Garanhuns, 08 de novembro de 2003
  Início
  Opinião
  Política
  Cidade
  Geral
  Especial
  Cultura
  Sociedade
  Ed. Anteriores
  Expediente
 
OPINIÃO
 

Garanhuns precisa de uma Política Cultural

Ronaldo César


Há cerca de um mês uma crise tomou conta da diretoria de cultura da cidade, que levou, inclusive, a uma breve condição demissionária da responsável pela pasta, como não foram comprovadas as denúncias, o prefeito reconduziu a diretora ao seu posto. Não querendo entrar no mérito da questão, verificou-se que a discussão cultural ficou em segundo plano perante a meramente administrativa. A classe artística da cidade está precisando de uma política cultural, que passe por um estudo do nosso perfil e que fomente a produção com uma lei de incentivo viável.

Há alguns meses, uma reunião no SESC-Garanhuns reuniu os artistas para o que seria uma discussão de projetos e uma política cultural, como de fato não aconteceu, o SESC se comprometeu de viabilizar um fórum que pudesse discutir essa questão, ainda não foi possível. Como fomentador de cultura o SESC tem conseguido amplamente divulgar a nossa arte e a cultura do nosso povo, fazendo sempre a interatividade com projetos culturais de tantos outros lugares do país, portanto vejo que o SESC pode e deve ser sempre esse parceiro da divulgação cultural mas não o responsável de procurar o norte de nosso perfil, seria assim o nosso palco natural, ficando o poder público responsável de estudar, catalogar, incentivar e dar o mote para a nossa produção cultural. Toda essa responsabilidade seria "dividida" com um conselho de cultura atuante, não diminuindo o poder da diretoria de cultura, cresceriam todos a partir do momento em que a discussão cultural fosse de fato levada a sério, pois nossos artistas não podem pagar o preço durante todo o restante do ano pelo investimento feito pela prefeitura nos dez dias de Festival de Inverno.

Discutir nosso perfil também não é matéria fácil, pois ao contrário de tantas outras cidades que o filão artístico é facilmente dimensionado, nossa produção consegue atingir vários segmentos culturais: música, teatro, dança, artes plásticas, literatura, artistas de rua, produção técnica áudio-visual, etc. Quando precisamos discutir essa política é para que os vários braços da centopéia sigam a mesma cabeça, não seria um gerenciamento da criação artística, pois não se pode direcionar o improviso e a inspiração (para quem nela acredita), o que se pode é gerir o movimento, como uma associação de comerciantes, que administra o comércio mas não diz o que cada um deve comprar. Garanhuns faz sua vitrine de cidade cultural mas não oferece a seu povo e aos turistas programações com nossos artistas, sejam eventos de pequeno ou grande porte, deixando toda a responsabilidade aos músicos de barzinho de alegrar nossos finais de semana.

O Conselho de Cultura assumiria importante papel nessa área, inclusive servindo de gestor da lei de incentivo, com a independência necessária para a aprovação de projetos. Representantes do poder público, prefeitura e Câmara Legislativa, e artistas eleitos pela classe, discutiriam o que de fato seria interessante e viável para a produção, confidencialmente, evitando direcionamentos políticos e pessoais desnecessários.

Não podemos ver uma diretoria de cultura que na prática funcione apenas como uma gerência do Centro Cultural pois a força e descentralização da nossa produção atingem nossa periferia com a mesma força com que toma os palcos da cidade. O poder público, todo ele e em todos os seus segmentos deve assumir a co-responsabilidade de fazer cultura, assim como os artistas devem buscar na organização e profissionalismo o espaço político para cobrar seus direitos, porém sempre distantes, enquanto profissionais, da política partidária, o que não impede que pessoalmente cada um defenda o partido e os candidatos que achar por bem defender. É importante saber que a defesa de um amplo projeto cultural para a cidade vai além de uma discussão política e (utopicamente) deveria unir todos os que se preocupam com nosso desenvolvimento.

Todos são responsáveis de elaborar esse projeto, assim como seremos também responsáveis se ele não vier a virar realidade.