Garanhuns, 25 de outubro de 2003
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CULTURA
 

Elis Regina está viva

Durante muito tempo, principalmente nos anos 70 e início dos anos 80, discutiu-se no Brasil quem era a maior cantora do país. Para uns era Gal Costa, com o seu fio de voz, a sua doçura e o seu repertório coerente. Outros, contudo, consideravam Elis Regina a maior, pelas interpretações arrojadas e por sua crescente personalidade musical.

Elis, na verdade, que foi pura bossa nova no começo da carreira, tornou-se bastante eclética na década de 70 e lançou discos memoráveis, como "Falso Brilhante", no qual consagrou Belchior com uma interpretação inesquecível de "Como Nossos Pais". Viria também a popularizar mais o talentoso Renato Texeira, com a gravação de "Romaria", que depois viraria uma espécie de hino da música caipira autêntica.

A baixinha teimosa, no entanto, entristeceu os milhares de fãs quando morreu de uma overdose em meados da década de 80. Elis Regina certamente não era uma viciada, uma pessoa totalmente apegada às drogas, mas acontece que errou na dose e nos privou do seu canto privilegiado.

Lembro bastante de uma das canções mais belas gravadas pela grande artista: "Ah, como tenho me enganado, como tenho matado, nas evidências do amor... E a sombra leve da morte, passando sempre por perto". A última frase era mais ou menos assim, como um presságio, e Elis morreu poucos anos depois de ter gravado essa música, de um jeito que só ela sabia fazer.

Passados tantos anos, tendo surgido tantas cantoras de qualidade na MPB, não apareceu uma sequer que tivesse o perfil de Elis Regina. Zizi Possi, Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, Vanessa da Mata, Fernanda Porto... Todas são ótimas, mas sem dúvida nenhuma estão muito mais próximas, no trabalho que fazem, da linha de Gal Costa.

Como é caprichoso o destino, contudo, por mais céticos que possamos ser em relação a ele. Eis que já agora, em pleno século XXI, quase 20 anos depois da morte da insuperável cantora, de repente percebemos que ela de determinada maneira está viva, deixou uma semente que germinou e inevitalmente transformou-se na própria Elis.

Quem sabe, mais uma vez, repetiu-se a verdade bíblica de que "Deus escreve certo por linhas tortas"? Bom, essa é uma discussão para teólogos, o que decididamente não é o nosso objeto.

O que queremos aqui, é dizer como estamos impressionados com o canto de Maria Rita, filha de Elis Regina e cantora que lembra a mãe não apenas no porte físico, no sorriso aberto e nos olhos apertados. A voz, as músicas que canta, a interpretação personalizada, é como se tivéssemos novamente a artista capixaba.

Ouvindo Maria Rita, principalmente quando canta uma composição de Milton Nascimento, tão presente na vida artística da mãe, é impossível deixar de pensar assim: "Puxa, Elis Regina está viva".

A nova cantora tinha apenas quatro anos de idade quando a mãe morreu. Não conviveu quase nada com a artista, portanto, e tanta coisa parecida (às vezes igual) só podia mesmo ser por determinação genética.

O disco lançado há pouco tempo é só o primeiro de Maria Rita, porém já saiu como o produto de uma artista madura, que sabe os caminhos a trilhar, que é Elis Regina viva, mas também é ela mesma, capaz de cativar o ouvinte não porque é filha e sim porque é uma excelente cantora, uma excelente intérprete, com talento suficiente para ocupar um lugar de destaque nessa MPB de tantas vozes bonitas.

O CD de Maria Rita começa com expressiva "A Festa", de Milton Nascimento; surpreende com um interpretação meio bossa nova de "Agora só falta você", de Rita Lee e prossegue bossa nova pura em "Menininha do Porto", assinada por Paulo Tapajós. Depois vem "Não Vale a Pena", de Jean e Paulo Garfunkel, no melhor estilo de interpretação da velha Elis. Se você ouvir de olhos fechados ficará na dúvida se está cantando a mãe ou a filha.

"Dos Gardenias", música e letra de Isolina Carrillo tem tempero de bolero, dos antigos, com voz de cantora atinada com os novos tempos. Aí seguem duas composições do ainda não muito conhecido Marcelo Camelo, com destaque para "Santa Chuva", outra canção que nos faz lembrar muito a intérprete magistral de "Travessia".

Outra música linda é "Menina da Lua" (Renato Mota), que vem tocando bem em Garanhuns pelo menos na FM Sete Colinas, que já chegou a dedicar um programa inteiro a Maria Rita. O bom mineiro Milton Nascimento volta a assinar a nona faixa "Encontro e Despedidas", que, se não estou enganado já foi gravada pela própria Elis.

"Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan, já gravada pelas duas, vem logo após a música de Milton e embora não acrescente nada às interpretações anteriores também não compromete em nada o o trabalho do disco. O pernambucano Lenine comparece com "Lavadeira do Rio" e Marcelo Camelo assina ainda uma outra faixa, "Veja Meu Bem", quando a cantora quase conversa, de modo intimista, com seus privilegiados ouvintes, falando de amor.

O CD encerra com "Cupido", composição de Cláudio Lins. São 13 músicas de bom gosto, com letras inteligentes, belos arranjos e que nos chegam na voz de uma cantora que veio em boa hora. Para enriquecer ainda mais a Música Popular Brasileira e nos fazer escrever este artigo dando esta boa notícia: a de que "Elis Regina está viva". (R.A.).