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Flávio José gostaria de gravar uma
música para Garanhuns
O forrozeiro Flávio José, natural de Monteiro, na
Paraíba, foi a atração principal da sexta noite
do último Festival de Inverno de Garanhuns. Cantou numa terça-feira,
um dia sem chuvas e com uma temperatura amena. Na noite anterior,
sua esposa, Ladja Betânia, juntamente com Lucinha Guerra,
Kelly Benevides e Edilza, tinha se apresentado para um público
reduzido. O intérprete de "Caboclo Sonhador", porém,
provou que tem inúmeros fãs espalhados por todo esse
Nordeste. E a Esplanada Cultural superlotou durante o seu show,
um dos melhores do evento realizado na Suíça Pernambucana.
Defensor do legítimo forró nordestino, na linha de
Luiz Gonzaga, sua maior referência musical, Flávio
José é um artista exigente, que não faz concessões
às produções descartáveis que infestam
as rádios de norte a sul do país. Por conta de suas
posições, este ano teve um problema no São
João de Caruaru e as rádios locais agora estão
boicotando seu trabalho. "É uma pena, porque eu perco
um pouco, as rádios perdem um pouco e o público também
perde", lamentou Flávio José, numa entrevista
a Edson Miranda, da Rádio Marano, ao falar do problema.
Nesta entrevista exclusiva ao Correio, Flávio José
elogia o Festival de Inverno de Garanhuns, admite uma preocupação
com o social nas músicas que canta e declara que ficaria
muito feliz eme gravar uma canção que falasse da nossa
cidade. Artista consciente, o forrozeiro paraibano revela uma grande
admiração pelo presidente Lula, a quem enviou recentemente
os principais discos de sua carreira, recebendo como resposta uma
carta simpática de agradecimento e reconhecimento de sua
trabalho. O cantor considera a situação do país
difícil, sabe que Lula pegou a casa "desarrumada",
mas está convencido de que o presidente, devido a sua origem
de homem pobre do interior é bem intencionado e vai colocar
o brasil nos trilhos. O texto e a edição são
de Roberto Almeida.
CORREIO - Quais são suas impressões
do Festival de Inverno de Garanhuns?
FLÁVIO JOSÉ - não só
minhas mais de todo mundo, de todo Brasil, são as melhores
possíveis pela consagrada que é o Festival de Inverno
desta cidade. E por esse evento ser assim uma coisa a nível
nacional, que traz tantas atrações também a
nível nacional, eu fico muito feliz por poder participar
dessa festa.
CORREIO - Pra você qual a diferença
de cantar no São João de Caruaru, uma festa de época,
e de se apresentar em Garanhuns, nesse evento que tem um caráter
mais eclético e cultural?
FLÁVIO JOSÉ - Olhe, a única
diferença é que o São João acontece
em junho e aqui a festa é no mês de julho. E aqui nós
percebemos que o público é tão grande quanto
o que a gente vê no São João por aí.
A importância é a mesma, porque aonde a gente vai,
vai com a proposta de resgatar a autêntica música nordestina.
CORREIO - Sua principal referência musical
é mesmo Luís Gonzaga?
FLÁVIO JOSÉ - Com certeza. Eu
comecei a amar o forró quando vi Luís Gonzaga em cima
de um caminhão, cantando em praça pública aqui
bem pertinho, em Arcoverde. Eu tava lá no final de semana,
com os familiares e acabei vendo esse show. E meus pais falaram
que foi daí por diante que eu enlouqueci por uma sanfoninha,
e daí eu iniciei minha vida na música.
CORREIO - Que outra grande influência
na sua carreira?
FLÁVIO JOSÉ - Trio Nordestino.
CORREIO - Você diria que sua música
tem uma preocupação social?
FLÁVIO JOSÉ - Eu gosto. Tem
sim. Eu fico feliz quando a gente encontra um tema como foi "O
Meu País", "Nordestino Lutador", "Brasilidade"
também, que é uma coisa belíssima. E também,
por que não dizer, "Cidadão Comum", que
fala daquela coisa do preconceito que o Sul do país tem com
o nordestino.
CORREIO - "Brasilidade" foi um recado
ao José Graziano, por conta das declarações
desastradas do ministro no inicio do Governo Lula?
FLÁVIO JOSÉ - Não, não.
Eu nunca gravei música assim com essa intenção
de mandar recado pra ninguém. Eu acho que a gente canta o
que o povo canta, o que povo sofre e o que o povo diz. Veja que
o Brasil passa por muita coisa, com essa devastação
lá da Amazônia e a gente espera que essas pessoas tenham
o cuidado de ouvir uma música dessa. Inclusive eu peguei
quase que a minha coleção, aqueles que considero os
melhore discos e mandei pra o presidente Lula e apontando, pedindo
que ele ouvisse "Brasilidade", "Cidadão Comum",
"Cidade Grande", de Petrúcio Amorim. Esta última
é a história de quem foi a São Paulo pela primeira
vez e se encantou com aquela mostruosidade que é São
Paulo. E eu fique muito feliz porque 15 dias depois eu recebi uma
carta agradecendo pelos CDs. Foi maravilhoso pra mim, foi muito
bom.
CORREIO - O que Flávio José acha
do chamado forró estilizado?
FLÁVIO JOSÉ - Eu acho que tem
espaço pra tudo. Agora, eu sempre bato numa tecla: acho que
o forró estilizado não tem compromisso com a cultura.
É tanto que a gente roda o mês de junho todinho por
esse Nordeste fazendo shows e não encontra nenhuma banda
dessas cantando "olha pra o céu meu amor, vê como
ele está lindo..." Ninguém se lembra disso, pouco
estão se importanto se ali é São João,
se é ou não é, o que é. Ninguém
canta os clássicos do São João que Luíz
Gonzaga e o Trio Nordestino consagraram. É apenas com tristeza
que a gente vê eles fazerem o mesmo repertório de janeiro
a janeiro, com uma única preocupação: a de
expor mulheres seminuas no palco, não sei, talvez para esconder
a musicalidade.
CORREIO - Luiz Gonzaga chegou a gravar uma música
homenageando Garanhuns. Você poderia também um dia
cantar numa canção a chamada cidade das flores?
FLÁVIO JOSÉ - Mas eu ia ficar
feliz demais, que eu adoro essas coisas. Eu gostaria que alguém
que tivesse uma música desse tipo aí mandasse pra
gente apreciar. Com certeza seria uma honra pra mim cantar alguma
coisa que enaltecesse Garanhuns.
CORREIO - Nós falamos lá em cima
de "Brasilidade", que é um verdadeiro hino nacionalista.
Você que gravou essa e outras músicas com preocupações
com este país, que acha do Brasil atual, o Brasil de Lula,
o Brasil governado pelo PT?
FLÁVIO JOSÉ - Eu sempre acreditei
no trabalho do presidente, na proposta dele, porque sinceramente,
eu me vejo nele. Uma pessoa do interior, sofrida, que começou
com dificuldades e tudo. E que tem as melhores das intenções
pra fazer alguma coisa pelo Brasil. A gente entende que pegar uma
casa desarrumada, cheia de problemas, como ele pegou, não
é fácil. Mas tá tudo no caminho certo, é
só a gente ter paciência e logo logo às coisas
vão ficar no lugar, e aí começarão a
surgir os frutos da proposta do presidente.
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