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Crônicas Fraturadas
Para Taline Djanira Calado
Helder Herik
I.
"Sua presença basta, que importa o resto?"
(Jorge Amado).
O que eu tenho encravado no corpo, aqui, não é o
coração mole. Essa cartilagem eu não tenho.
Se for para ter algo, que seja coisa amolada. Pronto, o que eu tenho
embutido é um inferno de costelas. Corrijo. O coração
é grosso, mas é terra. Terra sem mato. Eu não
deixo que trabalhem nele. Ele é coisa minha. Pode ser grosso,
pé nu. Poder ser almofada, mas almofada é teoria dos
outros. Meu coração é isso que eu digo: Coisa
minha.
Agora, ele assim é duro; duro e grosso, mas vive. É
um feijão...
E tem uma moça aqui que é uma peste. Ela o cozinha.
II.
"Sementes eram jogadas nos buracos, onde eram sepultadas numa
desesperança, tão seca era a terra. O dia de trabalho
passa rápido quando sua aventura não subjuga nossas
forças."
(Nivaldo Tenório)
Eu tinha curiosidade. Uma curiosidade chata. "Então,
se a gente tem céu da boca, então se é assim,
Deus está aqui, na minha boca, se melando todo de cuspe,
sentindo gosto de remédio ruim, engolindo pasta".
Repreendiam-me: "Tu morre de tanto pecado que tem nessa boca
suja". Morria não. Morria como, se Deus estava no céu
da boca? Fiquei certo que cada um tinha um Deus no céu da
boca. O Deus de Eraldinei devia ser mais gordo. Eraldinei tinha
um Deus jaburu porque ele tinha um bocão.
Meu Deus era tamanho de nada, meio covarde. Eu protegia de comida
ruim. Cebola, pimentão, aquela sopa de minha tia. Eu sempre
o livrava de porcarias. Queria-lhe bem, um bem grande. E ele se
acovardava comigo, me deixava ali, uma semana com o dente doendo.
Eraldinei nunca teve uma dor de dente. Teve um dia lá uma,
mas não valia como dor de dente, dizia que era uma dor de
cócegas, ficava catucando o dente com a língua, com
o dedo, como se fosse pra doer. Aquilo é que era um Deus
bom, amansava a dor de dente de Eraldinei, tapeava-lhe fazendo cosquinha.
O meu parece que chutava, pisava em cima. Talvez quisesse mais espaço,
como aquele da boca de Eraldinei, aquela boca de chambrego eu não
tinha. Daí meu Deus querer estambocar a minha. O céu
da minha boca era pequeno pra caber um Deus tão grande. Devia
ser isso.
III.
"O modo como viviam as pessoas naquela nova terra mostrava
que as palavras do prelado não haviam caído em orelhas
de surdo".
(Luzilá Gonçalves Ferreira)
Amigo leitor, vai editado aqui algumas das minhas "crônicas
fraturadas". São coisas de entusiasmos, baboseiras,
infantilidade de escritor chinfrin. Contudo o leitor atento, humano,
deve lhes atribuir alguns valores, que não são muitos
e talvez um só: o de destrair da morte.
Vai o meu agradecimento pela leitura paciente, pelo espaço
cedido neste jornal. Obrigado Roberto Almeida.
(Continua na próxima edição).
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