Garanhuns, 07 de fevereiro de 2004
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OPINIÃO
 

Um ano de Lula

Rafael Brasil


Muito se falou sobre o primeiro ano do governo Lula. Para não fugir do assunto, ou mesmo por falta de criatividade, sigo a onda geral. As realizações mais interessantes, foram, contraditoriamente, onde justamente não houve mudanças. Na área econômica e na área social, onde depois de muitas hesitações os programas anteriores foram mantidos, e as idéias supostamente novas, como o tão propalado fome zero, foram um fiasco. Em outras palavras, o bom mesmo é que Lula ficou conservador. Creio que, se vivo fosse, o saudoso Roberto Campos, que durante toda vida foi xingado pelas esquerdas por suas posições liberais, apoiaria o governo pela condução conservadora da ortodoxia liberal. O mercado, suspirou aliviado, e claro os capitalistas, não só daqui mas sobretudo os ianques aplaudiram a surpreendente direitização do governo, pelo menos na chamada macroeconomia. Os trotskistas do governo estão mesmo salvando o combalido capitalismo brasileiro. Menos mal. Mas, e o espetáculo do crescimento? Vocês acreditam mesmo em papai Noel? Ou mesmo em comadre fulôzinha? Vamos ver. Por que o espetáculo do crescimento ainda não veio?

Para que o espetáculo do crescimento realmente aconteça, faz-se necessário que a pauta das reformas constitucionais seja mantida. São coisas chatas para o grande público, mas fundamentais. E a pauta, foi competentemente lançada, não por causa de Lula nem tampouco do PT, mas Fernando Henrique. Ou seja, o país precisa, só para ficarmos nos pontos fundamentais, de uma verdadeira reforma tributária e fiscal, de uma ampla reforma trabalhista, e aprofundar a reforma do estado. Além de uma reforma no judiciário, e uma reforma política. Se rouba muito neste país. Estima-se que a conta da corrupção chegue mesmo a uns 70 bilhões. Quem consegue calcular? São 5.561 municípios, com sua respectivas câmaras de vereadores sugando o dinheiro público. Recentes pesquisas indicam que, em pelo menos 94% dos municípios a corrupção campeia, das mil e uma formas em que se apresenta.

Como bem me falou o meu amigo, companheiro de trabalho, e excelente professor de história Márcio Rosselini, a questão do Brasil resume-se fundamentalmente na luta da sociedade contra o estado. O estado, grosso modo, suga cada vez mais da sociedade, sempre oferecendo serviços públicos de péssima qualidade. O estado suga todos, burguesia e trabalhadores. Em outros termos, como investir num país que come pelo menos 40% de tributos de quem justamente produz e trabalha? Como sabemos o capital é um bicho dos mais ariscos. Aloja-se bem no lugar onde é bem acolhido. Óbvio ululante. Melhor investir na China, onde as regras são mais definidas, e os capitais circulam mais livremente, não? Se não há investimento, não há crescimento.

Claro, este ano promete ser melhor. A economia mundial dá sinais de recuperação, a começar pela gigante economia norte-americana. Também na Ásia, a China continuará crescendo. No Japão a situação será melhor, bem como na Europa ocidental. Bom para todos, bom também para nós. Mas para termos um crescimento verdadeiramente sustentado, a médio e longo prazos, teremos que fazer as reformas. Tenho dúvidas se o governo terá fôlego para realizá-las. A reforma tributária e fiscal não aconteceu. A trabalhista, parece-me, o governo jogou pras calendas gregas. Então, estaremos condenados a crescimentos pífios, infelizmente. E haja marketing, e demagogia para iludir os cada vez maiores batalhões de desempregados.

O ministério de Lula, como falei outras vezes, é grande e incompetente. Esperamos que o governo pelo menos invista mais em educação, e isto sem falar da questão da violência. É mole? Bem, vamos ver o que acontecerá. Espero que este ano seja melhor mesmo. Todos esperamos, não? Mas, há muito tempo que não acredito em papai Noel. Vocês acreditam? Devo dizer que ainda tenho uma certa inveja das pessoas que acreditam. Mas, definitivamente, nem tenho mais idade para essas coisas.