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VIDAS PEQUENAS
Roberto Almeida
Cinco horas, Juliana já estava de pé. No espelho da
sala viu os olhos grandes esverdeados, esfregou-os com as mãos
pequenas de cor quase escura e bateu em retirada, em direção
à cozinha. Em poucos instantes deixaria tudo pronto, pois
sabia ser ágil no comando da pia, da mesa e do fogão.
Dr. Roberto Aguiar acordou pouco depois das oito horas. Levantou,
foi ao banheiro, passou as mãos nos cabelos desalinhados
- já meio grisalhos - e lavou o rosto com a água fria
do início da manhã. Desceu as escadas do primeiro
andar sem pensar em chamar Mariana, que fora dormir tarde e merecia
continuar repousando. Na cozinha, a empregada preparava com a disposição
de sempre o café da manhã - fritando ovos, queijo,
esquentando o pão e o leite.
Era inverno, chovia um pouco e a temperatura amena tornava um tanto
agradável aquele começo de agosto, no simpático
bairro de Apipucos, no Recife. O juiz sentou, organizou pratos,
talheres e iniciou sozinho a breve refeição, com o
pensamento distante da lida dos tribunais. A mulher, os filhos,
a votação da reforma da previdência e a renovação
do seguro do carro - esses os temas que passaram rápido por
sua cabeça, sem que se fixasse em nenhum deles.
Antes de ingerir qualquer tipo de alimento, tomou um copo d'água.
Esse o ritual de todas as manhãs. Fazia bem ao estômago,
aos rins. Um médico amigo lhe aconselhara essa medida anos
antes e desde então esse hábito tornou-se quase que
sagrado em sua vida. Somente depois de tomar meticulosamente o copo
de água mineral, industrializada nas fontes de Garanhuns,
levava à boca, em garfadas seguras, a porção
de inhame com queijo e manteiga. Normalmente comia também
frutas: uvas, abacaxi, melancia ou mamão. Não dispensava
o café com leite e o pão quentinho, comprado minutos
antes pela empregada Juliana.
Antes de Roberto Aguiar terminar o break fest, chegaram Ana Júlia,
Rodrigo e Samuel. Por último a esposa, Mariana. Todos tinham
notável apetite e simplesmente fizeram sumir tudo o que foi
colocado à mesa. Minutos após os 'meninos' tinham
saído, a mulher fora visitar a mãe no Espinheiro e
o juiz aconchegou-se no escritório para trabalhar.
Juliana, enfim, pôde sentar-se e 'forrar' também o
estômago. O queijo havia sido devorado, contentou-se com um
naco de inhame, pão e café puro. Na verdade não
podia reclamar muito, afinal de contas fora criada na Várzea
Comprida sem luxo nenhum mingau de maisena e, na falta dele, farinha,
bolachas. Café aprendeu a tomar desde criança. Muitas
vezes tomou sem mistura nenhuma, a mãe com os olhos tristes.
Da Várzea Comprida saíra para trabalhar 'na casa
dos outros', quando pôde então comer carne - quando
deixavam - ver de relance as cenas das novelas na televisão
e ganhar algum dinheirinho. Aí, dava pra comprar calcinhas
vermelhas, jeans azuis, saias curtas - dessas que deixavam bem à
mostra as pernas bonitas, as coxas grossas. Comprava no camelô,
visitando o shopping apenas para olhar os preços dos produtos
comprados pelos patrões.
Gostava de passear na feirinha do Derby, aos domingos, com uma
roupa nova. Nessas ocasiões era paquerada e elogiada até
pelos filhinhos de papai. E outras vezes ia a Boa Viagem, de ônibus,
quando podia deitar na areia usando um biquíni de bolinhas
amarelas.
Por volta de meio dia a família Aguiar já estava
novamente reunida. Todos almoçavam em casa, fazendo um balanço
das atividades da manhã. Rodrigo fazia comentários
em torno da faculdade de Direito. Ana Júlia gostava de falar
de cinema e música, influência do curso de Jornalismo;
Samuel discorrendo preferencialmente sobre assuntos políticos.
Juliana preparara o arroz, o feijão, o macarrão,
as saladas, as carnes, os molhos, o suco de laranja, a sobremesa.
Dispusera os pratos e agora servia o Dr. Roberto. Dona Mariana,
Ana Júlia, Rodrigo e Samuel. Chegavam da rua cheios de apetite
e comiam com vontade, embora raramente elogiassem as invenções
culinárias da doméstica.
Sobrava feijão, um pouco de arroz, às vezes o macarrão
ou um pedacinho de carne. Mariana, atenta, muitas vezes recomendava:
"a carne não foi suficiente, você pode fritar
um ovo".
Ficava com raiva, quando a fome era muita, mas passava logo. Mesmo
quando, à noite, o juiz Roberto Aguiar ia à cozinha,
cortava três rodelas de inhame e dizia: "é pra
colocar no fogo só isso aqui!"
Que podia fazer? Nas outras residências grã-finas
não era muito diferente. E voltar à Várzea
Comprida, morar novamente na casinha, com a mãe e as irmãs,
nem pensar.
Às vezes sentia-se humilhada, chegava a chorar, escondida.
Resignava-se, enfim, talvez por considerar aquilo uma sina. E afinal
de contas admitia ter o seu quê de culpa, por ser tão
burra, não conseguir aprender a ler e escrever. Bem que tentara,
a professora esforçando-se, sem conseguir 'meter' nada em
sua cabeça de grandes cabelos castanhos.
Um dia, sem paciência, dona Marili, a professora, desabara:
"essa menina não vai aprender nunca. Deve ser porque
passou muita fome".
Poucos na Várzea Comprida conseguiam aprender alguma coisa.
Muitos eram iguaizinhos a ela. Os homens fugiam cedo, de preferência
pra São Paulo. Como o menino Luiz Inácio, esse com
sorte e inteligência. Não é que aquele moleque
feinho, que a mãe conhecera, quando nova, agora governava
o Brasil?
O presidente...
Aos 14 anos, o primeiro emprego. Em Caetés, que nesse tempo
já tinha luz elétrica, rádio e televisão.
Serviu a dona Maria Alice, uma senhora gorda, branca, de pele macia.
Esta ensinou-lhe a preparar o almoço e o jantar. Fazer macarronada
com carne moída, cozinhar macaxeira e banana comprida.
Ficou lá até os 16, quando arranjou o primeiro namorado.
Um rapaz pobre, tanto quanto ela. Sério, sonhava casar, leva-la
à igreja. "Um dia, compro uma casa, trago geladeira,
jogo de sofá, televisão, cama, todo conforto. E vamos
ter três filhos".
Geraldo muito comportado, respeitador. Juliana conheceu Fernando,
um maluco conquistador, sorriso safado, bom de papo. Elogiou seus
olhos, convidou-a para passear de moto e terminaram trocando carícias
nos arredores do açude público.
No Recife fez amizade com Marta, uma morena fogosa e generosa,
conhecedora dos homens. Durante o dia servia uma família
em Casa Amarela. À noite, livre dos afazeres domésticos,
fazia amor nos bancos dos carros, nos recantos pouco iluminados
do parque 13 de Maio, nos quartos espelhados dos motéis da
Avenida Antônio Falcão.
Marta sorria, contava as peraltices na cama. Transava com moços
e velhos. Os rapazes bonitos, da classe média, podiam ser
escolhidos por tesão, por prazer. Os senhores de idade, casados,
este tinham de pagar ou dar algum presente uma blusa, um perfume,
um colar, um par de brincos.
Doida, a Marta. Levantava a saia, mostrava as partes íntimas
ao vigia do prédio, deixava o coitado maluco. Ela dava risadas,
insistia pra gente entrar na dela e seguia vivendo assim, aparentemente
feliz. Nunca, nunca, ninguém a viu triste.
Ria das colegas de infortúnio, ria dos patrões, ria
dos homens capazes de entortar o pescoço só pra olhar
as pernas de uma mulher.
-
Homem é bicho besta sempre repetia.
Nas noites de sexta-feira, ficavam todas no prédio de Marta,
falando mal dos patrões, revelando detalhes a respeito dos
namorados, comentando as novelas da televisão. Saia muita
safadeza, a amiga sempre mais desinibida, relatando feitos que as
outras jamais teriam coragem de fazer.
Um dia arranjou um gringo e foi embora. No dia em que se despediu
das amigas chorou pela primeira vez. A Alemanha foi o seu destino.
Juliana saiu de Caetés porque lá só pagavam
no máximo 100 reais por mês. Chegou na capital
recebendo 180 e na casa de Dr. Roberto conseguiu que lhe pagassem
o salário-mínimo. Lembrava de uma patroa, dona Clara,
que justificava o não pagamento do salário por conta
da comida, do quarto apertado ao lado da cozinha, do sabonete e
da pasta de dentes.
- Se fosse descontar tudo isso você ficaria com bem pouquinho
explicava, com voz pausada.
Essa dona Clara gostava muito de dar conselhos. Religiosa, defendia
que a mulher não devia se entregar a um homem antes do casamento.
Essa patroa um dia resolveu economizar e ficar com uma empregada
só. E Juliana foi encaminhada à residência de
Dra. Fátima, uma nutricionista de pele branquinha, parecendo
uma americana.
Ricardo, marido de Fátima, arquiteto, um dia entrou no quarto
da empregada, perto da meia-noite, e cheio de desejo tentou estreitar
Juliana nos braços. Gostava de homens, ainda mais bem vestidos,
cheirosos, de rostos macios. Só que o patrãozinho
era tão gordo e sua mulher tão educada, boazinha...
Optou por recusá-lo e no outro dia contou tudo à
patroa.
Ela agradeceu a sinceridade, pagou suas contas, tacou-lhe dois
beijos nas faces e disse à menina que esta não ficaria
sem emprego. Quando já estava na casa de Dr. Roberto Aguiar,
soube, através de uma amiga, que dona Fátima não
quisera mais saber do marido, estava morando com os filhos. Ele
teve de arranjar outro apartamento, ficar sozinho.
Aceitara outros homens, esse não. E o fato dele ter perdido
a mulher por sua conta não provocava um mínimo de
remorso.
- Mulher é complicada, mas homem também é.
Mulher é sensível, mesmo quando dissimulada. Homem
é cachorro, mesmo quando sincero ouvira uma tarde de uma
das amigas mais instruídas, sem alcançar inteiramente
o significado daquelas palavras.
Uma irmã sua, chamada Francisca, fora casada com um morenão
alto, cabelos bens pretos, nariz grande. Bebia todos os dias, o
corpo ficava inchado de álcool e ciúme. Fazia a coitada
sofrer pelo vício, pelas grosserias e ainda descuidava de
botar a feira em casa.
Francisquinha também andara pelas casas, lavando pratos
e lambendo chão. Um dia teve de limpar o banheiro três
vezes. Usou sabão, vassoura, detergente, água à
vontade. O patrão, exigente, reclamava que o ambiente continuava
sujo, mandava ela repetir a operação.
Daí o casamento com o moreno, Adauto, um matuto que só
tinha carinho com cavalos e cachorro de raça. O marido foi
tão ruim quanto os patrões. Um dia cansou, mandou
ele pra os infernos, voltou a morar ao lado da mãe.
Era nova, o corpo fazia exigências. Como se controlar? Iniciou
um namoro com um rapaz de uma cidade vizinha, negócio bom,
cheio de amassos, enquanto a mãe dormia. Gilberto, o novo
amor, pediu dinheiro emprestado. Uma vez, duas vezes, três.
Então sumiu, sem pagar nada, queria só o pouco que
ela tinha, o 'cabra safado'.
Francisca, desiludida, tomara o caminho de São Paulo, como
outros tantos. Estava lá ainda, vivendo como doméstica,
sem querer saber de homem. Teria conseguido apagar o fogo? Seria
pela decepção do casamento e do namoro oportunista?
Ou por que engordara demais?
Na última carta dona Beata, uma conterrânea vizinha
da irmã, lá em São Paulo, revelara que Francisquinha
estava passando dos cem quilos. E garantiu que estava bem, tinha
comprado uma casinha, nem falava em retornar um dia ao Nordeste.
Essas vivências todas, talvez, prendiam Juliana um pouco
mais de tempo na casa do juiz Roberto Aguiar e dona Mariana. Esta,
apesar das mudanças de humor, algumas vezes puxava conversa,
perguntava até do namorado, quando tava de 'veneta' comprava
um presente. Uma blusa, uma calcinha, um short, uma saia.
Pensando bem, dona Mariana não era tão ruim assim
não. Deixava de ajudar na cozinha, nunca pegava uma vassoura,
detestava serviço de casa. Em contrapartida dava a ela uma
certa liberdade, diferentemente do patrão.
Este era exigente, capaz de repetir o gesto do chefe de Francisca:
de olho no banheiro, no piso da sala, na quantidade de sabonete
que estava sendo gasto a cada semana.
Gostava inclusive dos amigos do casal. Principalmente do professor,
uma sarará de cabelo ruim, parecendo o seu povo do interior.
Augusto, esse o nome dele, falava o tempo todo sobre coisas que
ninguém entendia. Quer dizer, Dr. Roberto devia entender.
Juliana, Marta, Francisca, o povo normal de carne e osso nem desconfiava
do que ele falava tanto.
Política o tempo todo, Lula, Fernando Henrique, um tal de
Marx, os americanos, os comunistas, capitalistas, a economia, a
história. Livros, livros e livros. "Chega a cabeça
da gente doía".
- Tirando isso, o professor é gente boa. Trata a gente de
forma respeitosa. Uma gentileza só, não importa se
está falando com dona Mariana, Ana Júlia ou comigo
dissera um dia à amiga Marta.
O juiz Roberto Aguiar ganhava muito dinheiro, possuía dois
carros. Freqüentava teatros, cinema, comprava roupas novas
sempre que queria. Passeava aos sábados e domingos, viajava
ao lado da mulher e dos filhos. Rio de Janeiro, São Paulo,
Porto Alegre Belo Horizonte.
Cidades do estrangeiro também.
Essa boa vida, porém, não impedia as brigas constantes
do casal. Por motivos bestas. Os gastos da mulher, as impertinências
do homem.
Juliana, às vezes, imaginava, ser mais feliz que os patrões.
Um absurdo, pensar isso, no entanto não conseguia evitar.
Pois se viviam brigando à toa, ele mal humorado todos os
dias, reclamando de quase tudo. Mariana igualmente esbravejava,
xingava, gritava, 'rodava a baiana'.
- Histérica ouviu uma vez o juiz pronunciar. Deve estar
chamando a mulher de nervosa, doida ou coisa parecida, especulou
a empregada.
Trabalhou dois anos e meio na residência do juiz. Nunca passara
tanto tempo num só lugar. Dona Maria, mãe de Dr. Roberto,
um dia aconselhou que Juliana ficasse na casa do filho até
se casar.
A doméstica, contudo, não fazia planos nesse sentido.
Ia vivendo, apenas. Aproveitando as poucas horas de folga e os domingos
para tomar sorvete, comer salgadinho, conversar com as amigas, entrar
no mar de Boa Viagem.
E namorar. Muito. Beijar no escurinho, encostar-se a um homem junto
do portão, deixar ele deslizar as mãos por suas coxas
e beliscar-lhe a bunda.
Planos, projetos, tinha não. Mesmo assim, queria uma casa
sua. Com panelas brilhando, pratos de porcelana, uma geladeira nova,
branca. Televisão no rack, Tiago Lacerda dominando a sala
na hora da novela das oito. Um marido dedicado, que a conduzisse
pelo braço ao meio-dia, na Avenida Conde da Boa Vista.
Teriam filhos, três ou quatro, criando-os cheios de mimos,
como fazem os patrões.
Somente que na vida de Juliana nada era idéia fixa. "Obsessão
é coisa da classe média", sentenciara uma vez
a amiga instruída. Ia vivendo como se fosse levada pelos
ventos.
Uma sexta-feira, a empregada preparou o jantar. Café, macaxeira,
charque, sopa de legumes, coca-cola, pão, patê de presunto,
geléia.
Nesse dia estavam todos, sairiam após às 22 horas.
Dr. Roberto comeu satisfeito. Ana Júlia, Rodrigo e Samuel
acompanharam o pai com prazer. Mariana provou da sopa, o pãozinho,
tomou dois ou três copos de coca sem se preocupar com a balança.
Levantaram quase ao mesmo tempo, foram aos quartos, em pouco tempo
precisavam se arrumar. O fim de semana apenas começava.
O telefone tocou e Juliana atendeu, antes de poder alimentar-se.
O pão, a coca-cola e o charque acabaram, restava na mesa
meia tigela de sopa, macaxeira e café. Depois comeria.
Ligação do interior, uma outra irmã de Juliana,
não a Francisca, que estava em São Paulo. A mãe
delas acabara de morrer, um infarto fulminante, 'doença de
rico'.
- Você vem pra o enterro?
Desnorteada, a empregada procurou uma cadeira pra sentar. A cabeça
rodava, um desconforto enorme na sala, um calor repentino. Os olhos
doeram, as lágrimas desceram, o choro veio.
Mariana chegou e a encontrou naquele estado. Ela, pequena, vazia,
desfeita. Desmanchou-se. A patroa aconselhou, tentou consolar. Evitou
abraçar, passar as mãos nos cabelos (já estava
de saída) precisava assistir o show de Fernanda Porto no
Classic Hall.
- Isso passa foi o que conseguiu dizer. E partiu, ela e Roberto
Aguiar. Ana Júlia e os irmãos saíram um pouco
mais tarde. O programa dos jovens era outro.
No dia seguinte, logo cedo, juntou todas as roupas, preparou a
mala, pediu o dinheiro da passagem e disse adeus sem pronunciar
palavras. Só os olhos tristes falaram. Iria sentir saudades
de Apipucos? Iria sentir a ausência em sua vida dos resmungos
de Dr. Roberto ou das ordens de dona Mariana? Os meninos já
tão crescidos - fariam alguma falta...?
Será que algum dia ainda voltaria ao Recife, a Olinda? Os
namorados, a amiga Marta, as outras amigas, a praia de Boa Viagem,
o Janga, sumiriam pra sempre de sua vida?
Essas coisas todas, agora, quase não tinham importância.
Juliana pensava insistentemente apenas na mãe, que encontraria
morta, lá no interior. Esperava chegar a tempo do enterro,
despedir-se dela, chorar junto do caixão na hora do adeus.
Nem prestara muita atenção no que dissera dona Mariana.
Aceitou sem muita argumentação o não pagamento
do mês inteiro, pegou o dinheiro da passagem e os outros trocados
correspondentes aos dias trabalhados e foi apanhar o ônibus
que a levaria a estação de metrô.
Um ônibus, o metrô, outro ônibus, a chegada em
Garanhuns. Um último ônibus, e o destino final, Caetés.
No caminho entre a capital e o interior Juliana teve tempo de pensar
muitas coisas. Pensar não era fácil, notadamente nas
circunstâncias em que a mulher se encontrava. Lembrou de quando
era pequena, brincando com bonecas de pano, fabricadas pela mãe.
Esta perdera o marido cedo, um acidente ocorrido na construção,
uma notícia triste chegando logo às primeiras horas
da manhã de uma segunda-feira.
As filhas ainda bem crianças. Quatro meninas e mais o irmão,
o mais velho deles. Fizera 14 anos oito dias antes da morte do pai.
A mãe saíra da roça, fora buscar emprego em
casa de família, trabalhou muito pegando lavagem de roupa,
só muito mais tarde conseguiu uma aposentadoria de salário
mínimo pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais.
Lembrou da cidadezinha, das amigas de infância, da água
que ia buscar no barreiro, a pedido da mãe, o luto fechado
dela por toda a vida.
O primeiro namorado, a viagem à cidade grande a visão
do mar, numa clara manhã de domingo em Boa Viagem.
A festa de São João, dançando quadrilha, Geraldo
falando namoro, Fernando querendo beijar-lhe os seios na beira do
açude público. Pensava essas coisas todas, sentia
vergonha das lembranças maliciosas, pedia perdão a
Deus, voltava aos momentos vividos junto à mãe. Ela
calada, o passo curto, sem querer mais saber de homem. "Pra
toda vida, só o pai de vocês", disse um dia, enigmática.
Lembrou da passagem pela casa de dona Clara, a religiosa, defensora
da virgindade. O marido da patroa não dirigia a palavra às
empregadas, deixava à esposa esta tarefa aborrecida. Ele
muito sisudo, de poucos amigos, só alguns casais que freqüentavam
a mesma igreja. Uma vez, ouvira sem querer um diálogo entre
os dois, o patrão reclamando da 'burrice' das funcionárias,
das suas "cabeças pequenas..."
É, ele tinha razão, a cabeça de Juliana era
pequena mesmo. As idéias miúdas, a vida minúscula
- vivendo assim, na casa dos outros, sendo mais desconsiderada do
que os bichos. Esse o sentimento da moça naquele momento,
dentro do ônibus, os passageiros fazendo barulho, o choro
preso.
A vida da mãe, das irmãs que ficaram, de Francisquinha
em São Paulo, da amiga Marta, das colegas do bairro de Apipucos
e Casa Amarela, era uma coisa só. Sina de servir, de trabalhar,
de não ter as coisas, de ser enganada, de ser humilhada.
Não era de se revoltar, Juliana sempre preferia se conformar
com tudo, seguindo a filosofia da mãe de colocar as coisas
nas mãos de Deus. Um dado instante, porém, pensou
em pular do ônibus, agredir quem lhe ferira, gritar com os
patrões, protestar pelo menos uma vez contra as vidas pequenas
dos seus.
Os pensamentos pararam de lhe atormentar quando o ônibus
seguia pela estrada que a levaria a Caetés. Na metade do
caminho, passaram pela entrada do sítio Várzea Comprida.
Uma placa, grande, ostensiva, serviço da prefeitura municipal,
informava que ali, naquelas terras, tinha nascido o presidente da
República do Brasil.
Agora, o mesmo pedaço de chão, que a vira nascer,
que colocara no mundo suas irmãs e o pai - enterrado há
tantos anos - iria receber o corpo da mãe. Terra seca, agreste,
indiferente à pobreza dos homens.
Numa cova pequena sepultariam a mãe, as irmãs chorando.
Mas nos dias seguintes a vida seguiria, os patrões os mesmos,
as empregadas buscando a sorte e uma saída.
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