Garanhuns, 10 de abril de 2004
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CULTURA
 

Crônicas Fraturadas
Para Taline Djanira Calado

Helder Herik


I.

"Sua presença basta, que importa o resto?"
(Jorge Amado).

O que eu tenho encravado no corpo, aqui, não é o coração mole. Essa cartilagem eu não tenho. Se for para ter algo, que seja coisa amolada. Pronto, o que eu tenho embutido é um inferno de costelas. Corrijo. O coração é grosso, mas é terra. Terra sem mato. Eu não deixo que trabalhem nele. Ele é coisa minha. Pode ser grosso, pé nu. Poder ser almofada, mas almofada é teoria dos outros. Meu coração é isso que eu digo: Coisa minha.

Agora, ele assim é duro; duro e grosso, mas vive. É um feijão...
E tem uma moça aqui que é uma peste. Ela o cozinha.


II.

"Sementes eram jogadas nos buracos, onde eram sepultadas numa desesperança, tão seca era a terra. O dia de trabalho passa rápido quando sua aventura não subjuga nossas forças."
(Nivaldo Tenório)

Eu tinha curiosidade. Uma curiosidade chata. "Então, se a gente tem céu da boca, então se é assim, Deus está aqui, na minha boca, se melando todo de cuspe, sentindo gosto de remédio ruim, engolindo pasta".

Repreendiam-me: "Tu morre de tanto pecado que tem nessa boca suja". Morria não. Morria como, se Deus estava no céu da boca? Fiquei certo que cada um tinha um Deus no céu da boca. O Deus de Eraldinei devia ser mais gordo. Eraldinei tinha um Deus jaburu porque ele tinha um bocão.

Meu Deus era tamanho de nada, meio covarde. Eu protegia de comida ruim. Cebola, pimentão, aquela sopa de minha tia. Eu sempre o livrava de porcarias. Queria-lhe bem, um bem grande. E ele se acovardava comigo, me deixava ali, uma semana com o dente doendo.

Eraldinei nunca teve uma dor de dente. Teve um dia lá uma, mas não valia como dor de dente, dizia que era uma dor de cócegas, ficava catucando o dente com a língua, com o dedo, como se fosse pra doer. Aquilo é que era um Deus bom, amansava a dor de dente de Eraldinei, tapeava-lhe fazendo cosquinha. O meu parece que chutava, pisava em cima. Talvez quisesse mais espaço, como aquele da boca de Eraldinei, aquela boca de chambrego eu não tinha. Daí meu Deus querer estambocar a minha. O céu da minha boca era pequeno pra caber um Deus tão grande. Devia ser isso.


III.

"O modo como viviam as pessoas naquela nova terra mostrava que as palavras do prelado não haviam caído em orelhas de surdo".
(Luzilá Gonçalves Ferreira)

Amigo leitor, vai editado aqui algumas das minhas "crônicas fraturadas". São coisas de entusiasmos, baboseiras, infantilidade de escritor chinfrin. Contudo o leitor atento, humano, deve lhes atribuir alguns valores, que não são muitos e talvez um só: o de destrair da morte.

Vai o meu agradecimento pela leitura paciente, pelo espaço cedido neste jornal. Obrigado Roberto Almeida.

(Continua na próxima edição).