Garanhuns, 08 de novembro de 2003
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CULTURA
 

As irmãs

Roberto Almeida


O sol esquentava e o suor corria na testa. Na Serra do Tará, acidentes aconteciam, em qualquer hora do dia ou da noite - e vez por outra escolhiam uma das grutas em redor para fazer o mal. Como quando aqueles três moleques trouxeram Damião, o coitado já moído de pancada, e ainda lhe deram dezenove tiros. Depois, tentaram atear fogo no corpo, usando gasolina. Só não terminaram o serviço porque Eutrópio ia passando, no jipe velho.

Alzira morava na vila, depois da Serra, numa casinha de dois quartos, sala, cozinha e banheiro dentro de casa. Fotografias antigas na parede, o jogo de sofá comprado em seis prestações, uma pequena estante com o som e a indispensável televisão. Via novela, junto com o marido. Na hora do jornal, o deixava só, ia fazer um café ou ajeitar o guisado de boi.

Na cozinha, o pote, um filtro, geladeira Cônsul e um armário branco. Os pratos de colorex, os talheres, as panelas, as xícaras. Ficava tudo bem distribuído e guardado, as caçarolas e as assadeiras brilhando, graças ao esforço das mãos e aquela esponja de mil e uma utilidades.

Três de novembro. Alzira iria comemorar dentro em pouco 54 anos. Estava de bem com a vida, naquela casinha, junto com Manoel, que sabia cuidar dos seus. Um homem trabalhador; não bebia, dispensava o jogo, fugia dos vagabundos que infestavam a Vila e até Venturosa.

Não tiveram filhos, mas nem por isso deixavam de apreciar os dias, as horas e até os minutos. O amor que sentiam um pelo outro lhes bastava, por isso neles nunca transparecia o sentimento de ressentimento, frustração ou amargor. E naquele lugar pequeno tanta gente vivia só disso: de ciúmes, inveja, ruindade. Uns alimentando-se das desgraças dos outros.

A felicidade deles se compunha, assim, de pequenas coisas. A casa própria, limpa, arrumada, com tudo nos lugares. As árvores e flores plantadas na entrada, o cachorro Sansão, as galinhas, as quatro vaquinhas, o leite, a comida na mesa todo santo dia. Os programas na TV, a conversa com uns poucos vizinhos, o recolhimento ao leito de colchão de mola na hora certa, no máximo às dez da noite.

Alzira tinha os olhos esverdeados, a pele clara, meio avermelhada pelo sol, os cabelos caindo pelos ombros. O nariz firme, meio exagerado, a boca sensual, revelando uma dentadura bonita, um verdadeiro contraste com as poucas amigas de bocas desdentadas ou de dentes postiços.

Manoel, moreno, alto, 78 quilos, de olhos pequenos escuros, não freqüentara muito a escola. Dava duro no campo, no entanto não se embrutecera, como a maioria dos homens dali. Parecia uma pessoa da cidade, chegaram a dizer mais de uma vez.

Havia, decerto, carinho nos gestos, no olhar e nos braços daquele trabalhador. Sempre tratando a mulher com jeito calmo, a voz serena, amando-a a cada dia como da primeira vez que a viu, na feira de Venturosa. Estavam casados há 38 anos. Chegaram até a se amuar algumas vezes, por certo, mas briga mesmo, séria, era de se acreditar que nunca tiveram.

Sem filhos, porém tendo Manoel por perto, Alzira só sentia falta das duas irmãs que não via desde bem pequenas.

Gostaria de encontrá-las, saber se estavam vivas, apresentá-las ao marido. Tentara obter informações em Capoeiras, em Garanhuns, com Maroca, Maria das Neves, Severina, só que ninguém sabia de nada, pareciam ter partido pra longe.

Adauto, o pai de Alzira, fora um homem violento. Bebia, fumava e por qualquer coisinha à toa queria logo tomar satisfações. Brigou muitas vezes, no bar ou no jogo, deu surras em cabras valentes e teve o fim que procurava: um dia um moleque, que tinha levado umas tapas do velho temperamental, chegou de mansinho na bodega de Valdemar e enfiou uma faca de doze polegadas na barriga do homem. Atingiu intestino, parte do estômago, fez um estrago grande e o sangue escorreu na hora, formando um riacho. Morreu como um porco, sem tempo de receber socorro.

Muito antes, Adalgisa, mulher de Adauto, sofrera com um câncer, as filhas ainda novas. Alzira, Arlinda e Arlete, a mais velha com 14 anos, ficaram privadas da bondade e da paciência da mãe, tendo que suportar as bebedeiras e as ruindades do pai. Como ele não ligava muito para as filhas, uma tia das meninas, Adalva, levou a mais nova delas, entregando-a a uma amiga em Capoeiras.

Alzira ficou quatro anos na casa de Maria das Neves, como se fosse uma filha, convivendo com a boa senhora, o marido desta, Euclides e o único filho do casal, Eduardo Sérgio. Um dia a tia chegou, fez a sua cabeça e a pegou de volta. Tomou o rumo de Venturosa e passou a ser empregada de Adalva, sem receber salário. Já um pouco mais sabida, aos 16 anos, foi trabalhar em casa de família, fazendo os mesmos serviços, só que recebendo o suficiente pelo menos para comprar umas roupinhas.

Voltou na casa de dona Das Neves muitas vezes. Encontrava-a sempre alegre, criando os filhos, que agora eram três. Junto de Euclides, tocava uma pequena mercearia e com a venda de açúcar, café, sabão, arroz, fubá de milho e outros gêneros alimentícios arranjava o suficiente para vestir e educar os meninos.

Em casa, na Vila do Tará, Alzira recordava os dias passados em Capoeiras, a infância com as irmãs a atenção de dona Das Neves. À noite, rezava um terço, pedia pelos amigos e pelas irmãs das quais não sabia o paradeiro.

- A televisão tá mostrando que o homem pisou na lua - disse Neco, uma vez, já nesse tempo ligado nas notícias em preto e branco.

Tempos depois, diante do bendito aparelho em que via suas novelas, "O Direito de Nascer", "Redenção", "Ídolo de Pano", Manoel assistira com uns amigos o Brasil ganhar a copa.

- Somos tricampeões, Alzira. O Brasil é o maior do mundo... - afirmou o marido, numa frase carregada de significados que ela não alcançava.

Manoel gostava de novidades e mesmo morando naquelas brenhas sempre que podia pegava um jornal. Quando ia a Garanhuns ou Arcoverde, no sábado, chegava a comprar a revista O Cruzeiro.

E falava em Juscelino, depois Jânio, Jango, um desfilar de nomes que não acabava mais. Um dia, triste. Manoel desabafou:

- Alzira, prenderam Miguel Arraes. O presidente fugiu e o exército tomou conta do Brasil. A vida da gente vai ficar pior.

A verdade é que naquele recanto em que viviam não dava pra sentir mudança nenhuma. Neco, porém, ficou mais cauteloso, desencantou-se com a política, passou a evitar polêmicas quando ia conversar com os conhecidos em Venturosa.

O trabalho, a casa, a mulher receberam ainda maiores cuidados. Diversão, só quase o futebol no rádio ou na TV, até aquela explosão de alegria, na década de 70.

- O Brasil é o maior do mundo - diria.

Alzira e Manoel, à noite, sozinhos, esqueciam das canseiras da vida, dos programas da televisão e do futebol. Na cama, antes que o sono chegasse, conversavam amenidades, trocavam impressões sobre os vizinhos, faziam comentários a respeito desse ou daquele fato.

Mesmo agora, na meia idade, tão logo apagavam a luz Neco passava suas mãos firmes pelo corpo de Alzira, acariciava seus seios, seu ventre. Beijava sua fronte, seu corpo e experimentava uma sensação única, maravilhosa. Ela quieta, muda, mas compartilhando com ele aquele amor. Um amor que não gerara filhos, mas nem por isso deixava de ser pleno e verdadeiro.

Uma manhã, antes das 11 horas, chegou na casinha da vila uma jovem estudante, de cabelos negros e olhos grandes. Procurava dona Alzira e vinha a mando de Maria das Neves.

- Pode entrar, pode entrar foi logo convidando o Manoel, que depressa chamou Alzira, esta no quintal, entretida com uma tina de roupa.

Ela veio, deu bom dia, a moça se apresentou e deu o recado:

- Dona Maria mandou avisar que localizou suas irmãs, já esteve até na casa delas e quer lhe passar o endereço.

Muitas horas depois que a estudante foi embora Alzira ainda parecia em transe. Seria possível, que depois de tanto tempo, 52 anos, fosse reencontrar as irmãs? Era brincadeira, era sonho, ilusão... Ela sabia, contudo, que Maria das Neves não seria capaz de brincar com um assunto daquela natureza, mandar um recado falso.

- Fique calma, mulher. Amanhã você vai na casa de dona Das Neves, resolve tudo - aconselhou Neco, preocupado com a inquietação da esposa.

Mesmo evitando o café, à noite, e recorrendo a um chá de camomila, Alzira não conseguiu dormir quase nada. Cinco horas da manhã já estava de pé, tomou o caminho da estrada e pegou a primeira lotação que passou no destino de Caetés.

Sete horas já estava na casa de Maria das Neves, em Capoeiras.
Foi convidada à mesa, ansiosa, e a velha amiga confirmou tudo: Arlinda e Arlete estavam morando em Angelim, numa meiágua de porta e janela. "Ora meu Deus! Tão perto"!

Maria de Aloísio, uma amiga comum das duas, descobrira as irmãs por acaso, numa visita a uma nora na cidade vizinha a Garanhuns.

- Será que na minha terra também tá chovendo - ouvira Maria de Aloísio, na parada de ônibus, já esperando a condução que a levaria de volta a Capoeiras.

- E onde fica a sua terra? - perguntara Maria, curiosa sem saber porque, uma vez que nunca tinha nem ao menos visto aquela mulher.
- Ah! Eu sou de Capoeiras - confessara, aproveitando para contar um pouco de sua história, e como fora parar ali, naquele recanto escondido, longe da família e dos amigos de infância.

Ao receber a informação, Maria das Neves foi pessoalmente a Angelim e confirmou tudo: eram mesmo Arlinda e Arlete, irmãs de Alzira. Já estavam um tanto velhas, os cabelos brancos, cada uma delas com um vestido estampado daqueles usados pelo povo da roça na época da festa de São José.

Conversaram muito, as irmãs tiveram notícias de Alzira e tiveram a certeza que dentro de poucos dias quem sabe horas - veriam a caçula do casal Adauto e Adalgisa.

Alzira Agradeceu a Das Neves a notícia, o interesse e não perdeu tempo: alugou um carro pra Angelim e chegou na porta da casa indicada uma hora e quinze minutos depois.

Quando avistou Arlinda, de cabelos brancos, olhos cansados e tristes, não resistiu: As lágrimas rolaram como nos programas de TV, uma mistura de dor e felicidade que ela não sabia explicar. A mesma emoção se repetiu ao apertar nos braços a mana Arlete, que também chorava feito criança.

O motorista da caravan, que nem conhecia as três senhoras, discretamente passou o lenço nos olhos, sensibilizado com a história e o reencontro das irmãs.

Uma vida se passara, muitos partiram naquelas cinco décadas de separação de Alzira, Arlete e Arlinda. Quantas crianças vieram ao mundo? Quantas invenções o homem fez?

Novelas, muitas copas do mundo, telefone celular, automóveis, avião e avanços na medicina.

Na Vila do Tará, Arlinda permeou sua felicidade com tantas coisas. Muitas das informações que chegavam - através do marido, pelo rádio ou pela televisão ela nem entendia.

De tudo que vivera, no entanto, nada se comparava aquele momento. O abraço em Arlinda e Arlete, ouvir a voz das duas irmãs, poder falar do passado e dizer como estava o presente...

- Deus, como se pode ser tão feliz...! pensou, enquanto vivia aquele instante singular.

O motorista do carro foi dispensado, após receber o pagamento e tomou o caminho de Garanhuns, observando na estrada os carros-de-boi, o mato seco, os matutos passando com o caçoá na cabeça. Já se aproximava o sol do meio-dia.

As duas irmãs preparavam o almoço de recepção a mana Alzira. Essa ainda estava tonta, ébria, sem palavras.

- Vocês precisam conhecer o Manoel - conseguiu pronunciar, com a lembrança do marido se misturando inesperadamentee as fisionomias de Arlinda e Arlete.