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HUMOR
Raulzito
Amor de rapariga
É mês de janeiro e estou de recesso. Não vou
receber R$ 9.500 mil de gratificação por trabalho
extra, como os deputados, na verdade não vou ganhar nada
a mais. Apenas, descansarei um pouco a mente, ficando bem melhor
preparado para esperar o tal espetáculo do crescimento do
Governo do ex-retirante, ex-operário e ex-socialista Lula.
Como não tenho muito o que fazer, e sem dispor dos generosos
salários de juízes e desembargadores, que permitem
a eles uma temporada em casa de praia, fico circulando pelas ruas,
frequento botecos e me estiro numa rede comprada na década
de 80.
Pra ser sincero, não sou de ler muito. Os jornais são
todos muito parecidos, os livros são de difíceis compreensão,
mesmo os dos escritores de Garanhuns, então fico a aprender
alguma coisa com os gibis da turma da Mônica, com o Tio Patinhas,
a revista Caras ou mesmo a Playboy, que uma mulherzinha pelada não
faz mal a ninguém.
Quando estou de saco cheio de tanta vadiação e dessa
incursões pelas letras, ligo um rádio e viajo com
gosto pela programação das rádios da cidade
sem flores. Primeiro sintonizo a Meridional do Reino de Deus e após
ouvir uma daquelas orações depressa coloco a mão
no bolso, com medo que a nota de cinco reais que me resta pra passar
a semana tenha sumido.
Já em paz com Deus e minha consciência, passo pra
Estação Doçura Sat. "Eu boto eu não
boto, eu tiro eu não tiro, eu deixo eu não deixo..."
Na rádio do vereador Givaldo Falante toca uma coisa mais
ou menos assim. Eu fico pensando que inteligência rara tem
o compositor dessa música. Um verdadeiro Chico Buarque; é
preciso ser gênio para compor uma canção dessas.
"Graças ao todo poderoso temos hoje na cidade uma rádio
cultural", penso na minha rede, já inteiramente elevado
e gratificado, graças a esse verdadeiro clássico da
MPB. "Eu gozo eu não gozo...". Não sei,
imagino que a música prega isso também.
Mas como não posso ouvir o tempo todo essas coisas intelectualizadas,
mudo para o programa do Marcos Caroço, que vem logo depois
do Jornal Mangando. Com aquela voz rouca Roberto Armeda só
pode mesmo é tá mangando da gente. E no horário
do Marcão é pau no prefeito, pau no Izaías,
pau na... Epa, deixa isso pra lá que pau demais pode fazer
mal e eu não quero parecer grosseiro.
Entonce agora já estou na Sete ou Oito Colinas, ouvindo
o mais puro MPB. Um geme pra um lado, outra balança de outro,
ninguém entende nada e pronto, acabou, começa mais
uma etapa do recordação, quando até Benedito
de Paula tem o direito de ressuscitar. Só não tem
vez a Wanderléia, que só aparece no especial de final
de ano, na Grobo, ao lado da dupla de dois Eramos e Roberto Chorão
Carlos.
Meio dia, não perco a ronda, quando sou informado de que
em Caruaru está se matando mais gente do que em Garanhuns.
Zefa deu uma garrafada em Joaquim, um bêbado em Bom Conselho
mijou no meio da rua, no município de Capoeiras deram uns
tirinhos só pra espantar o frio e em Angelim o cara fez questão
de anunciar no serviço de som que a mulher tava lhe botando
chifre. Com uns assuntos palpitantes desses, não resta dúvida
que Aluízio Alvo ainda será líder de audiência
por mais de 200 anos.
Na parte da tarde, já cansado da rede, entro em casa e faço
um sanduíche de pão com mortadela, na cozinha, com
Viviane me provocando de lado. A desgraçada é meio
ruizinha e não faz nem o suco de k-suki, que poderia me deixar
mais vitaminado.
O rádio já na Monte do Sinai Everest FM, executa
uma bela página musical, como diria meu amigo J. Ferreira,
com sua voz sensual dos anos 60:
"Amor de rapariga não vinga não, amor de rapariga
não tem coração...
Melhor do que Calypso só a imitação de Calypso,
não é verdade?
A Viviane parece não concordar comigo, exige que eu mude
outra vez de estação e esculhamba com os preconceituosos
de plantão:
- Se amor de rapariga não vingasse não tinha tanta
madame perdendo o marido pras quengas. Mulher que só pensa
em panela, em lamber chão, em vestido chique, nas novelas
de televisão, em encher o carrinho de importado no supermercado
e em rezar sem parar nos domingos, dias santos e feriados, termina
é dançando.
Insistente, ela disse conhecer uma empresária (aqui mesmo
da Suíça Pernambucana) que virou crente, trocou o
marido por Jesus e ele não perdeu tempo. Deixou a mulher
e foi viver com Maria, uma manicure vadia que vivia aprontando com
a meninada da Bela Vista.
- Certo tá o gabeira, que tem um projeto pra legalizar a
vida das putas - completou Viviane, com um conhecimento da política
nacional que me deixou besta.
Assustado com a fúria da minha namorada e já ouvindo
de novo a Rádio Mangando, com a voz sex de Dalton Porteiro,
fiquei a imaginar como seria a vida das prostitutas com a profissão
legalizada.
Será que elas teriam direito a férias e 13º?
Poderiam entrar de recesso duas vezes por ano, como os vereadores,
deputados e integrantes do judiciário? E as putinhas, no
caso de alguma sessão extraordinária, teriam condições
de pleitear uma verba extra do Governo para abocanhar não
R$ 9.500, mas pelo menos quinhentinho de gratificação?
Coitados dos deputados. Por causa da Viviane agora fiquei a fazer
um paralelo entre a vida deles e as das mulheres da vida fácil.
É uma tremenda injustiça. Como vocês sabem
a vida dos deputados é dura, com tanta reunião, tanto
jeton, tanta promessa. E eles ainda têm o trabalho de quebrar
a cabeça pra saber o que fazer com tanto dinheiro do trabalho
extraordinário.
Mas Viviane é cabeça dura, ela não suporta
essa música que eu tanto gosto e vive a martelar minha cabeça
"Amor de rapariga não vinga não...
Äi, quem sabe essa banda vem pra o próximo Festival
de Inverno.
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