Garanhuns, 02 de agosto de 2003
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COLUNAS
 

HUMOR

Raulzito


Reformas lá e cá

O Correio chegou ao número 100 e já colaboro com esse teimoso editor geral do periódico há pelo menos 90 números do jornal. Nunca ganhei dinheiro, mas que arranjei um bocado de inimigos, disso não tenho a menor dúvida.

Um padre outro dia me disse que o bispo não suporta o Correio e estou certo que a culpa por essa ojeriza do simpático religioso é que sempre o chamo de Dom Irineu Roque V. Bem, a verdade é que apesar de cri cri, sou mais querido em Garanhuns que o amado chefe da Diocese.

Também não gostam de mim o Sirvino, o Bartolomeu Quichute e o Izaías Régua. O Stoni de Costas também faz beicinho.

Se não agrado a esse figurões, em compensação gostam de mim no Sesc, na Faga, na Faculdade de Formação de Professores, nas redações das rádios, no cabaré de Maria Gorda e na associação das mulheres fofoqueiras da Suíça Pernambucana (que existe na informalidade, é claro).

Desculpem a introdução um tanto longa, é que não podia deixar de registrar a importância do número 100 do jornal. E aí não houve como evitar falar dos meus fãs e dos meus desafetos.

Mas o tema da coluna desta quinzena é a reforma. Que na minha opinião deve ser feita tanto lá, quanto cá.

Lulinha paz e amor, contudo, está tendo mais dificuldade para mudar as coisas na previdência do que teve para enfrentar os dois Fernandos e a careca zangada do Serra.

É que os funcionários públicos querem continuar trabalhando pouco, atendendo os contribuintes da pior forma possível e recebendo o suficiente pelo menos para trocar de carro todo ano e não deixar faltar a cervejinha na geladeira.

E tem ainda os que são especiais, como os juízes. Quando eles nascem, um anjo safado lá no céu aponta logo: esse aí fará parte do judiciário.

Nos tribunais, eles têm direito a ganhar oito, doze ou trinta mil por mês, gozam férias e recesso, aposentam-se com polpudos salários e ainda acham pouco.

- Ora, por acaso você quer me comparar a um pedreiro? - Disse-me outro dia um advogado.

Nunca foi minha intenção. Os pedreiros são mais importantes porque levantam paredes, acertam o piso, batem a laje e deixam prontos os nossos banheiros.

- Quer por acaso me comparar a um agricultor? - Perguntou um juiz, com cara de ofendido.

De maneira nenhuma. Os homens do campo plantam o feijão, o milho, a mandioca, a soja, o arroz, a batata, a tomate. Sobrevivem mesmo à seca do Nordeste e não deixam faltar o alimento na mesa da classe média fudida.

- Por acaso sou igual a um reles professor? - Insiste um homem de toga, desses bem petulantes.

Ninguém é louco de dizer isso. O professor ou professora, ensina as primeiras letras, forma a criança e o adolescente, dá as lições necessárias para que o estudante faça seu futuro, vire engenheiro, médico, advogado.

- Nós somos mais importantes até mesmo do que os médicos - Conclui um presidente de Tribunal, consciente da sua importância.

Concordo, excelência. Digo, todo humilde. Afinal de contas, os médicos correm pra lá e pra cá, precisam de três ou quatro empregos para sobreviver. Quando vencem, e botam um belo consultório, viram mercantilistas e no serviço público atendem tão mal quanto qualquer funcionário do estado. Mesmo os que realmente salvam vidas certamente são menos importantes que qualquer integrante do judiciário.

E nós, jornalistas que trabalhamos na imprensa do interior, sem ganhar nada? Não somos também um pouquinho especiais?

Falando sério, como o meu colega Gelson Limão, sou a favor da reforma da previdência, da reforma tributária, da reforma política, da reforma do sistema penitenciário, da reforma da televisão brasileira, da reforma do casamento e da reforma da cabeça da elite pensante de Garanhuns.

Que acabem os privilégios de quem quer que seja, que diminuam a carga dos impostos, que se tornem as prisões menos desumanas, que retirem do ar os canalhas tipo Ratinho e Fausto Silva, que os casais vivam menos de fachada e mais de amor, enfim que na cidade dita das flores não sobrevivam apenas os cordões azuis e encarnados, de modo que os excluídos sejam incluídos, amém.

E que ao fazer as reformas - todas elas - não façam uma meia sola com pedras portuguesas, pois se não isso aqui ficará parecendo um caminhão de japonês.