Garanhuns, 25 de outubro de 2003
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COLUNAS
 

NOTAS DE BRASÍLIA

Alexandre Marinho


Prezados Leitores,

Na coluna desta semana, resolvemos fazer uma adaptação de parte do texto do Prof. Augusto de Franco, que foi Secretário Executivo do Programa Comunidade Solidária, com o qual, vez por outra, temos tido o prazer de receber algumas aulas sobre desenvolvimento local, tema este que, para os que tem acompanhado nossa coluna, sabe que é um dos nossos assuntos prediletos.

Na verdade, dentro de mais alguns dias ou semanas, estaremos implantando em Garanhuns, mais uma ONG, que, juntamente com a Casa Pro-Cidania, (da qual fazemos parte e que está sendo tão bem coordenada pela Dra. Ielma Lucena), desenvolverá um interessante trabalho de desenvolvimento em benefício não somente do nosso município, mas de todo Agreste Meridional pernambucano.

Trata-se de assunto que, por enfocar o combate à pobreza e a geração de emprego e renda, certamente será de interesse para todos nós.

Experimente pensar o seguinte. Se em cada município do Brasil onde está ocorrendo um processo de Desenvolvimento Local, os governos e os líderes da sociedade local estivessem realmente capacitados para exercer uma gestão empreendedora dos assuntos públicos e dos negócios privados. E se nessas localidades mencionadas acima, existisse um grupo de pessoas capaz de tomar iniciativas, assumir responsabilidades e alavancar recursos da própria sociedade para, em parceria com o Estado, realizar projetos inovadores de desenvolvimento social.

Pensou? Agora pense se todas essas pessoas estivessem compondo uma grande rede, participativa e colaborativa, constituindo comunidades conectadas entre si (em breve pela Internet, verdadeiras telecomunidades da nova era da informação e do conhecimento) formando uma grande Sociedade do Desenvolvimento com capilaridade em todo o território nacional.

É bom que saibamos o seguinte: já existe hoje, no Brasil, um contingente de centenas de organizações, capacitadas, dispostas e preparadas para se deslocar para os mais distantes rincões, para apoiar e incentivar às populações locais a realizar um diagnóstico de sua situação, fazer um levantamento de suas potencialidades e vocações e implementar um plano de desenvolvimento integrado e sustentável.

Uma vez descobertas as nossa potencialidades e vocações, seria a hora de implementarmos a nossa agenda de prioridades. Parte dessa agenda é negociada com o Governo Federal, com o Governo Estadual, com a Prefeitura e com outros parceiros não-governamentais. Uma outra parte da agenda é composta por ações que devem ser realizadas pela própria comunidade local. Esta parte da agenda tem sido apelidada de "agenda local do local". A chamada "agenda local do local" é a comunidade que faz.

Se a comunidade não conseguir realizar as ações prioritárias que constam da "agenda local do local", não poderá haver desenvolvimento local. Pois não pode haver desenvolvimento local sem protagonismo local. A "energia" desencadeada pela mobilização das pessoas da comunidade para realizar colaborativamente ações conjuntas é o combustível do desenvolvimento local. Se não tivermos uma quantidade suficiente dessa "energia", nada ou quase nada pode ser feito. Essa "energia" é que faz a diferença! Ela explica porque algumas localidades conseguem dar um salto no seu processo de desenvolvimento e, outras, não.

Uma outra maneira de dizer a mesma coisa é a seguinte. O "capital" gerado pela livre organização das pessoas da comunidade em torno de valores compartilhados e objetivos comuns constitui o recurso fundamental para o desenvolvimento. Esse "capital" é chamado de capital social. Se uma comunidade gera e acumula uma dose suficiente de capital social então ela está pronta para se desenvolver.

Ocorre que na maior parte dos casos, a comunidade acha que não está preparada para realizar, por si mesma, as ações dessa "agenda local". Na maioria das localidades as pessoas dizem que não tem recursos para realizar as ações, reclamam da falta de apoio, da desunião do povo e até da falta dos conhecimentos técnicos necessários para efetivar as ações propostas.

Pois bem. É aí que entra o programa que, durante o Governo Fernando Henrique era chamado de "Comunidade Que Faz", e que por não ter tido continuidade neste atual Governo caberá a nós, que acreditamos nesta forma de desenvolvimento, elaborarmos um programa local, adequado às características de nossa cidade e região e que pode, muito bem ser levado à frente, dependendo da rede de contatos e de apoios que sejamos capaz de formar.

Será nosso papel formar os chamados agentes de desenvolvimento, pessoas que serão capazes de facilitar o processo pelo qual a comunidade local pode aprender a fazer as coisas que ela tem que fazer. Mas ele não vai fazer isso dando um curso tradicional, em sala de aula. Ele vai usar a pedagogia do aprender-fazendo.

Ele vai ensinar a comunidade local a fazer certas coisas ao mesmo tempo em que vai aprender com a comunidade local as diversas maneiras criativas como as mesmas coisas podem ser feitas de modos diferentes.

Porque cada comunidade tem o seu próprio modo de fazer as coisas, e não adianta vir com uma receita pronta. O que deu certo em um lugar não dará certo, necessariamente, em outro lugar. Cada processo de desenvolvimento é diferente, é único. E o que chamamos de desenvolvimento é exatamente isso: cada lugar fazendo as suas coisas do seu jeito e ao seu modo, afirmando então uma nova identidade no mundo.

Então esse agente de desenvolvimento, que juntamente com o SEBRAE e outras entidades, estaremos formando, vai ensinar-aprendendo e aprender-ensinando. E a comunidade local também será responsável pela sua formação na medida que aprenderá-fazendo junto com ele.

É muito simples esse processo e a gente não deve complicá-lo com nossas idéias preconcebidas de que somente metodologias muito sofisticadas podem dar resultados.

Toda comunidade, quando quer, sabe fazer direitinho as coisas que realmente precisa fazer. Toda comunidade sabe organizar suas festas, suas quermesses, seus torneios esportivos, suas campanhas. É necessário apenas que haja uma vontade coletiva de fazer. Então o papel do IDAM, que logo vocês saberão do que se trata, e da Casa Pro-Cidadania será o de despertar essa vontade coletiva no pessoal da localidade.

Tais experiências certamente não serão pioneiras, já que em inúmeras localidades do Brasil elas já foram implantadas. Aliás, em cidades vizinhas à nossa, o próprio SEBRAE/Garanhuns já coordenou alguns programas nesse sentido, fato positivo e que nos permitirá trabalharmos em parceria.

Traremos de novo apenas o seguinte: Primeiramente, a perenidade que daremos às iniciativas de desenvolvimento para a região; segundo, não partiremos do zero. Já iniciaremos com uma rede de apoios governamental e extra-governamental que nos permitirá atenuar a parte mais chata que são aquelas infindáveis reuniões e promessas, que geralmente antecedem à implantação dos programas voltados para o cooperativismo, a parceria, etc.

Enfim, logo estaremos trazendo novas e boas novidades para os amigos e amigas da querida terrinha natal.

Até a próxima.