Garanhuns, 24 de abril de 2004
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OPINIÃO
 

Zeca Pagodinho na cabeça

Marcio Varella


Mês passado os reacionários imbecis comemoraram, a portas fechadas, o período mais negro da vida política brasileira. Os militares chegaram em 1964 e só deixaram o poder 21 anos depois. O estrago foi grande. Acho que a hora não é a de analisar os restos mortais do estrago feito por eles, mas nunca é demais lembrar que todas essas historinhas que a mídia impressa está publicando a respeito podem ser tachadas de mentirosas se não se referirem à pressão norte-americana, por meio de seu embaixador e de vários institutos de fachada, junto aos generais e ao governador mineiro de então, Magalhães Pinto, aquele que deu um tremendo cano na praça com seu banco, o Nacional de Minas Gerais, fechado pelo Banco Central nos anos 90. Pressão para derrubar João Goulart.

Não foi difícil derrubar Jango. O apoio dele aos soldados, que queriam votar e eram proibidos, o apoio à reforma agrária e o que se chamava na época de reformas de base, entre elas o tabelamento do aluguel no país.

Os americanos sabiam o quanto nosso povo, devido à colonização portuguesa, era preconceituoso e tradicionalista. O preconceito grassava na época: contra o negro, contra mudanças sociais, contra os alcoólatras (xingados nas ruas de bêbados), contra as mulheres que defendiam mercado de trabalho próprio, contra as mulheres que se revoltavam contra os maridos que chegavam em casa manchados do batom das "madames" do Cassino da Urca. As elites eram tratadas com todo o respeito, sinhozinho pra cá, sinhozinho pra lá.

Com muito dólar por debaixo do pano, a "assessoria" revolucionária foi comprada. Eram os que hoje chamaríamos de cabos eleitorais. Já a assessoria do Jango tinha a visão curta. Não era hora de defender reforma agrária e tabelamento de aluguel. Disso se aproveitaram os americanos que usaram o Olímpio Mourão e os outros generais para tomar o poder.

Aquele momento político, o do Jango no poder, nos foi roubado pelos EUA. O que eles fizeram aqui foi pior do que a invasão do Iraque e de todos os países que eles invadiram para mudar a história, a favor deles, é claro. Roubaram a grande oportunidade de o povo brasileiro, principalmente a classe média, sair da ignorância. Discutir seu futuro, sair da casca do preconceito.

Em virtude da fragilidade política que os militares nos deixaram de herança, tivemos de passar por Collor, Itamar Franco e, pior, por Fernando Henrique Cardoso. Este teve em mãos e por um bom tempo a oportunidade de encaminhar a classe média para o seu portal de glória, de devolver o valor do dinheiro aos pobres, de libertar o pensamento deste povo do seu eterno patrão, o governo. Nadica disto foi feito. Pelo contrário: ele ensinou a juventude a imitar os Estados Unidos, principalmente naquilo que se refere à competitividade, tornando o marketing a matéria mais cobiçada da moçada que estava deixando a universidade para fazer cursos de especialização. Foi o ensino, em todas as suas fases, quem mais sofreu nas mãos de FHC. Andamos para trás.
Infelizmente, carregamos até hoje preconceitos absurdos dentro de nós, como aquele que nos faz rir e duvidar da religião espírita; como aquele que nos faz rir e duvidar de que a dependência de drogas tem recuperação (há 14 anos eu posso ser considerado um bom, não diria digno, exemplo disso); como aquele que diz que ninguém é feliz sozinho.

Parceria, meu Poder Superior, parceria. A competição que vá praquele canto. Sem parceria não há sabedoria e muito menos salvação. Sem caridade, não poderemos nunca ser reconhecidos como cristãos. Fazer caridade não é dar dinheiro a um pobre pra ele comprar um bolo. Caridade é usar o seu tempo disponível para fazer o bolo e comer o bolo junto com o seu novo amigo, o seu vizinho, pois ele é pobre, sim, tá na rua, sim, tá pedindo esmola, sim, mas é seu vizinho porque está do seu lado à procura de um parceiro pra contar as suas dificuldades, requerer o seu amor, a sua atenção. Fazer caridade é ser sábio.

E isto nós não aprendemos com FHC, que preferiu dar vez aos cursos de marketing ao invés de implantar a parceria nas escolas e nas empresas do governo.

A competitividade, caros amigos, é a última gota do capitalismo. Veio junto com a globalização, para salvar o sistema da falência total.

Devemos aproveitar Lula com toda a consciência pois é com ele que está a consciência do poder fazer para mudar. Lula está dando a última chance aos brasileiros para promoverem as mudanças necessárias para que este povo possa sair dessa malemolência incômoda, deixar os preconceitos de lado, tomar atitudes, fabricar um novo Brasil.

Já estamos de saco cheio de só ver governo fazendo obras, abrindo estradas, erguendo isto e aquilo. Todas as inaugurações de obras importantes neste país nos últimos 200 anos foram de autoria dos governos. É hora de a sociedade fazer as suas obras. E isto começa mudando o pensamento, a orientação.

Dois exemplos: aprovado no Senado projeto que dá bolsa para estudantes gênios. Mas, cara, que puta preconceito. Bolsas merecem aqueles que não conseguem tirar boas notas. Estes são os necessitados, pois trabalham o dia inteiro, cansam-se, se arrebentam todo para poder concluir a porcaria de um curso superior. Quantos gênios estão espalhados por aí trabalhando 12 horas por dia e estudando mais oito?

Os bancos implantaram filas para idosos e gestantes ou pessoas acompanhadas de crianças. Ora bolas, mas que merda é essa? Primeiro, idoso e gestante têm que ser atendidos em casa pelos funcionários do banco. Pra que é que serve a tal da tecnologia? Por que a burocracia bancária não foi atingida pela tecnologia? Por que não pagar contas na farmácia, na banca de revista, por que não retirar dinheiro na agência dos correios?

Cotas para negros em universidades: nada contra, mas cria um outro preconceito porque discrimina os outros. O jeito, a única solução é acabar com essa porcaria de vestibular, que só dá dinheiro pros cursinhos. E não me venham com senões, porque espaço existe, vontade política existe, professores existem, aos montões, ganhando uma porcaria de salário, mas existem - e tem mais: são excelentes.

Pra concluir: que tal abrir os cofres dos bancos e investir em ferrovias, hidrovias, faculdades públicas, campos de esporte, parques, jardins e dar ao povo seu lugar de honra, que é a parceria com o poder? Chega de futebol, vôlei de praia e fórmula-1. Tá na hora de ser feliz. Zeca Pagodinho mudou. Nós também podemos. Viva a TV pública!!!


Marcio Varella é jornalista em Brasília.