Garanhuns, 13 de março de 2004
  Início
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Cultura
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
OPINIÃO
 

Corações e mentes

Alcione Araújo


Não dá mais para sofismar. A baixa escolaridade e a precariedade da formação humanista estão prejudicando o debate cultural no Brasil. Por decorrência, empobrecendo na produção da cultura.

Com a lastimável educação oferecida à população e a tosca sensibilidade desenvolvida para o que seja do domínio do humano, é evidente que não será diferente se o tema for política, economia, saúde, agricultura, - enfim, qualquer das bases em que se fundam a construção de uma nação e de um povo. Mencionei disciplinas tão distintas porque a autonomia de cada uma se refere apenas à estreita faixa do conhecimento do que lhes é específico. Na verdade, estão todas mergulhadas no mar de costumes e conhecimentos que se chama de cultura de um povo; e pelo valor que essa mesma cultura lhes atribui.

A ignorância é a mãe da barbárie. Onde a educação não é uma conquista, o saber é um ócio, a cultura é uma futilidade. Ali, não restam princípios, nem hierarquia de valores, tudo é possível, tudo é permitido. Perde-se o discernimento entre o certo e o errado, o justo e o injusto, o honesto e o desonesto, o ético e o aético, o público e o privado. Como sugeria Dostoievski, se tudo é permitido, o demônio merece seu lugarzinho no céu.

A perda de referências, que tem seguido a pulverização de seitas e religiões, abala os pilares mais pronfundos da civilização judaico-cristã. Sem valores, nem princípios não há revolta. Apenas o silêncio da resignação e o imobilismo do medo. Ou a servidão voluntária, como queria Boétie. Estamos caminhando para esta fronteira.

No âmbito da educação, a formação humanista desapareceu no pós-guerra, quando abandonamos a orientação européia e, cruzando o Atlântico, nos atiramos nos braços recém-vitoriosos da formação pragmática e tecnológica dos americanos. Com a cultura e os valores confiados à igreja protestante, ao trabalho e a família - Max Weber destrinchou o fenômeno - a universidade americana podia se permitir o mais radical funcionalismo. O modelo, porém, não se adequava a um Brasil, de colonização católica, onde o ócio honrava e o trabalho aviltava.

Hoje a universidade brasileira transformou-se num espaço de adestramento para produção. Desincumbiu-se da formação do homem e nunca a de cidadão. É comum médicos que nunca leram um romance, engenheiros que nunca viram uma peça de taetro, dentistas que nunca viram um espetáculo de dança. Que seres humanos são esses? O que sabem do seu povo?

Com o atual desemprego, especialistas dizem que a educação ainda é necessária, mas já não é suficiente para assegurar o emprego. Aqui no Rio, havia advogados, engenheiros e arquitetos na fila de inscrição para trabalhar de gari. Salário: R$ 600 por mês.

Com a formação profissional inadequada, o brasileiro rendeu-se à indústria de entretenimento. Elegeu a televisão como sua principal referência cultural. A baixa escolaridade, a tosca sensibilidade e a falta da cidadania levaram a audinência brasileira a derrubar pilares do capitalismo: o de que a competição melhora a qualidade do produto. Hoje no Brasil quanto pior o programa, maior a audiência. É o fantasma da barbárie.

Se a educação fracassa, se a formação do professor é insunficiente, os salários aviltantes, etc., o artista e o intelectual responsável têm que se aproximar da educação que, na sua essência, é o braço da cultura. Assim como na mídia, fundamental numa sociedade de massas, hoje confiada a técnicos em comunicação, na maioria identificados com os princípios e valores da indústria de entretenimento.

Omitir-se perante essas duas instituições significará ao artista/intelectual brasileiro na perda de qualquer função no futuro, seja cultural ou social.


Artigo de Alcione Araújo, publicado originalmente no Estado de Minas e no informativo da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino.