Garanhuns, 13 de setembro de 2003
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COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


Vocabulário pernambucano

Não sei se vocês conhecem Ronaldo César. Morador da Cohab de Garanhuns, agente penitenciário em Canhotinho e marido de professora, ele é compositor, cantor, dono de locadora e escritor nas horas vagas. Gosta de contar histórias engraçadas e parece estar sempre de bem com a vida, apesar dos problemas que a gente sabe que aparecem.

Grande Ronaldo. Que tem nome do maior craque da seleção brasileira no momento. E grande César, que de alguma maneira me lembra os grandes reis da história.

Mas o fato é que o Ronaldo, outro dia, quando a gente enchia a cara de cafezinho com bolo, apresentou-me um cabra da peste, pernambucano legítimo de São Bento do Una. Nasceu na terra de Alceu e Lívio Valença, o camarada, registrado como Waldemir Calado da Silva, mas conhecido por todos como Bacalhau. Nada a ver com o Bacalhau de Garanhuns, torcedor fanático do Santa Cruz.

Não sei se lhe deram o apelido porque não gosta muito de tomar banho - e nisso tem um quê de francês - ou por conta daquele seu linguajar, tão digno de um Guimarães Rosa local registrar. Valha-me Deus! O homem é um verdadeiro dicionário de pernambuquês, pode crer.

O Bacalhau, tão logo me foi apresentado, começou a soltar sua metralhadora giratória contra certos tipos que na sua opinião infestam a nossa Garanhuns.

- Você é um cara arretado, não é como a maioria dos abilolados e abiscoitados dessa porqueira - disse, no seu tom sincero de rapaz bem humorado.

- Porque eu não tenho medo de abufanar, abusar, avacalhar tudo. Sou acochado e se for possível atazanar vou em frente, sem medo de arranca-rabo - prosseguiu Waldemir.

Continuei em silêncio, estudando o sujeito, Ronaldo com um arzinho de riso, e Bacalhau nem aí:

- Veja seu Raulzito que nessa cidade tem muito bascui e quando as gang da rádio fala alguma coisa já vêm as autoridades no maior bafafá. Eu fico biruta e bodeado com essas coisas, acho que esses políticos são meio broxas e por isso não gostam da curríola, da mundiça e da rafaméia.

- Mas tem alguma coisa de positivo nessas pessoas, na sua opinião? - ousei perguntar, com um pouco de medo do conterrâneo de Alceu..

- Olha, nesses aperriados eu só vejo goga. Metidos a besta, são todos uns cabulosos, vivem amarrando o bode e causando buruçus. Machões coisas nenhuma, são mesmo é bonecas, boiolas que não podem nem com o próprio borná.

- E as mulheres? - arrisquei de novo, timidamente.

- Dessas aí, pra ser sincero, só interessa o cabaço, a carne-mijada, a xoxota, quando muito a rabichola. Nem que a nega seja dominada pela inhaca.

Terminei descontraindo, rindo e pegando gosto em conversar com o tipo falante.

- Mulher hoje não é como no meu tempo de moleque, quando eu vivia de siririca. Tá difícil encontrar uma selada, não é? Agora é tudo sonsa, tem quenga rica e quenga pobre, umas sirigaitas danadas promovendo as maiores presepadas.

E sem esperar que eu interrompesse:

- Gosto de comida supimpa, não aceito sobejo, pois que não sou nenhum queijudo esperando a hora do rango. Chega de rebotalho, precisamos é de sustança no meio do uruval pra espantar a urucubaca.

Meio zonzo de tantas palavras estrambólicas, algumas nem tanto, resolvi me despedir, desejando, com sinceridade, rever o Bacalhau quando carregasse um dicionário de pernambuquês nas mãos.

- Pode ficar certo que não gosto de pabulagem nem de nove-horas. E também não sou de farrapar. Pra mim pode ser estribado, que se não for com a cara pode seguir de fubica no caminho da febe tife. Entonce, considero você um amigo, não parece esses esboforidos que costumam emprenhar pelos ouvidos.

Disse isso e depois se escafedeu. Confesso que fiquei na maior zueira já assimilando nas zureia um pouco das gaitadas e das mungangas daquele guenzo.

Viviane, quando cheguei em casa e relatei o meu encontro com Bacalhau, ficou bem alcoviteira, sugerindo logo:

- Raulzinho, por que tu não leva esse homem pra academia? Se Marco Maciel, com aquele gogó de sola vai virar imortal, muito mais merece esse teu novo amigo Bacalhau.

É um caso a se pensar.

Os leitores bem que poderiam ajudar, enviando sugestões. Se por acaso o jerico tiver alguma dúvida sobre as birutices do sebosa, não precisa ficar vexado, ligue pra Ronaldo César que ele ou Sonita irão esclarecer esse quiprocó. Eles até estudam publicar o "Dicionário Trepeça do Bacalhau". Será um sucesso. Sem trupicão.

- Esse homem tem de ir pra Academia, viu? - insistiu Viviane, já querendo um xodó.

E aí não deu outra, pois não gosto de ficar jururu. Peguei a vadia, comecei a xumbregar e tome lapada na lambisgóia.