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HUMOR
Raulzito
A solução é o teleférico
Garanhuns não tem uma BR-232 duplicada, nem faculdade de
enfermagem, shopping ou cinema. A única diversão por
aqui é tomar sorvete na Milk Shake, se lambuzar na buchada
do gago, almoçar aos domingos na picanha do Sargento, comer
na feijoada da Kitty uma vez por ano e ser assaltado no Cristo do
Magano.
Já tentaram de tudo pra animar a cidade. Criaram o Carnaval
da Paz e só consequiram a paz dos cemitérios. Inventaram
de fazer uma festa de Santo Antônio de verdade e só
desanimaram mais ainda o padre Aldo, que não se aguenta de
saudade de São Bento do Una. Construíram um monte
de praças na Boa Vista, perto do Colégio Quinze, em
Heliópolis (o tal de pólo, que nem os maconheiros
procuram mais), guaribaram a Guadalajara, foi dinheiro perdido,
os monumentos de cimento e pedra portuguesa só vivem vazios,
não aparece nem jovem para namorar.
É um frio danado e todo mundo em casa, vendo televisão,
aguentando no saco as chatices do Faustão, as risadas do
Silvio Santos, os faniquitos do Borys Casoy e as canastrices do
Tom Cavalcanti e do Casseta e Planeta.
Eu não sou pessimista, mas juro que estou preocupado. É
que outro dia um empresário da cidade fez o maior sensacionalismo
pra cima de mim. Disse que tá todo mundo indo embora. Ou
pra Maceió, onde tem praia, ou para Caruaru, que pelo menos
tem a feira da sulanca, boneco de Vitalino e o curso de Odontologia,
ou pra o Recife, lugar de mulheres bonitas, canais fedorentos, assaltos
e homicídios em cada esquina.
Estão indo embora porque em Garanhuns até a matança
está em decadência. E querem colocar os filhos pra
estudar. Um vai ser médico, outro advogado, engenheiro, psicólogo,
dentista, tem doido até que inventa de fazer jornalismo.
Muitos nunca vão usar o diploma, mas aí já
é outra história.
Mas Garanhuns tem solução sim e chega de desânimo.
E a salvação da lavoura não vem dos céus,
nem das mentes iluminadas de Sirvino, Bartolomeu Quichute, Márcio
Quinino, Jorge Quase Branco ou de Alexandre, o Grande.
Padre Lelé nos deixou órfão, mas temos um
dromedário ou um camelo que vai nos redimir.
E ele já anunciou a boa nova. Mais edificante do que o bondinho
do pão de açúcar, mais original do que o elevador
Lacerda, mais arrojado do que as cataratas do Iguaçu, mais
eletrizante do que as dunas de Genipabu, mais charmoso do que as
ondas de Porto de Galinhas, mais interessante do que todos os parques
de Curitiba somados, mais atraente do que todas as praias do Nordeste
juntas, mesmo Tambaba, com mulheres e homens pelados... E chega
de mais.
Após a inauguração dessa grande obra Garanhuns
vai encher, como dizia o grande prefeito, de "turistas de fora".
Sim porque a terra do presidente (e aí até o pau
de arara vai aparecer de novo, nem que seja para pegar uma carona
no ato da inauguração) será a única
do mundo a ter um teleférico, unindo as sete colinas entre
si.
Iremos passear pelos céus, do Magano ao Monte Sinai, da
Boa Vista ao Alto do Triunfo (abenção, mãe
Rainha!), do Columinho até à colina de Antas.
O teleférico será universal. Com certeza trará
a Garanhuns a Rede Globo, a reportagem da revista Veja, a BBC de
Londres e até o presidente Bush, que esquecerá pelo
menos por uns dias seu espírito belicoso. Se o Bush não
vir talvez apareça o Bin Laden, disfarçado de corretor
de imóveis.
Não seremos mais a cidade do já teve, nem das flores,
nem a capital da primavera, nem Suíça Pernambucana,
terra de Simoa Gomes ou lugar do clima maravilhoso.
Nem a Garanheta ou o Festival de Inverno movimentarão tanto
o município. E com certeza até Jarbas, Armando Monteiro,
Joaquim Francisco e Sirvino farão uma cara simpática
ao experimentarem do teleférico.
Aí o camelo, idealizador da grande obra. Será reeleito
prefeito, depois vencerá a disputa pelo governo do Estado
e enfim chegará à presidência da República.
Será o segundo garanhuense no Palácio do Planalto.
Tudo graças ao teleférico. Tudo por conta de uma idéia
genial, uma idéia tão do cacete que eu nem desconfio
porque ninguém pensou nela antes.
Abaixo a burguesia! A solução é o teleférico.
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