Garanhuns, 13 de setembro de 2003
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CULTURA
 

O Carandiru sobrevive

Lançado em 1999, pelo médico e escritor Drauzio Varella, o livro "Estação Carandiru", da Companhia das Letras, já está próximo da trigésima edição. A história ou histórias envolvendo o maior presídio que existia na América Latina renderam ao seu autor o prêmio Jabuti de 99, na categoria de livro do ano. O volume terminou sendo também transformado em filme, numa das produções mais elogiadas do novo cinema nacional.

O atual governador de São Paulo, Geraldo Alkmin, talvez numa tentativa de apagar a mancha que representou o Carandiru na história do país, mandou demolir o presídio de triste memória. O complexo que reunia uma população carcerária de mais de sete mil homens, contudo, sobrevive nas imagens do cinema e principalmente nas páginas escritas por Drauzio Varella.

O livro está, desde que foi lançado, entre os mais vendidos do Brasil e somente com sua leitura é possível compreender o fenônemo num país em que se lê muito pouco. "Estação Carandiru" é um relato quase jornalístico da vida na cadeia, mostrando de maneira humana a vida dura e cercada de crueldades dos que cumpriram pena na prisão paulista.

É possível perceber, após a leitura de "Estação Carandiru", que numa penitenciária, como aqui fora, existe de tudo: bandidos perigosos, pessoas sem honra, malandros, mas também seres humanos. Ninguém é santo, é claro, contudo mesmo nas condições mais abjetas existem códigos e regras, compromissos podem ser firmados e acordos cumpridos.

A obra de Verella termina com a rebelião e o massacre ocorrido no Carandiru em 1992, sob as ordens do ex-governador de São Paulo, hoje deputado federal pelo PTB, Antônio Fleury Filho. Em outubro daquele ano, a Polícia Militar invadiu o presídio e matou - de acordo com os números oficiais - 111 detentos.

Muitos podem achar que nada se perdeu, mas a maneira como esses homens foram assassinados, de maneira fria e covarde, chocou a consciência mundial. O ex-governador e seus comandados não foram punidos, porém a repercussão internacional do caso fez com que Alkimin, possivelmente um político que não comunga dos ideais fascistas de Fleury, extinguisse o presídio. E aí, pelo menos, um massacre daqueles não poderá mais se repetir.

"Passava das três da tarde quando a polícia invadiu o pavilhão nove. O ataque foi desfechado com precisão militar: rápido e letal. A violência da ação não deu chance para a defesa. Embora tenha sobrado para todos, as baixas mais pesadas ocorreram no terceiro e no quinto andar.

"Cerca de trinta minutos depois de ordenada a invasão, nas galerias cheias de fumaça ouviram-se gritos de "pára, pelo amor de Deus! Não é para matar! Já chega, acabou! Acabou!.

"Uma depois da outra as metralhadoras silenciaram".

Acima, um dos trechos do relato, que é completado da seguinte maneira: "No dia dois de outubro de 1992, morreram 111 homens no pavilhão nove, segundo a versão oficial. Os presos afirmam que foram mais de duzentos e cinquenta, contados os que saíram feridos e nunca retornaram. Nos números oficiais não há referências a feridos. Não houve mortes entre os policiais militares".

Drauzio Varellla, certamente, não quis inocentar os bandidos, fazer deles pobres coitados. Porém o que não pode se admitir, numa sociedade dita civilizada, é que a polícia se comporte de forma mais selvagem do que os ladrões ou criminosos.

Matar é errado parta de quem partir. E quando o homem mata sem ser em legítima defesa, sem dar chances a vítima, atirando pelas costas ou metralhando de frente pessoas sem a menor possibilidade de defesa, esse que praticou o ato é tão perigoso para a sociedade quanto aquele enfiado atrás das grades por um determinado delito.

"Estação Carandiru" denuncia esse crime praticado pela PM de São Paulo, mas não fica só nisso. Qual Dostoiesvki fez num dos seus melhores romances, "Crime e Castigo", o médico cancerologista responsável pela obra nos dá uma possibilidade de aprofundar nossos estudos sobre a alma humana. O escritor russo, está claro, é muito mais denso na sua análise psicológica de um assassino, mas o brasileiro também nos leva a uma grande reflexão sobre os bandidos, a vida na prisão, a iniquidade do sistema carcerário, a insensibilidade e incompetência dos governantes, dos que estão "do lado de fora".

Na cadeia, mostra Drauzio Varella, nem tudo é ressentimento, cocaína, aspereza, traição, tortura e sofrimento. Existe tudo isso sim, todavia há também uma vida que segue, como numa cidade.

"Na Copa de 94, assisti Brasil versus Estados Unidos num xadrez com 25 presos, no pavilhão Dois. Não havia um cisco de pó nos móveis, o chão dava gosto de olhar. Em sistema de rodízio, cada ocupante era responsável pela faxina diária: após o café da manhã, ensaboar e escovar o chão, jogar um tacho de tapetinhos; terminando o almoço, varrer bem varrido e água fervente nos bois; depois do jantar, água e sabão, lavar tudo de novo, enxugar e colocar os tachos no fogareiro para a limpeza final, pelando, nas privadas.

"Sabiá, ex-motorista da prefeitura de São Paulo, que usava o carro oficial para entregar cocaína no centro da cidade, até que se apaixonou por uma mocinha da repartição e foi entregue à polícia pela esposa traída, explica o sistema:

" - Passamos vários anos neste lugar; tem que zelar como se fosse nossa casa. Eu limpo hoje e só serei encarregado daqui a 26 dias. Não teria desculpa para não fazer no maior capricho. Outra, também, é que não ia dar certo. Querer bancar o espertinho, entre nós, tudo malandro, ó, nunca tem final feliz."

Outro trecho forte de "Estação Carandiru" é quando mostra a presença forte das mães ao lado dos presos, sem coragem de abandonar os filhos mesmo quando estes tinham praticados os mais terriveis crimes.

"As famílias madrugam na porta, mulheres na imensa maioria. São namoradas, esposas, irmãs, tias e a inseparável mãe, difícil de abandonar o filho preso, por mais crápula que ele seja. Em dez anos de trabalho na cadeia, assisti a tais demonstrações de amor materno que, confesso, encontrei sabedoria no dito: amor, só de mãe.

"Uma senhora do Paraná, de coque no cabelo e pernas grossas de varizes, viajava seiscentos quilômetros de ônibus a cada quinze dias, religiosamente, para visitar o filho condenado a 120 anos. Quatro anos antes, o rapaz, a convite de um amigo traficante tinha invadido uma casa cujos moradores ele sequer conhecia e chacinou seis pessoas, acusadas de terem pedido providências a polícia para acabar com a boca de crack de propriedade desse amigo.

"Num domingo, a senhora de coque quase implorou a um guarda do presídio que cuidasse do menino dela:

"- Eu sei que o meu filho fez coisa errada por causa das companhias, mas quando olho pra ele, não acredito que ele tirou a vida daquela gente, como dizem, vejo ele pequeninho no colo, rindo nu fundo dos meus olhos..."

Assim é "Estação Carandiru", um livro que ficará para sempre, por mais que tinham implodido o presídio paulista. (R.A.).