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NOTAS DE BRASÍLIA
Alexandre Marinho
Inicialmente quero relembrar aos caros leitores e leitoras desta
coluna, que, desde quando a escrevi pela primeira vez, avisei a
todos que teríamos aqui uma espécie de sopa-de-resto-de-feira
literária, ou seja, um espaço onde seria falado de
tudo, dependendo das circunstâncias e do humor do redator.
Hoje resolvi contar pra vocês um pouco das atividades que
desenvolvo aqui em Brasília, como forma de mostrar mais ou
menos como funciona o Congresso Nacional, no qual trabalho.
Como todos sabem, dos três poderes da nossa República
Federativa, o Congresso Nacional é a instituição
que personifica o Poder Legislativo Federal, sendo composto pela
Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, sendo atualmente
composto por 513 deputados e 81 senadores.
Aqui eu sou um modesto auxiliar de um desses 513 deputados, que
por sinal é de nosso Estado. Trata-se do Deputado Federal
José Chaves. Independente de ser o meu chefe, é boa
pessoa, bom caráter, homem sério, que tem desempenhado
com zelo as suas funções no Parlamento.
Como chefe de gabinete, a gente termina se tornando uma espécie
de faz-de-tudo do deputado: desde redigir um simples ofício
ou um pronunciamento, até representá-lo em alguma
solenidade ou auxiliá-lo numa comissão, tudo está
dentro do nosso balaio de tarefas.
No exercício de suas atribuições constitucionais,
de produzir leis e fiscalizar os demais poderes, geralmente, os
deputados se especializam em algumas poucas áreas temáticas
de seu interesse, sobre as quais eles têm um maior domínio
intelectual.
Nesse rastro, surge a necessidade de nós, assessores, também
nos especializarmos um pouco nas áreas de interesse do chefe.
No meu caso, o Dep. José Chaves integra a Comissão
Mista de Orçamento, a CPI do Banestado e é relator
da Reforma Trabalhista, motivo pelo qual eu tenho que estudar tais
assuntos para melhor auxiliá-lo.
A gente filtra a enorme quantidade de informações
que surge na imprensa e em Plenário, passando para o parlamentar
apenas uma síntese dos assuntos, já que quase sempre
lhes sobram pouco tempo para leitura. Cabe-nos também a tarefa
de efetuar estudos sobre determinado projeto de lei, acompanhar
a tramitação das proposições no Congresso,
etc.
O melhor daqui é que o Congresso é uma excelente
escola, nos dando a oportunidade de aprender de tudo um pouco.
Tenho procurado me especializar em Orçamento da União
e entender bem o Regimento Interno da Câmara. Sem essas duas
ferramentas fica difícil progredir na carreira, dentro do
Congresso. Felizmente, são assuntos que gosto bastante.
Tá certo que a gente trabalha com uma equipe de auxiliares,
mas é essencial termos um certo domínio sobre os principais
assuntos para não ficarmos "voando".
Além do mais, a gente que é de região pobre
precisa entender onde estão os recursos federais para tentarmos
levá-los (num bom sentido) para os nossos municípios.
Como se sabe, o Orçamento da União é uma lei,
de iniciativa do Presidente da República que (anualmente)
estima as receitas e fixa despesas para o ano seguinte ao de sua
aprovação. Agora mesmo os parlamentares estão
discutindo o Orçamento da União para 2004. Ou seja,
todas as obras e ações federais, como a recuperação
de estradas, construção de barragens, bolsa-escola,
etc. precisam ser inseridas previamente neste orçamento,
para que os recursos federais efetivamente cheguem até os
municípios.
Ainda que, por exemplo, o Presidente Lula queira construir um grande
açude em Caetés, isto só será possível
se, previamente, tal obra for inserida no orçamento da união
(tecnicamente se diz apresentação de emenda ou de
crédito orçamentário ao Orçamento da
União).
Estou dizendo isso porque, agora mesmo, está na hora de
sensibilizarmos e de pressionarmos os deputados e senadores do nosso
Estado (especialmente os que tiveram votos em nossa cidade) a fim
de que eles, por meio das emendas individuais a que têm direito
(R$ 2 milhões por parlamentar), coloquem verba no orçamento
da união para a realização de obras em nosso
município.
Infelizmente, em se tratando de orçamento a coisa ainda
funciona na base do "quem não chora não mama".
Tá certo que, passada esta etapa de elaboração
do orçamento, no ano seguinte ainda tem uma luta pesada pra
liberar politicamente os recursos. Mas, se não forem colocadas
emendas destinadas a Garanhuns, aí é que a verba não
vai de jeito nenhum.
Eu tenho recebido aqui no Gabinete dezenas e dezenas de solicitações
de Prefeituras, de Câmaras de Vereadores e de ONG's (entidades
filantrópicas) solicitando do deputado a inclusão
de emendas ao Orçamento da União.
E aqui vai uma dica: Nem sempre é fácil conseguir
300, 400 mil ou um milhão de reais para uma determinada obra.
Mas, muitas vezes se consegue, 30, 50 ou 70 mil reais para instituições
que merecem e precisam, como é o caso da APAE, do Abrigo
São Vicente de Paula e outras que sejam consideradas de utilidade
pública federal e estejam em dia com suas obrigações.
Apenas para se ter uma idéia, o Instituto de Aleitamento
Materno Infantil de Pernambuco, o famoso IMIP, que tem prestado
excelentes serviços ao Estado, com este trabalho de "formiguinha",
conseguiu inserir 3 milhões e quinhentos mil reais no orçamento
de 2003.
No mais, o deputado José Chaves tem procurado orientar a
bancada de Pernambuco no sentido de elaborar tais emendas de comum
acordo com as prioridades do Governo Federal, porque isso aumentaria
em muito as chances de liberação dos recursos.
Um estudo que fizemos recentemente mostra que, historicamente,
o percentual de liberação, em comparação
com o que é inserido no orçamento tem sido inferior
a 30%, (para cada R$ 100,00 inseridos, menos de R$ 30,00 tem sido
liberados), em grande parte por conta deste descompasso entre as
prioridades federais e as estaduais ou municipais.
São por questões como estas que eu acho que um município
do porte de Garanhuns precisaria ter um captador de recursos. Ou
seja, um funcionário pago regularmente pelo município,
especializado em captação de recursos. Uma pessoa
cuja única atribuição seja identificar fontes
de recursos orçamentários, extra-orçamentários,
convênios com organismos internacionais, etc. a fim de trazê-los
para o município.
Infelizmente, como em nossa terrinha só são ouvidos
os "santos" de fora, taí o nosso município
deixando de conquistar recursos e de firmar parcerias com uma série
de entidades financeiras sedentas pelo aparecimento de bons projetos.
E enquanto isso, Caruaru, Petrolina, Santa Cruz, Toritama...
Ainda tenho esperança que uma dia esta minha ladainha seja
ouvida.
Até a próxima!
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