Garanhuns, 23 de julho de 2003
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ENTREVISTA
 

Flávio José gostaria de gravar uma música para Garanhuns

O forrozeiro Flávio José, natural de Monteiro, na Paraíba, foi a atração principal da sexta noite do último Festival de Inverno de Garanhuns. Cantou numa terça-feira, um dia sem chuvas e com uma temperatura amena. Na noite anterior, sua esposa, Ladja Betânia, juntamente com Lucinha Guerra, Kelly Benevides e Edilza, tinha se apresentado para um público reduzido. O intérprete de "Caboclo Sonhador", porém, provou que tem inúmeros fãs espalhados por todo esse Nordeste. E a Esplanada Cultural superlotou durante o seu show, um dos melhores do evento realizado na Suíça Pernambucana.

Defensor do legítimo forró nordestino, na linha de Luiz Gonzaga, sua maior referência musical, Flávio José é um artista exigente, que não faz concessões às produções descartáveis que infestam as rádios de norte a sul do país. Por conta de suas posições, este ano teve um problema no São João de Caruaru e as rádios locais agora estão boicotando seu trabalho. "É uma pena, porque eu perco um pouco, as rádios perdem um pouco e o público também perde", lamentou Flávio José, numa entrevista a Edson Miranda, da Rádio Marano, ao falar do problema.

Nesta entrevista exclusiva ao Correio, Flávio José elogia o Festival de Inverno de Garanhuns, admite uma preocupação com o social nas músicas que canta e declara que ficaria muito feliz eme gravar uma canção que falasse da nossa cidade. Artista consciente, o forrozeiro paraibano revela uma grande admiração pelo presidente Lula, a quem enviou recentemente os principais discos de sua carreira, recebendo como resposta uma carta simpática de agradecimento e reconhecimento de sua trabalho. O cantor considera a situação do país difícil, sabe que Lula pegou a casa "desarrumada", mas está convencido de que o presidente, devido a sua origem de homem pobre do interior é bem intencionado e vai colocar o brasil nos trilhos. O texto e a edição são de Roberto Almeida.


CORREIO - Quais são suas impressões do Festival de Inverno de Garanhuns?

FLÁVIO JOSÉ - não só minhas mais de todo mundo, de todo Brasil, são as melhores possíveis pela consagrada que é o Festival de Inverno desta cidade. E por esse evento ser assim uma coisa a nível nacional, que traz tantas atrações também a nível nacional, eu fico muito feliz por poder participar dessa festa.

CORREIO - Pra você qual a diferença de cantar no São João de Caruaru, uma festa de época, e de se apresentar em Garanhuns, nesse evento que tem um caráter mais eclético e cultural?

FLÁVIO JOSÉ - Olhe, a única diferença é que o São João acontece em junho e aqui a festa é no mês de julho. E aqui nós percebemos que o público é tão grande quanto o que a gente vê no São João por aí. A importância é a mesma, porque aonde a gente vai, vai com a proposta de resgatar a autêntica música nordestina.

CORREIO - Sua principal referência musical é mesmo Luís Gonzaga?

FLÁVIO JOSÉ - Com certeza. Eu comecei a amar o forró quando vi Luís Gonzaga em cima de um caminhão, cantando em praça pública aqui bem pertinho, em Arcoverde. Eu tava lá no final de semana, com os familiares e acabei vendo esse show. E meus pais falaram que foi daí por diante que eu enlouqueci por uma sanfoninha, e daí eu iniciei minha vida na música.

CORREIO - Que outra grande influência na sua carreira?

FLÁVIO JOSÉ - Trio Nordestino.

CORREIO - Você diria que sua música tem uma preocupação social?

FLÁVIO JOSÉ - Eu gosto. Tem sim. Eu fico feliz quando a gente encontra um tema como foi "O Meu País", "Nordestino Lutador", "Brasilidade" também, que é uma coisa belíssima. E também, por que não dizer, "Cidadão Comum", que fala daquela coisa do preconceito que o Sul do país tem com o nordestino.

CORREIO - "Brasilidade" foi um recado ao José Graziano, por conta das declarações desastradas do ministro no inicio do Governo Lula?

FLÁVIO JOSÉ - Não, não. Eu nunca gravei música assim com essa intenção de mandar recado pra ninguém. Eu acho que a gente canta o que o povo canta, o que povo sofre e o que o povo diz. Veja que o Brasil passa por muita coisa, com essa devastação lá da Amazônia e a gente espera que essas pessoas tenham o cuidado de ouvir uma música dessa. Inclusive eu peguei quase que a minha coleção, aqueles que considero os melhore discos e mandei pra o presidente Lula e apontando, pedindo que ele ouvisse "Brasilidade", "Cidadão Comum", "Cidade Grande", de Petrúcio Amorim. Esta última é a história de quem foi a São Paulo pela primeira vez e se encantou com aquela mostruosidade que é São Paulo. E eu fique muito feliz porque 15 dias depois eu recebi uma carta agradecendo pelos CDs. Foi maravilhoso pra mim, foi muito bom.

CORREIO - O que Flávio José acha do chamado forró estilizado?

FLÁVIO JOSÉ - Eu acho que tem espaço pra tudo. Agora, eu sempre bato numa tecla: acho que o forró estilizado não tem compromisso com a cultura. É tanto que a gente roda o mês de junho todinho por esse Nordeste fazendo shows e não encontra nenhuma banda dessas cantando "olha pra o céu meu amor, vê como ele está lindo..." Ninguém se lembra disso, pouco estão se importanto se ali é São João, se é ou não é, o que é. Ninguém canta os clássicos do São João que Luíz Gonzaga e o Trio Nordestino consagraram. É apenas com tristeza que a gente vê eles fazerem o mesmo repertório de janeiro a janeiro, com uma única preocupação: a de expor mulheres seminuas no palco, não sei, talvez para esconder a musicalidade.

CORREIO - Luiz Gonzaga chegou a gravar uma música homenageando Garanhuns. Você poderia também um dia cantar numa canção a chamada cidade das flores?

FLÁVIO JOSÉ - Mas eu ia ficar feliz demais, que eu adoro essas coisas. Eu gostaria que alguém que tivesse uma música desse tipo aí mandasse pra gente apreciar. Com certeza seria uma honra pra mim cantar alguma coisa que enaltecesse Garanhuns.

CORREIO - Nós falamos lá em cima de "Brasilidade", que é um verdadeiro hino nacionalista. Você que gravou essa e outras músicas com preocupações com este país, que acha do Brasil atual, o Brasil de Lula, o Brasil governado pelo PT?

FLÁVIO JOSÉ - Eu sempre acreditei no trabalho do presidente, na proposta dele, porque sinceramente, eu me vejo nele. Uma pessoa do interior, sofrida, que começou com dificuldades e tudo. E que tem as melhores das intenções pra fazer alguma coisa pelo Brasil. A gente entende que pegar uma casa desarrumada, cheia de problemas, como ele pegou, não é fácil. Mas tá tudo no caminho certo, é só a gente ter paciência e logo logo às coisas vão ficar no lugar, e aí começarão a surgir os frutos da proposta do presidente.