Garanhuns, 27 de março de 2004
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COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


Garanheta

Viviane já fez 30 anos, porém teima em usar shorts e saias curtíssimas. Quer todo sábado fazer as unhas com Fafá, manicure do bairro São José e ainda gasta dinheiro no salão de Darlene, cabeleireira no mesmo bairro.

Minha namorada resiste em amadurecer e desde janeiro me aporrinha o juízo para participar da Garanheta, que rima com punheta e talvez por isso é um evento eminentemente aborrecente, a partir das atrações.

- Ora, Raulzinho, deixa de ser conservador! - reclama ela, quando eu a critico por querer se juntar aos adolescentes que desfilam nos blocos -, se as madames da cidade podem ir pra os camarotes, desfilar sua beleza, por que não posso me divertir na avenida?

E aí sou obrigado, todos os anos, a andar na Rui Barbosa, imaginando que o grande intelectual baiano deve tremer no túmulo ouvindo as letras das bandas de sua terra, nesse período de garanhagem.

Babado Novo, Chiclete com Banana, Timbalada, Gil (felizmente não é o ministro). Só os nomes desses grupos musicais já dizem tudo. São denominações cretinas, idiotas, imbecilizantes, como as letras das músicas que cantam e a festa em si.

Mas jovem, hoje, tem tanta coisa na cabeça quanto minha namorada.

Viviane, acredite se quiser, pensa que a guerra no Iraque foi um filme estrelado pelo Silvester Stalone. Até a destruição das torres gêmeas ela jura ser pura ficção. E mesmo nos assuntos nacionais tem se revelado uma besta. Outro dia me perguntou se essa confusão toda em torno do Waldomiro era por que descobriram que Lula gostava de jogar no bicho.

Mesmo assim ela ainda ousa opinar sobre a política de Garanhuns. Na sua opinião, Sirvino devia se candidatar novamente, porque tem sido um bom prefeito.

- Mas não pode, ele já está no segundo mandato e a lei não permite - expliquei calmamente.

- Então ele devia botar dona Orora - defendeu

- Também não pode, é esposa e a lei também não deixa - acrescentei.

Viviane, então, deu uma de gênio, disse que Sirvino devia apoiar o Jesus, aquele que trabalha na sua assessoria.

- Ele é fiel por demais ao chefe e tem o nome do salvador. Verdade que é um pouquinho culto e não sei se isso ajuda. As igrejas, no entanto, não têm como ser contra. Como o bispo Dom Irineu Roque V e os pastores das igrejas evangélicas poderão ser contra o filho de Deus? Imagine só o slogan: Jesus está chegando! - delirou minha amada, convencida de que achou a solução para o impasse de Sirvino.

Chamei ela à realidade e aconselhei: é melhor você comprar seu kit logo e se preocupar só com a Garanheta!

Dessa vez ela atendeu, vestiu as roupas confeccionadas em Santa Cruz do Capibaribe, caprichou na maquiagem, olhou bem nos meus olhos e convocou:

- Vamos garanhar?

Confesso que não resisti. E ao som do tal de Babado Novo fui feito um cachorrinho, babando mesmo. Grudei nela feito um chiclete, timbalei pra cá e pra lá e nem precisei beber pra esquecer meus problemas.

Vai ver que no fundo eu também gosto da garanheta.