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CORREIO CULTURAL
Carlos Janduy
Crônica(s) do Festival
"No Clima do Festival"
Desde o dia 17 de junho que foi ao ar, de segunda a sábado,
pela Rádio Marano FM, No Clima do Festival, programa que
pelo segundo ano consecutivo, eu tive o prazer de produzir e apresentar.
Durante o evento deste ano, fizemos a sequência "Crônica
do Festival", escrita por alguns amigos meus, que generosamente
não hesitaram em contribuir com a idéia, que nasceu
do radialista Valdir Marino, quando fez parte da equipe de cobertura
da Marano FM, no Festival do ano passado. Como esta edição
é especialmente dedicada ao 13º FIG, achei por bem publicar
as crônicas lidas no programa, registrando assim, nesta coluna,
o sentimento e a opinião de algumas pessoas "que escrevem",
sobre este evento artístico-cultural que, indubitavelmente,
é o maior do gênero no Nordeste.
Chegou o Festival!
Chegou o Festival de Inverno. Garanhuns se faz menina, orvalhando
no brilho dos olhos que vêem arte.
Há "fog" sobre a cidade e a manta é de
ritmos que jamais embalam sonos. Acordam-se janelas e portas de
uma cidade que se acende para ver a cultura se exibir.
É assim que a Terra de Simoa fica mais bela e ganha mais
vida.
Lembro do que me disse o poeta: "o céu existe entre
sete colinas. Garanhuns é de lá". Outro, em delírio,
pede a Deus que invente Garanhuns e comece o céu por aqui.
O Festival chegou no luxo que se dá uma cidade que garoa
em pleno Nordeste. Bons ventos o tragam, para no trago do vinho
bendizermos o quanto a natureza é generosa conosco.
Às vezes, é mais inverno no rosto de muitos quando
a festa vai embora. Abrem-se córregos de lágrimas
que lubrificam a lembrança do último espetáculo.
O Festival de Inverno chegou e o nosso povo mostra que ir e vir
todos os dias, todas as noites, massageando as ruas e praças,
é a nossa exibição mais genuína do orgulho
que temos por cada centímetro quadrado desta Suíça,
inventada por nós.
Há nos lares gente nova que senta-se à mesa, invade
sala, o quarto, um cantinho do corredor da casa, para aconchegar-se
a nós.
É de quem tanto gostamos que queremos dividir o olhar para
a cidade que empresta seu brilho mais humano.
Chegou o Festival! E com ele, nuances de nós. Frescor de
hálitos do que comungamos juntos pelo mesmo gosto.
A cidade fala mais arte, mais cultura e fala mais alto. E em meu
canto, recanto meu, bate arte e cultura e bate forte o coração
que denuncia o quanto admiramos essa festa.
Chegou o Festival!!!
Radialista Gerson Lima - Mídia 3 (10/07/2003)
Festival de Inverno!
Que idéia!
Existem períodos onde a magia do tempo, do clima e das almas,
demonstra seu glamour com mais intensidade.
Para anunciar o verão, milhares de andorinhas promovem seu
espetáculo nos céus. O outono é marcado pela
queda das folhas, forrando os chãos com cores e formas. As
flores trazem o colorido que realça e o perfume que inebria,
anunciando gentilmente a primavera.
E no inverno, o frio anuncia a estação...
Ainda bem que para Garanhuns, o inverno traz muito mais...
Conta a lenda que um dia, um anjo agrestino, destes que anda pelas
veredas dos sítios e aos sábados vem à cidade
ver cantador e tomar caldo de cana nas feiras, achou a cidade triste
nos dias de inverno.
Sentindo que essa situação poderia mudar, cochichou
em sonho ao ouvido de um garanhuense que a cidade poderia ser no
inverno, uma grande feira cultural, onde as cores, os sons e os
sabores se juntassem ao clima à imensa capacidade de produzir
arte do homem do interior.
Nascia a idéia do Festival de Inverno. E que idéia
!
Hoje, para anunciar o inverno, temos sim, o frio, o frio que em
Garanhuns é fundido com a arte. O frio gostoso que esfria
o corpo, mas aquece o ego e o orgulho de cada pessoa que pode desfrutar
dessa magia.
Para anunciar o inverno, Garanhuns tem música, tem arte,
tem cores, tem menino vendendo amendoim nas ruas, restaurantes oferecendo
chocolate quente, bares da periferia alardeando "o melhor caldinho
que você já provou ".
Para anunciar o inverno, Garanhuns tem uma marca invejável
de 13 festivais; uma história de namoros que começam
(outros que terminam!) aos sons do batuque na avenida, dos violinos
do pau-pombo, do pé-de-serra do Parque dos Eucaliptos ou
do coco da avenida Santo Antônio.
Para anunciar o inverno, nós temos, além do frio
característico, a chuva amena, os casacos e luvas (que as
pessoas podem até encontrar em outros lugares), o maior festival
de inverno do Brasil. Esse, só nós podemos anunciar.
Publicitário Marcelo Jorge - Free Idéia
(11/07/2003)
Um Olhar de Turista
Pôr-se fora da rotina. Olhar para a cidade como se não
fôra a mesma. O casaco de lã há tanto tempo
guardado como se não fôra seu. Este o homem, apesar
do mesmo homem, agora outro; - porque se cobre de uma estação
nova, feita de nuvens baixas, rentes ao chão, que lhe ensina
a enxergar na terra as coisas do céu.
Nessa época, outro olhar se debruça sobre os velhos
afazeres, como se não fosse apenas para ganhar a vida, o
trabalho. Por isso a vassoura se põe em pé na mão
do gari e dança na rua - de repente a mulher dos melhores
sonhos do rapaz da limpeza pública -, e o homem de terno
e gravata tamborila uma música no couro da sua pasta e ri
alvíssimo sorriso embaixo dos óculos escuros.
Nesse tempo, quando aqui aporta tanta gente nova, disposta a olhar
de novo o mundo - aquele olhar próprio de quem se põe
turista - aprendamos com ela a dar sobre as nossas velhas coisas
olhar antigo de descoberta, e sejamos outro - capaz de se dar conta
das flores desabrochadas à margem do passeio - que tantas
vezes fazemos - e da moça - simples como todo dia - indo
de manhã para o trabalho, que ri sozinha para um sonho que
ainda guarda no coração.
Dr. Paulo Gervais - Academia de Letras de
Garanhuns (12/07/2003)
Um Clima Diferente
Desde o início do mês que a terra das sete colinas
vive um clima diferente.
Está presente nas serras que cercam a cidade, no frio que
se aloja dentro dos lares da Boa Vista, Brasília e Heliópolis,
e ainda garoa visível na Bela Vista, no Indiano e principalmente
no Magano.
Um clima que incentiva noites de queijos e vinhos, um bom papo
e agasalhos vistosos, deixando as mocinhas mais belas e os rapazes
mais afoitos.
Nas lojas do centro, decoradas para a ocasião, o colorido
dá o tom alegre da época. Nas rádios, as músicas
descartáveis são substituídas por um som mais
refinado.
O trânsito até parece o da cidade grande. Turistas
fotografam o relógio de flores, e o Pau-pombo recebe os mestres
da música instrumental.
Salve o parque Euclides Dourado, com a mistura de dança,
espetáculos circenses, forró e música pop.
Antes de acabar a noite, na Esplanada Cultural Guadalajara, jovens
de todas as idades namoram, inebriados pelo amor e pelo vinho, sem
esquecer de tomar um chocolate quente para aquecer o coração.
É um clima diferente, particular. É o clima de Garanhuns.
É o Festival de Inverno.
Jornalista Roberto Almeida - Correio Sete
Colinas e Jornal Marano (13/07/2003)
Transe
O Festival de Inverno de Garanhuns atrai cada vez mais turistas,
que se encantam com suas atrações, com o clima agradável
da cidade, com a gastronomia e com o charme especial que poucas
cidades têm. Há, por esta época, uma grande
concentração de pessoas interessantes e alegres que
têm a admirável capacidade de deixar ainda mais bonita
esta terra.
Há, porém, ainda mais um atrativo, este espiritual:
é o transe a que nos leva à arte. É impossível
não se emocionar ao ver, ouvir, sentir Naná Vasconcelos,
Lenine, Alderjan, Fafá de Belém ou Lula Queiroga,
por exemplo. As vozes tocam a alma. É a mesma emoção
que dá o arrepio que leva ao aplauso numa peça de
teatro ou num apresentação de dança. A emoção
que leva ao deslumbramento embasbacado de se ouvir um solo de sax
no Pau-pombo.
É a emoção que faz pular ao som dos Caboclinhos
de Sete Flechas e surpreende com antiquíssima magia do circo.
Sim, é um transe, esta emoção; um transe quase
religioso e que nos leva a um culto sublime, o culto à arte,
à representação do belo, à representação
do povo, que de pernambuco-brasileiro vira-se universal.
Culto; cultura.
Marília Jackelyne Nunes - Estudante
de Direito na UFPE (14/07/2003)
Os Palcos do Festival
Saí pela rua, um dia destes do Festival de Inverno. Andar
pela cidade satisfaz-me, muitas vezes, passar só pela avenida
Santo Antônio. Tomar as suas calçadas largas, os seus
degraus, e ir pelo "torcicolo charro", da poesia de Ruber
van der Linden. O primeiro palco, o da avenida. Grupos folclóricos
dançam no estrado, e as cores, e os sons recompõem
paisagens de antes. Eram os índios, os negros fugitivos,
a gente simples de folguedos bizarros, que vinham e iam pela avenida,
ainda de chão de barro. Na minha lembrança, os acontecimentos,
todas as festas deste palco - a dor também, mas sempre a
alegria renovando a avenida. A antiga igreja de Santo Antônio,
das paredes sustentando mais de um século, com a imagem no
topo e a graça e as linhas descendo até o primeiro
degrau. Avenida, da minha casa, dos meus passos de menino, dos meus
pés descalços, que cresceram com ela. Essa dança
dos anos, das lembranças dos passistas que se foram, dos
carnavais que não voltaram mais.
Julho chegou, o meu julho frio e enevoado de uma madrugada longínqua,
quando chorei o primeiro choro. Hoje, o meu julho é alegre
e multiplica palcos, como se perpetua a avenida numa pauta musical.
Outros palcos, do Festival, todos molhados, como fica molhada a
cidade, de julho. Praças e colinas embranquecidas com o alvo
da névoa e da garoa fina... 7 noivas nas colinas à
espera do noivo, que sou eu e todos os poetas, e todos os visitantes
e andarilhos do tempo, que nos palcos da alegria não escutam
apenas os anúncios dos derradeiros artistas, mas, de todas
as vozes os gritos retumbantes da festa, do colorido e da graça
desta cidade.
Desci da Boa Vista, com a contemplação do meu bairro
nos olhos, e fui, de um a um, visitando os palcos. O da Guadalajara,
com o trem passando pelo meio, apitando, puco-puco, e trazendo a
gente de fora, de Recife, dos confins e da Europa. O povo de cá
acena, todos acenam de braços erguidos, a multidão
aplaude e dá vivas no Festival. O trem apitando passa, com
a musicalidade de julho, com o meu grito de criança, com
a voz de Augusto Calheiros, de Dominguinhos, do Quinteto Violado,
e de todos os cantos e palavras e poesias. Os parques, o de Euclides
Dourado, que se doura de outros ouros agora. Já não
é só o verde, a clorofila da folhagem, dos troncos
dos eucalíptos, o murmulho brando dos galhos... a festa traz
neste julho, mil tambores e guitarras, que se embrenham na mata
da praça e assobiam e dançam e rodopiam com os pés
dos eucalíptos, numa dança da natureza e dos gigantes
alegres. Pau Pombo, do parque do poeta Ruber van der Linden a reunir
músicas e flores. Este poeta, achou pouco, e fez o parque,
como quem erige poesia, de engenheiro, com planta de construção
e tudo. Foi feliz, levantando árvores e fontes, igualzinho
ao jardim do Paraíso... sou de lá também. O
meu julho brincando nos carrocéis do Pau Pombo, ou do tempo
de estudante, em que ia estudar latim na praça, ou do tempo
de enamorado das moças bonitas, ou, enfim, da sensualidade
do lugar. Chego ao parque e, antes de escutar o concerto deste Festival
de Inverno, ouço nos ouvidos inevitáveis o canto das
cigarras, a algazarra dos meninos brincando, e cai tudo na alma
como umas trombetas do céu. O povo se aproxima numa pequena
multidão - outra das árvores - e brota neste jardim,
de eterna musicalidade. Ah! Meu parque Pau Pombo, não sei,
entre outros parques ou entre outros palcos, em qual cante mais
ou dance este Festival de Inverno... Ando, passo por todos, sempre
com a Boa Vista nos olhos, embalado pelo mimo de julho, que é
como os braços meigos desta minha cidade bonita, esta cidade-festival,
Garanhuns!
João Marques - Presidente da Academia
de Letras de Garanhuns e Editor do Jornal O Século (15/07/2003)
Declaração de Amor
"O que você faria se só te restasse um dia?",
Pergunta uma canção popular. Afinal, chegamos ao último
dia do Festival de Inverno. Seria possível lamentar, ou injuriar.
Mas é preciso que se declare.
Sim, pois isto não é uma crônica. É
uma declaração de amor. Para ser específico,
são algumas declarações de amor: a uma cidade,
seus cultos, sua cultura, sua índole.
Cidade esta que foi acarinhada e nos acarinhou nos últimos
dias com a estonteante beleza de peças teatrais que em dado
momento sedimentou em nós o amor pela terra que nos pariu
e noutros momentos nos introduziu no universo assombroso e absorvente
de histórias acerca de botijas, homens justos e corajosos,
porém, amaldiçoados, audaciosas mulheres belas e intrigantes,
vidas de belezas inefáveis, mal-assombrosos e cantigas.
Como esquecer o som excepcional praticado no Pau Pombo e no Euclides
Dourado, que com suas guitarras mágicas, seus violões
inebriantes, seus tambores, suas flautas encantadas, conseguiu reviver
em nós o reflexo de nós mesmos refletidos no espelho
de nossa alma.
Inesquecíveis também os ritmos negros e indígenas
da Av. Santo Antônio que com suas rudes dialéticas
relembraram os caminhos trilhados pelos nossos ancestrais no curso
incerto do tempo. Sons e danças que curam e acalmam.
Há ainda, e como sempre houve, a grande comunhão
da Praça Guadalajara enfeitada e engrandecida pelas imprescindíveis
presenças não apenas de artistas renomados, mas também
pelas gratas surpresas que lá se apresentaram, pelos turistas,
profissionais da imprensa, população local, e todos
aqueles que de fato se sentem como útero deste grande festival.
Mas esta declaração ficaria incompleta sem darmos
voz à peça principal de toda esta engrenagem: a cidade
de Garanhuns, que com sua beleza e clima peculiares tornou possível
incutir no seu povo, e nos que a ela se achegam, essa predisposição
para a cultura. É justamente por isso que se pergunta: por
que a efervescência não permeia todo o ano? A cidade
pede e exige uma resposta.
"É preciso ter sempre Garanhuns sob os pés e
a mente na imensidão".
Mário Rodrigues - Escritor (19/07/2003)
Salve o Festival!
Final de mais um Festival... Festival de sonhos... Sonhos palpáveis,
porque esses dias serviram de leito para a arte, para a cultura
e para que nossa cidade, de clima frio, aquecesse os turistas, os
artistas e também sua gente - como quisesse despertá-la,
abrir seus olhos para o que ela é, o que ela representa para
nós e para Pernambuco.
Salve o Palco da Cultura Popular! Quanta riqueza, meu Deus! Como
são fortes nossas raízes!
Salve o Parque Euclides Dourado, com seus diversos palcos e suas
atraentes opções!
Salve as Oficinas Pedagógicas, sempre plantando sementes
culturais, para serem regadas pelo tempo!
Salve o Parque Ruber van der Linden, com Sua Excelência,
a Música Instrumental!
Salve o Teatro Luís Souto Dourado, que nesses dias, viveu
mais intensamente a magia das artes cênicas!
Salve a Praça Guadalajara, que acolheu carinhosamente todo
o público que por lá passou, independente, claro,
do seu gosto musical, de suas exigências!
Salve as atrações da terra! APENAS OITO, mas que
marcaram de forma contundente os palcos deste Festival, pelos quais
tiveram a oportunidade de se apresentar.
Salve todos aqueles que contribuíram para que o 13º
FIG atingisse o êxito desejado!
Salve... Salve o Festival de Inverno de Garanhuns!!!
Carlos Janduy (19/07/2003)
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