevador Lacerda, mais arrojado do que as cataratas do Iguaçu, mais eletrizante do que as dunas de Genipabu, mais charmoso do que as ondas de Porto de Galinhas, mais interessante do que todos os parques de Curitiba somados, mais atraente do que todas as praias do Nordeste juntas, mesmo Tambaba, com mulheres e homens pelados... E chega de mais.

Após a inauguração dessa grande obra Garanhuns vai encher, como dizia o grande prefeito, de "turistas de fora".

Sim porque a terra do presidente (e aí até o pau de arara vai aparecer de novo, nem que seja para pegar uma carona no ato da inauguração) será a única do mundo a ter um teleférico, unindo as sete colinas entre si.

Iremos passear pelos céus, do Magano ao Monte Sinai, da Boa Vista ao Alto do Triunfo (abenção, mãe Rainha!), do Columinho até à colina de Antas.

O teleférico será universal. Com certeza trará a Garanhuns a Rede Globo, a reportagem da revista Veja, a BBC de Londres e até o presidente Bush, que esquecerá pelo menos por uns dias seu espírito belicoso. Se o Bush não vir talvez apareça o Bin Laden, disfarçado de corretor de imóveis.

Não seremos mais a cidade do já teve, nem das flores, nem a capital da primavera, nem Suíça Pernambucana, terra de Simoa Gomes ou lugar do clima maravilhoso.

Nem a Garanheta ou o Festival de Inverno movimentarão tanto o município. E com certeza até Jarbas, Armando Monteiro, Joaquim Francisco e Sirvino farão uma cara simpática ao experimentarem do teleférico.

Aí o camelo, idealizador da grande obra. Será reeleito prefeito, depois vencerá a disputa pelo governo do Estado e enfim chegará à presidência da República. Será o segundo garanhuense no Palácio do Planalto. Tudo graças ao teleférico. Tudo por conta de uma idéia genial, uma idéia tão do cacete que eu nem desconfio porque ninguém pensou nela antes.

Abaixo a burguesia! A solução é o teleférico.