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NOTAS DE BRASÍLIA
Alexandre Marinho
Carta Aberta ao Padre Carlos André
Prezado Padre Carlos,
Inicialmente, por conta da distância em que me encontro,
quero transmitir-lhe um forte e fraternal abraço, juntando-me
senão fisicamente, mas espiritualmente à enorme massa
de fiéis que se reuniram por ocasião de seu retorno
à nossa querida Garanhuns.
Fico feliz por vê-lo novamente junto ao nosso convívio,
ajudando-nos no fortalecimento de nossa fé cristã
e na ampliação de nossos horizontes.
O senhor é um daqueles fenômenos que, vez por outra,
surge no seio das comunidades tornando-as mais alegres, mais participativas
e mais conscientes da necessidade de construção de
um mundo mais solidário e mais humano.
E, me perdoe se eu estiver errado, mas, sabe o que é que
lhe transformou neste fenômeno? Acho que existem duas razões:
primeiro porque o senhor é um líder nato. É
um indivíduo que já nasceu com o dom de entender as
pessoas, de guiá-las na construção de seus
sonhos. Segundo, porque na nossa cidade, já faz mais de vinte
anos que não temos uma liderança com este viés
popular, somado a uma visão ampla da sociedade.
O saudoso Zé Cardoso não conseguia penetrar na classe
média. O Dr. Bartolomeu, que recebeu de mão beijada
a oportunidade histórica de ser a nossa grande liderança,
se estreitou em seu próprio mundo, a ponto de devolver o
poder, também de mão beijada, para o Prefeito conservador
que hoje nos governa. Este último, um homem dotado de boa
inteligência, mas que, infelizmente, está sendo derrotado
pelos seus próprios defeitos. Politicamente, é um
desagregador nato.
O Deputado Izaías Régis, apesar de sua enorme vontade
de fazer as coisas acontecerem o que é positivo por conta
de seus altos e baixos e de sua impulsividade, ainda precisa de
um pouco mais de amadurecimento para se transformar numa grande
liderança.
Então, o senhor está ocupando este enorme vácuo
que existe na nossa comunidade.
Sem contar que, de quebra, o senhor possui outras características
que encontramos nos grandes líderes: a simplicidade, a humildade,
o equilíbrio, o dom da oratória e um senso de justiça,
que, (tenho certeza), é o que faz seu coração
bater tão forte pela política. Aliás, pode
até não ser pela política em si, mas é
que a política e o senhor já percebeu é talvez
o caminho mais adequado para operarmos as grandes transformações
que a sociedade precisa.
Certamente, as quatro paredes da Igreja de São Sebastião
ficaram apertadas para suportar todo este desejo de transformação
que o senhor tem acumulado ao longo dos anos.
Mas, apesar desse meu conceito de liderança, Padre Carlos,
não pense que acredito mais (politicamente) em salvadores
da pátria ou em figuras messiânicas que possam, por
si só, trazer tudo aquilo que precisamos. Muito pelo contrário,
acredito que somente a conduta democrática, participativa
e solidária de toda a comunidade é que pode transformá-la
e acabar, ou pelo menos minimizar, as injustiças sociais.
Longe de mim acreditar na forma paternalista de fazer política.
Essa estória de pai dos pobres, pai dos humildes, etc., faz
parte de uma época que já passou.
Agora, sempre existiu e sempre vai existir a necessidade de pessoas
com sensibilidade social, com senso democrático e com experiência
técnica e política para ajudar na condução
e no desenvolvimento dos grupos sociais.
Aliás, Padre Carlos, acho que o senhor se recorda das duas
únicas vezes em que conversamos. A primeira vez, por ocasião
da Festa de São Sebastião, quando o senhor brincou
comigo me chamando de profeta. A segunda, tive a honra de receber
sua ligação, lá de Roma, oportunidade em que
tecemos alguns comentários sobre os destinos de Garanhuns
e falamos um pouco sobre os mestrados que fazíamos. O Senhor,
me parece que fazia mestrado em Teologia, e eu, em Políticas
Sociais.
Concordamos com o fato de que a nossa cidade precisa urgentemente
de um projeto de desenvolvimento econômico e social. E concordamos
também com o fato de que Garanhuns possui um povo muito especial
e um potencial de crescimento invejável, só faltando
uma estratégia de crescimento - a ser definida democraticamente
pela população - e de algumas lideranças capazes
de despertar, com equilíbrio e determinação,
todas as vocações latentes carregadas há tantos
anos por essa gente.
Permita-me revelar: só pelo "ouvir falar" e pela
única vez que nos encontramos eu percebi que a próxima
sucessão municipal passaria pelas suas mãos. Inclusive,
se algum dom de profeta eu já tive, não esqueça
de que naquela oportunidade eu cheguei a afirmar que algo me dizia
que, algum dia, eu ainda coordenaria uma campanha sua. Se lembra?
Por isso fiquei triste quando soube que o senhor teria desistido
de colocar seu nome à disposição para uma futura
postulação à Prefeitura.
Logo num momento como este, em que precisamos tanto de sua ajuda!
Mas, eu imagino as pressões e as decepções
que o senhor deve ter sentido... eu sei como funciona a política
e sei também um pouco dos imperativos que a batina lhe impõe.
Pelo menos, me conforta o fato de que outras oportunidades virão,
e de que mesmo não participando diretamente, a sua voz e
os seus conselhos poderão ser ouvidos por muita gente.
Mas... continuo achando uma coisa. Existem duas pessoas nas quais
eu acredito que, neste momento, seriam as ideais para comandar a
partir do próximo governo os nossos destinos: uma delas é
o senhor. E a outra é um cidadão chamado Márcio
Quirino. Acho vocês dois, me permita, (cada um em sua área),
muito parecidos.
Pessoas corretas, com passado limpo, equilibrados, competentes,
carismáticos, enfim, eu acho que se realmente o senhor não
aceitar a disputa pela Prefeitura Márcio seria também
uma excelente opção.
A única reclamação que já ouvi a respeito
do Márcio, e que precisamos considerar, é o fato de
ele ter trabalhado na CELPE, como chefe, durante alguns governos
conservadores do passado.
Mas acho que isso é facilmente resolvível, até
porque é também por conta desse passado que ele carrega
uma enorme experiência com a máquina pública.
Se ele se cercar e for apoiado por todo este conjunto de forças
que estava prestes a apoiar o senhor, certamente qualquer viés
conservador que ele venha a ter, poderá voar pelo ares.
Acho que o senhor, juntamente com as pessoas do PT, do PV, do PL,
do PDT e de outros partidos que se disponham a integrar uma frente
progressista podem muito bem "chamá-lo na grande"
e definir um programa de desenvolvimento a ser seguido.
Os compromissos seriam assumidos previamente e publicamente.
Isto tiraria, em grande parte, qualquer possibilidade de Márcio
estabelecer um novo governo conservador.
Pois bem, Padre Carlos, talvez esta carta seja uma continuação
daquela conversa que tivemos quando senhor estava em Roma e eu aqui,
no meu auto-exílio, em Brasília.
Que o nosso Senhor ainda nos dê outras oportunidades de continuarmos
conversando e, mais do que isto, que Ele continue a guiar os nossos
caminhos para que possamos continuar contribuindo para o bem-estar
de nossa comunidade.
Seja bem-vindo à sua Casa, Padre Carlos. E que mesmo de
longe, o senhor me conceda a sua benção.
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