Garanhuns, 30 de agosto de 2003
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CORREIO CULTURAL

Carlos Janduy


De volta ao ar

Após ficar por mais de dois anos sem apresentar programa de rádio, o compositor, cantor e poeta Zezinho de Garanhuns foi contratado em julho pela Comunitária Monte Sinai FM, para comandar Musicamp, programa que o comunicador marcou época em duas emissoras locais: Rádio Meridional, na qual apresentou em parceria com Rivaldo Belarmino, diariamente, durante oito anos, e na Jornal do Comércio, onde passou quatro anos com o Musicamp, aos domingos, e durante a semana, apresentou os programas Alvorada Sertaneja e Forrozão da Jornal.

Zezinho iniciou como radialista na antiga Difusora de Caruaru, hoje Jornal do Comércio. Lá trabalhou por um período de um ano e oito meses. Na CMS, Musicamp vai ao ar de segunda a sábado, das 5 às 7 da manhã. O programa transmite alegria e descontração, através da linguagem especial de quem sabe falar com propriedade as coisas da terra e conta com um roteiro musical que realmente valoriza os legítimos compositores e intérpretes regionais.

Parabéns ao diretor-presidente da emissora, Dr. Osman Holanda , pela feliz aquisição. Tenho certeza que a Monte Sinai é detentora de uma grande audiência nesse horário.

Zezinho de Garanhuns gravou o primeiro disco no ano de 1985 (em São Paulo), quando fazia parte do grupo Os Gigantes do Nordeste, com os irmãos Sinhozinho Barra Nova (in memorian) e Francisco Barra Nova.

Com Rivaldo Belarmino, formou a primeira dupla de forró do Brasil, batizada assim por Jacinto Silva, um dos maiores baluartes da música nordestina. A dupla lançou três discos: Em paz com a natureza; O amor vai vencer e Oi nós aí de novo, todos na década de 90.

Procurando Espaço foi o título do seu primeiro disco solo. Esse CD teve a participação especial de Flávio José, na música Emoção da Vaquejada, composta por Zezinho, gravada posteriormente por Gláucio Costa e Alcymar Monteiro. Em 1997, Flávio José gravou Quadrilha no pé de serra, de autoria de Zezinho.

Pelo Selo Polysom, gravou o seu 6º disco, desta vez com Marcolino, o mesmo que fez dupla com Vavá Machado. Com esse novo parceiro, em breve estará lançando um CD de toadas e o próximo disco de forró.

Com outros grandes artistas nordestinos, Zezinho de Garanhuns participou de uma coletânea, lançada pela Escala Mares (Caruaru). Marcou presença também nos CDs Um Encontro de Vozes com a Música de Carlos Janduy - Vol. II e A Música de Ronaldo César.

Zezinho tem uma bela história no rádio pernambucano e no cenário musical nordestino, mas nunca deixou de morar em Garanhuns, cidade que ama e faz questão de atrelar o seu nome a ela.

A poesia popular Doutô Raiz, que publico nesta edição, é uma das inspirações bem humoradas de Zezinho de Garanhuns e foi recentemente declamada em seu programa. Divirta-se!

Você criado no mato
Na vez que um fio adoece
Faz um remédio barato
Que muita gente conhece
Tem um doutô raizêro
Este por pouco dinhêro
Prepara uma garrafada
Devido tanta mistura
As vês agente se cura
Quase inté sem gastá nada

No lugar que eu nasci
Tinha um doutô raizêro
Um fazedô de meizinha
Que pegou fama ligêro
A casa cheia de gente
E tudo gente doente
Gente de longe e pertinho
Todo dia aparecia
E seu remédio sirvia
Pr'aquele povo todinho

Seu nome foi se espalhano
Quase em toda região
E haja gente chegano
Do agreste e do sertão
Vinha do norte e do sul
Deles que chegava azul
Com uma doença danada
Adespois ficava bom
Rosado iguá a botom
Cum a tá da garrafada

Despois que ficou famoso
O povo lhe precurano
Inté um pouco orguioso
Cuma tivesse inrricano
Há muito tempo passado
Eu escutava um ditado
Inté um ditado fraco
Dizia a minha madrinha
Quando Deus dá a farinha
O diabo vem rasga o saco

Certo dia apareceu
Uma fiscalização
Pra ver se o remédio seu
Era rezistrado ou não
O fiscá lhe preguntou
O sinhô já se formou
Pra tomá essa atitude
Tratá de tanta doença
É preciso ter licença
Do Ministéro da Saúde

Só pode se for formado
Mode tratá de doente
Se passá remédio errado
Pode matá muita gente
E o Doutô Raiz falou
O sinhô já ispiou
Quanta diferença há
Das doença dos matuto
Criado qui nem bicho bruto
Pros povo da capitá?

Se lá tem conjutivite
Aqui nós chama dordói
Azia lá é grastite
Queima no istambo e dói
Intiriça é hepatite
E a poliomelite
Eu chamo paralisia
Sei que estresse é cancêra
Diarréia e caganêra
É tudo dizinteria

Coqueluche é tosse braba
Asma é farta de ar
Afitose eu chamo baba
Corise de ispirrá
A gente chama difurço
Pilepsia e convulsão
Aqui eu chamo dismaio
Dor com caimbra é andaço
E a dor de espinhaço
É bico de papagaio

Gripe é constipação
Sarna é iscabiose
Prósta é inframação
Isdropisia é sirrose
A varíola é bichiga
Cólica é dor de barriga
Pelagra é arisipela
Morróida é sangue no fundo
Aids doença do mundo
E o sinhô tá com ela

Nisso o fiscá teve um susto
E disse o sinhô me trata
Trato sim mas tem um custo
Que essa doença mata
O fiscá ficou feliz
Abraçou o Doutô Raiz
Dizendo assim seu Doutô
Sei que vou ficá curado
Pode ficá sossegado
Ninguém mexe cum sinhô.