Garanhuns, 30 de agosto de 2003
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ENTREVISTA
 

Bartolomeu Quidute acusa Silvino de esquecer o social

Natural de Flores, no Sertão de Pernambuco, Bartolomeu Quidute está em Garanhuns há mais de 20 anos, atuando como médico. Graças à sua profissão, angariou muita simpatia na cidade, sobretudo na área popular. E foi esse prestígio junto à massa que terminou por lhe colocar na política.

Em 1992, numa eleição que deveria ser decidida entre o advogado Givaldo Calado e o médico José Tinoco, o ginecologista Bartolomeu terminou surpreendendo. Correu por fora e na reta final ganhou a eleição com sobra de votos.

Governou Garanhuns abrindo mais a prefeitura para a periferia, investindo em áreas como Manoel Chéu, Várzea, Liberdade e Indiano. Seu governo foi questionado em vários aspectos, principalmente por conta da nomeação excessiva de parentes para os cargos de primeiro e segundo escalão. Nem por isso, contudo, deixou de fazer o seu sucessor, em 1996, elegendo o até então opaco vereador Silvino Andrade contra o favoritíssimo Ivo Amaral.

Rompido com o prefeito, Bartolomeu Quidute disputou uma eleição de deputado estadual mas não conseguiu se eleger. No ano 2000, disputou a prefeitura contra o ex-aliado Silvino (que fez uma primeira gestão pontuada por muitas obras) e foi massacrado nas urnas, perdendo a eleição por 10 mil votos de diferença.

Agora, mais maduro, aliado do deputado Izaías Régis, Bartolomeu se prepara para disputar mais uma eleição. Declara que não será candidato "se não quiser" e dá demonstrações de confiar no parlamentar do PTB. "O cidadão Izaías é diferente do cidadão que é prefeito de Garanhuns", observa, convencido de que foi vítima da uma das maiores traições políticas que já aconteceram na história do Brasil.

O resultado completo da entrevista, feita originalmente no jornal da Rádio Marano, você confere a seguir, com edição e texto de Roberto Almeida.


CORREIO - Como é que o Sr. vê a atual administração de Garanhuns, depois de sete anos do Governo Silvino?

BARTOLOMEU - Acho melhor deixar esse julgamento para o próprio prefeito e para o povo de Garanhuns, que tem mais condições de julgá-lo. Eu sou um político que procuro fazer uma política séria, sem estar agredindo o adversário, apesar de ser tão agredido. Só que ninguém chuta pessoa morta, só se chuta a pessoa viva. Existe até um ditado que diz: ninguém chuta cachorro morto".

CORREIO - Naturalmente que por uma questão de ética, já que foi um aliado do prefeito, o Sr. evita fazer esse julgamento. Mas nas suas caminhadas pela cidade, no seu contato com a população, diria que Garanhuns está bem, a população está satisfeita?

BARTOLOMEU - Eu posso falar por mim. Se eu tivesse sido prefeito nesses últimos sete anos, poderia dizer o que teria feito pelo município, já que cada um tem uma maneira de administrar. Eu tenho o meu jeito, o prefeito atual tem o dele.

CORREIO - Então o que o Sr. teria feito?

BARTOLOMEU - Como você sabe no meu governo eu priorizei o social. Procurei construir as coisas de baixo pra cima, de forma que o crescimento econômico da cidade estava aumentando, mas também o desenvolvimento social. O crescimento com justiça e formação de cidadãos. Procurei trabalhar reduzindo a violência, o desemprego e isso conseguimos até certo ponto obter bons resultados. Se continuasse esse trabalho seria nessa linha, procurando organizar o povo e a sociedade. Da minha parte há uma preocupação com a saúde, a educação e a geração de empregos. E isso aí só pode vir com valorização da mão-de-obra local. Se fizer assim o dinheiro circula no município e diminui a concentração de renda.

CORREIO - Isso não tem acontecido ou tem muito dinheiro de Garanhuns circulando em outras cidades?

BARTOLOMEU - Como eu disse a você cada pessoa tem seu jeito de governar. Eu priorizo sempre o social porque acho que assim se consegue o desenvolvimento. Se fizer diferente irá se concentrar muito nas mãos de poucos e pouca renda na mãos de muitos. É o que tem ocorrido porque o prefeito atual não prioriza as obras sociais. Se tivesse continuado nesses sete anos teria procurado investir aqui dentro e ao mesmo tempo levar a imagem de Garanhuns lá pra fora.

CORREIO - Algumas idéias suas, defendidas quando o Sr. era prefeito, foram adotadas pelo prefeito Silvino, não é verdade?

BARTOLOMEU - Eu fico feliz que o prefeito tenha realizado alguns dos meus projetos, pois quem ganhou com isso foi Garanhuns, que precisa se modernizar cada dia mais. Mas insisto que muitas coisas foram feitas sem justiça social. Eu por exemplo jamais faria o camelodrómo, que foi idéia minha, na Avenida Santos Dumont. Porque Garanhuns já é uma cidade que tem o centro comercial pequeno. E futuramente não pode ficar tudo na Santo Antônio. Colocar o camelódromo naquele local foi um absurdo. Prejudicou o trânsito, o mercado 18 de agosto e outras lojas comerciais do centro. O meu projeto era colocar os ambulantes por trás de Ferreira Costa, no local do Centro Administrativo.

CORREIO - Se voltar a ser prefeito o que o Sr. fará com o shopping popular?

BARTOLOMEU - Eu teria de ouvir todo o povo que está comercializando. Acho que ninguém pode fazer nada só. O somatório das idéias é que dá condição de viabilizar uma saída melhor.

CORREIO - Eles reclamam muito o fato de não passar o ônibus na Avenida...

BARTOLOMEU - E não tem nem condições de passar o ônibus por ali, já que o local é muito estreito. Na área do antigo cinema Jardim esse problema não existiria. Foi um erro pra muitas coisas, tanto para o tráfego quanto para o comércio.

CORREIO - Como o ex-prefeito vê toda essa polêmica em torno da zona azul?

BARTOLOMEU - A zona azul é necessária, pois o centro precisa de um ordenamento. Mas não pode abranger tudo, incluir até mesmo áreas residenciais. Um cidadão tem uma marcação de zona azul em frente de sua casa vai colocar o veículo onde? E tem a questão dos flanelinhas. Antes de implantar o estacionamento rotativo deviam ter promovido um encontro com os lavadores de carro de modo a permitir a eles trabalho e um salário digno. Fizeram o negócio de um jeito que mexeu com a vida de várias famílias. Na minha opinião houve mais uma vez uma insensiblidade muito grande do poder público.

CORREIO - Quando o Sr. enfatiza essa questão do social defende que o poder público tem de valorizar mais o ser humano?

BARTOLOMEU - Tudo na vida existe por conta do ser humano. O grande problema que está havendo em nosso país é que não se investe quase nada no homem. Veja que o Brasil nem tem condições de concorrer com os Estados Unidos e a Europa por conta das altas taxas de analfabetismo que temos. E temos problemas sérios também na saúde. Infelizmente, a obra eleitoreira, de pedra e cal na maioria das vezes é que dá o voto. Pra mim a obra mais importante é dar condições de vida dignas ao povo.

CORREIO - A nova entrada de Garanhuns, o chamado acesso leste, também foi idéia sua? E foi feita da forma como foi idealizada?

BARTOLOMEU- É claro que foi. Só que eu pensei, e isso está nos arquivos de O Monitor, que ali devia ser feita a entrada da cidade. E a entrada da cidade está mais na frente. O meu projeto seria feito de uma forma a beneficiar muito a história de Garanhuns. Quando alguém chegasse já teria informações sobre as Sete Colinas, mas acontece que o projeto foi modificado.

CORREIO - Quando prefeito o Sr. nomeou muitos parentes para os cargos de confiança da prefeitura. Caso volte a administrar Garanhuns essa prática seria modificada?

BARTOLOMEU - Sem dúvida nenhuma. Tentaram usar isso aí como bandeira de campanha contra minha pessoa, mas o importante foram os frutos que ficaram da minha administração. Na época o meu grupo era pequeno e tive realmente de ter pessoas de minha confinça nas secretarias. Mas o trabalho funcionou a contento, tanto que elegi meu sucessor, que é o atual prefeito, só que depois ele foi pra onde quis. Eu acho que o nepotismo é prejudicial quando tem alguma pessoa de sua família ganha sem fazer nada. Quando você tem alguma pessoa da família que trabalha e a pessoa vê esse trabalho, acho que aí não há nada demais. E quando você está aperreado, quem chega primeiro junto é a família. Graças a Deus a minha família é muito unida. E os que prestaram serviço a Garanhuns continuam exercendo suas atividades porque são peessoas formadas, com condições de trabalhar em qualquer lugar. Mas hoje eu não teria necessidade de nomear parentes, porque agora eu tenho um grupo político amplo.

CORREIO - Muitos do seu próprio grupo político acreditam que o candidato a prefeito do PTB será Izaías e não Bartolomeu. Por que as pessoas não acreditam muito na sua candidatura?

BARTOLOMEU - Olha, tem coisas traumáticas que ocorrem na nossa cidade. Você sabe que o maior ato de traição ocorrido talvez na história política desse Brasil todo foi a traição do prefeito que aí está em relação a minha pessoa. Não propriamente a Bartolomeu, mas ao que foi prometido nas ruas de Garanhuns. Hoje existe entre a minha família e a do deputado Izaías Régis uma amizade fraterna. Muita gente fica cutucando, tentando nos separar, mas não vão conseguir, não vão separar nunca. Porque nossa aliança foi feita pensando em Garanhuns e no Agreste. E não se pode confundir o cidadão Izaías com o prefeito atual. O deputado tem reiterado que me apóia, mas eu digo sempre que não adianta ser candidato sem o apoio do povo. E essa população tem dados demonstrações frequentes de estar do meu lado. Posso dizer que não serei candidato se não quiser. E tem muita gente pedindo a nossa volta. Minha e de Rosa, uma companheira que tem me acompanhado e dado uma condição muito grande de conquistar avanços na área política e muitas amizades.