Garanhuns, 29 de novembro de 2003
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OPINIÃO
 

A vitória no "pasto"

Fernando Mello


No dia 17 de novembro de 2002, em Salvador, o Palmeiras escreveu a página mais vergonhosa de sua vida, diante de apenas 300 seguidores. No sábado, quando entrou em campo na acanhada Garanhuns, um ano e uma semana após o rebaixamento, conseguiu fazer história.

De novo longe, num estádio pequeno a 2.495 quilômetros de sua sede. De novo sozinho, sem a fanática torcida que lotou o Parque Antarctica durante a Série B. Contra o Sport, no Gigante do Agreste, o Palmeiras enfrentou mais do que a ira dos pernambucanos, revoltados com o goleiro Marcos, que qualificou o gramado do estádio de "pasto".

O time teve que vencer os próprios nervos para encerrar antecipadamente a sacrificante jornada pela segunda divisão.

Com a vitória o time paulista comemorou o fim da solidão que o acompanhou pelos grotões do Brasil. Em Sobral (CE), Taguatinga (DF), Belém (PA), Caxias do Sul (RS) e agora em Garanhuns, o clube quatro vezes campeão brasileiro sentiu-se como um estranho no ninho.

Teve mordomias que nenhum de seus 23 concorrentes pôde ostentar. Fretou avião, escalou um pentacampeão, pagou os salários em dia.

A longa jornada, iniciada em 26 de abril com um empate em 1 a 1 na Boca do Jacaré, casa do Brasiliense, acabou no Sábado, em Garanhuns, com mais um título para a já repleta galeria de troféus palmeirense.

Em sua campanha de 33 jogos, 22 vitórias e só três reveses, o Palmeiras cruzou o Brasil. Jogou em todas as regiões do país. Percorreu 49.345 km quilômetros, quase cinco mil a mais que o Cruzeiro, o líder da Série A, um torneio mais longo e disputado em turno e returno em quase nove meses.

Para efeito de comparação, com o tour na Série B, os paulistas poderiam ter dado quase 1,4 volta completa no planeta.

A longa jornada palmeirense contou também com episódios pitorescos, dignos de segunda divisão. O goleiro Marcos, 1,93m, muitas vezes bateu a cabeça nos minúsculos vestiários oferecidos aos visitantes. Instalações essas que inviabilizaram trabalhos de aquecimento, que acabaram realizados nos túneis de acesso ao campo ou mesmo nos gramados.

Estádios como a Boca do Jacaré, onde nem o ônibus da delegação conseguiu entrar. Sem saída, os palmeirenses tiveram que descer numa rua próxima ao campo de Taguatinga. No meio da torcida adversária e, pior, sem escolta.

Após o jogo, uma vitória de 2 a 1, a diretoria palmeirense teve que agir. Distribuiu camisas oficiais para que os policiais acompanhassem a delegação até o ônibus, estacionado na praça.

Nesta sexta antes do jogo na Suíça Pernambucana, quando aterrissou em Maceió, a solidão palmeirense mais uma vez se fez presente. Mais uma vez o time viajou desfalcado de seu comandante, Mustafá Contursi. Apenas a reportagem da Folha de S.Paulo e uma TV local acompanharam o desembarque no aeroporto Zumbi dos Palmares. Nenhum torcedor recepcionou o clube, cena diferente da de um ano atrás, quando Levir Culpi ganhou uma fita do senhor do Bonfim de uma baiana.

Os jogadores, com cara de poucos amigos, não precisaram distribuir autógrafos nos 50 metros entre o portão de desembarque e o ônibus. Não havia a quem.

Só o técnico Jair Picerni, que permaneceu mais tempo no saguão, foi abordado por um funcionário do aeroporto.

Único grande paulista a ficar alijado de uma decisão de título brasileiro da primeira divisão na história do Campeonato Nacional, o Palmeiras enfim deixou a solidão e os quase 50 mil km da Série B definitivamente para trás.

Teve chance em Garanhuns, no distante, esburacado e desconhecido Gigante do Agreste.

Até o jogo na cidade pernambucana, a tabela do quadrangular final do Campeonato Brasileiro da Série B apontava o Palmeiras numa posição cômoda.

O time do técnico Jair Picerni era líder isolado com dez pontos ganhos, cinco a mais que o Botafogo, o segundo colocado.

O Sport, o adversário batido na noite do citado sábado, aparececia em terceiro lugar com quatro pontos, enquanto o Marília segurava a lanterna na final, com apenas dois empates.



Fernando Mello é da Agência Folha em Maceió, e o artigo acima, atualizado para melhor compreensão do leitor, foi publicado na UOL, pouco antes do jogo Sport e Palmeiras.