Garanhuns, 10 de janeiro de 2004
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COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


Amor de rapariga

É mês de janeiro e estou de recesso. Não vou receber R$ 9.500 mil de gratificação por trabalho extra, como os deputados, na verdade não vou ganhar nada a mais. Apenas, descansarei um pouco a mente, ficando bem melhor preparado para esperar o tal espetáculo do crescimento do Governo do ex-retirante, ex-operário e ex-socialista Lula.

Como não tenho muito o que fazer, e sem dispor dos generosos salários de juízes e desembargadores, que permitem a eles uma temporada em casa de praia, fico circulando pelas ruas, frequento botecos e me estiro numa rede comprada na década de 80.

Pra ser sincero, não sou de ler muito. Os jornais são todos muito parecidos, os livros são de difíceis compreensão, mesmo os dos escritores de Garanhuns, então fico a aprender alguma coisa com os gibis da turma da Mônica, com o Tio Patinhas, a revista Caras ou mesmo a Playboy, que uma mulherzinha pelada não faz mal a ninguém.

Quando estou de saco cheio de tanta vadiação e dessa incursões pelas letras, ligo um rádio e viajo com gosto pela programação das rádios da cidade sem flores. Primeiro sintonizo a Meridional do Reino de Deus e após ouvir uma daquelas orações depressa coloco a mão no bolso, com medo que a nota de cinco reais que me resta pra passar a semana tenha sumido.

Já em paz com Deus e minha consciência, passo pra Estação Doçura Sat. "Eu boto eu não boto, eu tiro eu não tiro, eu deixo eu não deixo..." Na rádio do vereador Givaldo Falante toca uma coisa mais ou menos assim. Eu fico pensando que inteligência rara tem o compositor dessa música. Um verdadeiro Chico Buarque; é preciso ser gênio para compor uma canção dessas. "Graças ao todo poderoso temos hoje na cidade uma rádio cultural", penso na minha rede, já inteiramente elevado e gratificado, graças a esse verdadeiro clássico da MPB. "Eu gozo eu não gozo...". Não sei, imagino que a música prega isso também.

Mas como não posso ouvir o tempo todo essas coisas intelectualizadas, mudo para o programa do Marcos Caroço, que vem logo depois do Jornal Mangando. Com aquela voz rouca Roberto Armeda só pode mesmo é tá mangando da gente. E no horário do Marcão é pau no prefeito, pau no Izaías, pau na... Epa, deixa isso pra lá que pau demais pode fazer mal e eu não quero parecer grosseiro.

Entonce agora já estou na Sete ou Oito Colinas, ouvindo o mais puro MPB. Um geme pra um lado, outra balança de outro, ninguém entende nada e pronto, acabou, começa mais uma etapa do recordação, quando até Benedito de Paula tem o direito de ressuscitar. Só não tem vez a Wanderléia, que só aparece no especial de final de ano, na Grobo, ao lado da dupla de dois Eramos e Roberto Chorão Carlos.

Meio dia, não perco a ronda, quando sou informado de que em Caruaru está se matando mais gente do que em Garanhuns. Zefa deu uma garrafada em Joaquim, um bêbado em Bom Conselho mijou no meio da rua, no município de Capoeiras deram uns tirinhos só pra espantar o frio e em Angelim o cara fez questão de anunciar no serviço de som que a mulher tava lhe botando chifre. Com uns assuntos palpitantes desses, não resta dúvida que Aluízio Alvo ainda será líder de audiência por mais de 200 anos.

Na parte da tarde, já cansado da rede, entro em casa e faço um sanduíche de pão com mortadela, na cozinha, com Viviane me provocando de lado. A desgraçada é meio ruizinha e não faz nem o suco de k-suki, que poderia me deixar mais vitaminado.

O rádio já na Monte do Sinai Everest FM, executa uma bela página musical, como diria meu amigo J. Ferreira, com sua voz sensual dos anos 60:

"Amor de rapariga não vinga não, amor de rapariga não tem coração...

Melhor do que Calypso só a imitação de Calypso, não é verdade?

A Viviane parece não concordar comigo, exige que eu mude outra vez de estação e esculhamba com os preconceituosos de plantão:

- Se amor de rapariga não vingasse não tinha tanta madame perdendo o marido pras quengas. Mulher que só pensa em panela, em lamber chão, em vestido chique, nas novelas de televisão, em encher o carrinho de importado no supermercado e em rezar sem parar nos domingos, dias santos e feriados, termina é dançando.

Insistente, ela disse conhecer uma empresária (aqui mesmo da Suíça Pernambucana) que virou crente, trocou o marido por Jesus e ele não perdeu tempo. Deixou a mulher e foi viver com Maria, uma manicure vadia que vivia aprontando com a meninada da Bela Vista.

- Certo tá o gabeira, que tem um projeto pra legalizar a vida das putas - completou Viviane, com um conhecimento da política nacional que me deixou besta.

Assustado com a fúria da minha namorada e já ouvindo de novo a Rádio Mangando, com a voz sex de Dalton Porteiro, fiquei a imaginar como seria a vida das prostitutas com a profissão legalizada.

Será que elas teriam direito a férias e 13º? Poderiam entrar de recesso duas vezes por ano, como os vereadores, deputados e integrantes do judiciário? E as putinhas, no caso de alguma sessão extraordinária, teriam condições de pleitear uma verba extra do Governo para abocanhar não R$ 9.500, mas pelo menos quinhentinho de gratificação?

Coitados dos deputados. Por causa da Viviane agora fiquei a fazer um paralelo entre a vida deles e as das mulheres da vida fácil.

É uma tremenda injustiça. Como vocês sabem a vida dos deputados é dura, com tanta reunião, tanto jeton, tanta promessa. E eles ainda têm o trabalho de quebrar a cabeça pra saber o que fazer com tanto dinheiro do trabalho extraordinário.

Mas Viviane é cabeça dura, ela não suporta essa música que eu tanto gosto e vive a martelar minha cabeça "Amor de rapariga não vinga não...

Äi, quem sabe essa banda vem pra o próximo Festival de Inverno.