Garanhuns, 30 de agosto de 2003
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CULTURA
 

Deus é melhor do que Lisbela

Em menos de uma semana tivemos o privilégio de assistir três bons filmes da nova safra do cinema brasileiro. Começamos com "As Três Marias", com a excelente Marieta Severo, envolvida numa história densa de crimes, vinganças e relação de poder, tendo no centro da trama personagens feminininos. Depois vimos "Deus é Brasileiro", de Cacá Diegues, estrelado pelo já consagrado Antônio Fagundes e pelo surpreendente Wagner Moura, capaz de roubar muitas cenas do próprio Deus, este (o todo poderoso), interpretado por Fagundes.

Os dois primeiros - bem divulgados pela imprensa e o outro muito balado quando da estréia nos multiplex das capitais - acompanhamos em vídeo, no conforto do lar e as limitações da TV. O terceiro filme, "Lisbela e o Prisioneiro", tivemos oportunidade de ver no cinema, exatamente no dia de sua estréia no Recife. Nesse último brilha principalmente Selton Melo, que interpreta um malandro típico do interior capaz de tocar o coração da mocinha sonhadora. No papel título de Lisbela, Débora Falabella está quase perfeita, com um ar doce capaz de cativar até os mais empedernidos machões.

A adaptação do livro de Osman Lins merece muitos elogios e tecnicamente o produto dirigido por Guel Arraes não fica a dever nada a muita coisa produzida pelos americanos. Como diriam os alienados ou preconceituosos contra a indústria nacional: "nem parece filme brasileiro".

"Lisbela e o Prisioneiro", não temos dúvida, fará grande sucesso de público e reúne condições de ter uma boa carreira inclusive internacional. É um filme fácil, às vezes "bestinha", leve, capaz de agradar em cheio principalmente ao grande público.

Gostaríamos, agora, de fazer jus ao título lá em cima. Pra isso, é preciso escrever mais sobre "Deus é Brasileiro", este já disponível nas locadoras de vídeo de Garanhuns. O filme de Cacá Diegues, apesar de ter recebido críticas desfavoráveis de jornalistas pernambucanos, com certeza é superior à produção tocada por Guel Arraes.

"Deus é Brasileiro" é mais cinema. É uma viagem pelo Brasil, apresentando muitas cenas de cineasta maduro, que sabe muito bem o que quer com uma câmera na mão. É engraçado sim, como "Lisbela"ou o "Auto da Compadecida", mas também tem por trás do humor uma proposta mais séria ou menos descartável. Além de tudo, em alguns momentos é extremamente poético, como na cena final, inesquecível, e digna de um Speilberg.

O trio formado por Antônio Fagundes, Wagner Moura e Paloma Duarte - esta convicente como atriz e linda - a direção mais profissional e menos televisiva (caso de Guel Arraes), as imagens, o humor menos circense e mais inteligente, o roteiro... Quase tudo em "Deus é Brasileiro" nos pareceu melhor, numa comparação com "Lisbela".

Para dizer a verdade, achamos que Guel Arraes (e de maneira nenhuma estamos querendo desmerecer seu belo trabalho) ganha de Cacá Diegues apenas em ritmo, agilidade, com sua proximidade da televisão e na feliz escolha da trilha sonora e dos artistas que cantam em "Lisbela".

O filme do pernambucano, com boas cenas rodadas no Estado, citações de cidades como Vitória de Santo Antão, Nazaré da Mata e Recife, encanta sobretudo pela roupagem chic dada às cançõees bregas da fita.

Caetano Veloso, então, que já fez maravilhas com músicas de Vicente Celestino, Peninha e Odair José, simplesmente arrasa com sua interpretação de "Você não me ensinou a ter esquecer", do super brega Fernando Mendes. É encantador, repetimos, ouvir Caetano e outras interprétes das músicas do filme. É uma delícia curtir a "beleza interiorana" da personagem principal. Mas que filme por filme, sem nenhum demérito a "Lisbela", "Deus é Brasileiro" realmente é melhor. (Fernando Pessoa).

*O filme "Lisbela e o Prisioneiro" está em cartaz nas cidades onde existe cinema.
**Os filmes "As Três Marias" e "Deus é Brasileiro" podem ser encontrados nas boas locadoras de Garanhuns.