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Deus é melhor do que Lisbela
Em menos de uma semana tivemos o privilégio de assistir
três bons filmes da nova safra do cinema brasileiro. Começamos
com "As Três Marias", com a excelente Marieta Severo,
envolvida numa história densa de crimes, vinganças
e relação de poder, tendo no centro da trama personagens
feminininos. Depois vimos "Deus é Brasileiro",
de Cacá Diegues, estrelado pelo já consagrado Antônio
Fagundes e pelo surpreendente Wagner Moura, capaz de roubar muitas
cenas do próprio Deus, este (o todo poderoso), interpretado
por Fagundes.
Os dois primeiros - bem divulgados pela imprensa e o outro muito
balado quando da estréia nos multiplex das capitais - acompanhamos
em vídeo, no conforto do lar e as limitações
da TV. O terceiro filme, "Lisbela e o Prisioneiro", tivemos
oportunidade de ver no cinema, exatamente no dia de sua estréia
no Recife. Nesse último brilha principalmente Selton Melo,
que interpreta um malandro típico do interior capaz de tocar
o coração da mocinha sonhadora. No papel título
de Lisbela, Débora Falabella está quase perfeita,
com um ar doce capaz de cativar até os mais empedernidos
machões.
A adaptação do livro de Osman Lins merece muitos
elogios e tecnicamente o produto dirigido por Guel Arraes não
fica a dever nada a muita coisa produzida pelos americanos. Como
diriam os alienados ou preconceituosos contra a indústria
nacional: "nem parece filme brasileiro".
"Lisbela e o Prisioneiro", não temos dúvida,
fará grande sucesso de público e reúne condições
de ter uma boa carreira inclusive internacional. É um filme
fácil, às vezes "bestinha", leve, capaz
de agradar em cheio principalmente ao grande público.
Gostaríamos, agora, de fazer jus ao título lá
em cima. Pra isso, é preciso escrever mais sobre "Deus
é Brasileiro", este já disponível nas
locadoras de vídeo de Garanhuns. O filme de Cacá Diegues,
apesar de ter recebido críticas desfavoráveis de jornalistas
pernambucanos, com certeza é superior à produção
tocada por Guel Arraes.
"Deus é Brasileiro" é mais cinema. É
uma viagem pelo Brasil, apresentando muitas cenas de cineasta maduro,
que sabe muito bem o que quer com uma câmera na mão.
É engraçado sim, como "Lisbela"ou o "Auto
da Compadecida", mas também tem por trás do humor
uma proposta mais séria ou menos descartável. Além
de tudo, em alguns momentos é extremamente poético,
como na cena final, inesquecível, e digna de um Speilberg.
O trio formado por Antônio Fagundes, Wagner Moura e Paloma
Duarte - esta convicente como atriz e linda - a direção
mais profissional e menos televisiva (caso de Guel Arraes), as imagens,
o humor menos circense e mais inteligente, o roteiro... Quase tudo
em "Deus é Brasileiro" nos pareceu melhor, numa
comparação com "Lisbela".
Para dizer a verdade, achamos que Guel Arraes (e de maneira nenhuma
estamos querendo desmerecer seu belo trabalho) ganha de Cacá
Diegues apenas em ritmo, agilidade, com sua proximidade da televisão
e na feliz escolha da trilha sonora e dos artistas que cantam em
"Lisbela".
O filme do pernambucano, com boas cenas rodadas no Estado, citações
de cidades como Vitória de Santo Antão, Nazaré
da Mata e Recife, encanta sobretudo pela roupagem chic dada às
cançõees bregas da fita.
Caetano Veloso, então, que já fez maravilhas com
músicas de Vicente Celestino, Peninha e Odair José,
simplesmente arrasa com sua interpretação de "Você
não me ensinou a ter esquecer", do super brega Fernando
Mendes. É encantador, repetimos, ouvir Caetano e outras interprétes
das músicas do filme. É uma delícia curtir
a "beleza interiorana" da personagem principal. Mas que
filme por filme, sem nenhum demérito a "Lisbela",
"Deus é Brasileiro" realmente é melhor.
(Fernando Pessoa).
*O filme "Lisbela e o Prisioneiro"
está em cartaz nas cidades onde existe cinema.
**Os filmes "As Três Marias" e "Deus é
Brasileiro" podem ser encontrados nas boas locadoras de Garanhuns.
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