Garanhuns, 27 de setembro de 2003
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NOTAS DE BRASÍLIA

Alexandre Marinho


Carta Aberta ao Padre Carlos André

Prezado Padre Carlos,

Inicialmente, por conta da distância em que me encontro, quero transmitir-lhe um forte e fraternal abraço, juntando-me senão fisicamente, mas espiritualmente à enorme massa de fiéis que se reuniram por ocasião de seu retorno à nossa querida Garanhuns.

Fico feliz por vê-lo novamente junto ao nosso convívio, ajudando-nos no fortalecimento de nossa fé cristã e na ampliação de nossos horizontes.

O senhor é um daqueles fenômenos que, vez por outra, surge no seio das comunidades tornando-as mais alegres, mais participativas e mais conscientes da necessidade de construção de um mundo mais solidário e mais humano.

E, me perdoe se eu estiver errado, mas, sabe o que é que lhe transformou neste fenômeno? Acho que existem duas razões: primeiro porque o senhor é um líder nato. É um indivíduo que já nasceu com o dom de entender as pessoas, de guiá-las na construção de seus sonhos. Segundo, porque na nossa cidade, já faz mais de vinte anos que não temos uma liderança com este viés popular, somado a uma visão ampla da sociedade.

O saudoso Zé Cardoso não conseguia penetrar na classe média. O Dr. Bartolomeu, que recebeu de mão beijada a oportunidade histórica de ser a nossa grande liderança, se estreitou em seu próprio mundo, a ponto de devolver o poder, também de mão beijada, para o Prefeito conservador que hoje nos governa. Este último, um homem dotado de boa inteligência, mas que, infelizmente, está sendo derrotado pelos seus próprios defeitos. Politicamente, é um desagregador nato.

O Deputado Izaías Régis, apesar de sua enorme vontade de fazer as coisas acontecerem o que é positivo por conta de seus altos e baixos e de sua impulsividade, ainda precisa de um pouco mais de amadurecimento para se transformar numa grande liderança.

Então, o senhor está ocupando este enorme vácuo que existe na nossa comunidade.

Sem contar que, de quebra, o senhor possui outras características que encontramos nos grandes líderes: a simplicidade, a humildade, o equilíbrio, o dom da oratória e um senso de justiça, que, (tenho certeza), é o que faz seu coração bater tão forte pela política. Aliás, pode até não ser pela política em si, mas é que a política e o senhor já percebeu é talvez o caminho mais adequado para operarmos as grandes transformações que a sociedade precisa.

Certamente, as quatro paredes da Igreja de São Sebastião ficaram apertadas para suportar todo este desejo de transformação que o senhor tem acumulado ao longo dos anos.

Mas, apesar desse meu conceito de liderança, Padre Carlos, não pense que acredito mais (politicamente) em salvadores da pátria ou em figuras messiânicas que possam, por si só, trazer tudo aquilo que precisamos. Muito pelo contrário, acredito que somente a conduta democrática, participativa e solidária de toda a comunidade é que pode transformá-la e acabar, ou pelo menos minimizar, as injustiças sociais.

Longe de mim acreditar na forma paternalista de fazer política. Essa estória de pai dos pobres, pai dos humildes, etc., faz parte de uma época que já passou.

Agora, sempre existiu e sempre vai existir a necessidade de pessoas com sensibilidade social, com senso democrático e com experiência técnica e política para ajudar na condução e no desenvolvimento dos grupos sociais.

Aliás, Padre Carlos, acho que o senhor se recorda das duas únicas vezes em que conversamos. A primeira vez, por ocasião da Festa de São Sebastião, quando o senhor brincou comigo me chamando de profeta. A segunda, tive a honra de receber sua ligação, lá de Roma, oportunidade em que tecemos alguns comentários sobre os destinos de Garanhuns e falamos um pouco sobre os mestrados que fazíamos. O Senhor, me parece que fazia mestrado em Teologia, e eu, em Políticas Sociais.

Concordamos com o fato de que a nossa cidade precisa urgentemente de um projeto de desenvolvimento econômico e social. E concordamos também com o fato de que Garanhuns possui um povo muito especial e um potencial de crescimento invejável, só faltando uma estratégia de crescimento - a ser definida democraticamente pela população - e de algumas lideranças capazes de despertar, com equilíbrio e determinação, todas as vocações latentes carregadas há tantos anos por essa gente.

Permita-me revelar: só pelo "ouvir falar" e pela única vez que nos encontramos eu percebi que a próxima sucessão municipal passaria pelas suas mãos. Inclusive, se algum dom de profeta eu já tive, não esqueça de que naquela oportunidade eu cheguei a afirmar que algo me dizia que, algum dia, eu ainda coordenaria uma campanha sua. Se lembra?

Por isso fiquei triste quando soube que o senhor teria desistido de colocar seu nome à disposição para uma futura postulação à Prefeitura.

Logo num momento como este, em que precisamos tanto de sua ajuda! Mas, eu imagino as pressões e as decepções que o senhor deve ter sentido... eu sei como funciona a política e sei também um pouco dos imperativos que a batina lhe impõe. Pelo menos, me conforta o fato de que outras oportunidades virão, e de que mesmo não participando diretamente, a sua voz e os seus conselhos poderão ser ouvidos por muita gente.

Mas... continuo achando uma coisa. Existem duas pessoas nas quais eu acredito que, neste momento, seriam as ideais para comandar a partir do próximo governo os nossos destinos: uma delas é o senhor. E a outra é um cidadão chamado Márcio Quirino. Acho vocês dois, me permita, (cada um em sua área), muito parecidos.

Pessoas corretas, com passado limpo, equilibrados, competentes, carismáticos, enfim, eu acho que se realmente o senhor não aceitar a disputa pela Prefeitura Márcio seria também uma excelente opção.

A única reclamação que já ouvi a respeito do Márcio, e que precisamos considerar, é o fato de ele ter trabalhado na CELPE, como chefe, durante alguns governos conservadores do passado.
Mas acho que isso é facilmente resolvível, até porque é também por conta desse passado que ele carrega uma enorme experiência com a máquina pública.

Se ele se cercar e for apoiado por todo este conjunto de forças que estava prestes a apoiar o senhor, certamente qualquer viés conservador que ele venha a ter, poderá voar pelo ares.

Acho que o senhor, juntamente com as pessoas do PT, do PV, do PL, do PDT e de outros partidos que se disponham a integrar uma frente progressista podem muito bem "chamá-lo na grande" e definir um programa de desenvolvimento a ser seguido.

Os compromissos seriam assumidos previamente e publicamente.

Isto tiraria, em grande parte, qualquer possibilidade de Márcio estabelecer um novo governo conservador.

Pois bem, Padre Carlos, talvez esta carta seja uma continuação daquela conversa que tivemos quando senhor estava em Roma e eu aqui, no meu auto-exílio, em Brasília.

Que o nosso Senhor ainda nos dê outras oportunidades de continuarmos conversando e, mais do que isto, que Ele continue a guiar os nossos caminhos para que possamos continuar contribuindo para o bem-estar de nossa comunidade.

Seja bem-vindo à sua Casa, Padre Carlos. E que mesmo de longe, o senhor me conceda a sua benção.