Garanhuns, 27 de dezembro de 2003
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CORREIO CULTURAL

Carlos Janduy


A última carta do ano

"Como viveríamos se não houvesse eterno recomeço?", diz a escritora Marília Jackelyne Nunes. E como em todo recomeço a palavra de ordem é avaliar o que fizemos e pensar no que poderemos fazer, nada melhor do que recorrer à música e à poesia, para que as reflexões sejam regadas por elas, mas contundentes como precisam ser.

Pastora do Tempo, de Ednardo, assim como A Lista, de Oswaldo Montenegro, tem melodias maravilhosas e provavelmente poucas pessoas conhecem, pois é quase impossível ouvi-las no rádio ou televisão. Ednardo então, há muito tempo apagaram injustamente da mídia. Em seguida vem Fim de Ano, da jovem escritora Marília Jackelyne, já bem conhecida por suas publicações. E para encerrar, O Tempo, de minha autoria, que eu devo estar publicando mais uma vez nesta coluna.

Um feliz 2004 a todos e que para o ano a gente se encontre nas páginas do Correio Sete Colinas.


Pastora do Tempo

Um cavaleiro do medo
Usa do ouro a razão,
Pra ofuscar os meus olhos
E confundir minha emoção.

Não sabe que a luz que me guia
É da estrela que irradia
A linda pastora do tempo
Que guarda meu povo eterno
E livre o meu pensamento.

Quem faz a história da vida,
Com ela rompeu as entranhas do chão.
Quem quer saber do que está escondido,
Procura no fundo dos olhos do povo
E dentro do seu coração.

Vão com o vento as palavras,
São como pombos correio,
Mas estão sempre atrasadas,
Pois o seu vôo é lento
E o meu pensamento é ligeiro.


A Lista

Faça uma lista de grandes amigos,
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia;
Quantos você já não encontra mais;

Faça uma lista dos sonhos que tinha,
Quantos você desistiu de sonhar;
Quantos amores jurados pra sempre;
Quantos você conseguiu preservar.

Onde você ainda se reconhece,
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora?

Quantos mistérios que você sondava?
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava,
Hoje são bobos ninguém quer saber.

Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
Era o melhor que havia em você.

Quantas canções que você não cantava,
Hoje assovia pra sobreviver.
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita que amam você.

Faça uma lista de grandes amigos,
Quem você mais via há dez anos atrás.
Quantos você ainda vê todo dia;
Quantos você já não encontra mais;

Quantos segredos que você guardava;
Hoje são bobos ninguém quer saber.
Quantas pessoas que você amava;
Hoje acredita que amam você.


Fim de Ano

Mais um ano. Um ano a mais? Um ano. Só mais um ano. Mais um ano e coisa e tal. Um ano que passa.

Tudo que aconteceu no ano se acaba com ele? Algumas ressonâncias ficam para sempre.

Zeramos a conta e começamos de novo. Zeramos? Mais um ano. Fim, começo, é indistinto. Mais um ano. Recomeçar.

Num dia, tudo é esperança. Nos outros... fim de ano. Olhar para trás, olhar para frente. Dois rostos, duas idéias. Uma história. Ou serão duas?

Distinção do novo e do velho. Mudança. Compromisso. Ser O Outro, ou um outro. Mais um ano, mas não só mais um ano. Alfa e ômega.

Como viveríamos se não houvesse eterno recomeço? O dia que acaba, a semana que acaba, o mês que acaba, o ano que acaba e tudo recomeça.

Refazenda. Ainda bem que o tempo é espiral. Mais um ano. Se é fim, se é começo, depende de nós.


O Tempo

O tempo é sempre o mesmo,
Mas a luz é diferente:
Tem o brilho verde da esperança,
O azul dos sonhos possíveis,
O branco da paz precisa.

O tempo é sempre o mesmo,
Mas a melodia é diferente:
Tem o ritmo do contentamento,
Os arpejos da busca e da realização.

O tempo é sempre o mesmo,
Mas o sentimento é diferente:
Tem a leveza do que pesa mais,
A verdade do amor inabalável,
A fé que abraça o nosso tempo,
Que é sempre o mesmo,
Mas... tão precioso!