Garanhuns, 23 de julho de 2003
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CORREIO CULTURAL

Carlos Janduy


Crônica(s) do Festival


"No Clima do Festival"

Desde o dia 17 de junho que foi ao ar, de segunda a sábado, pela Rádio Marano FM, No Clima do Festival, programa que pelo segundo ano consecutivo, eu tive o prazer de produzir e apresentar. Durante o evento deste ano, fizemos a sequência "Crônica do Festival", escrita por alguns amigos meus, que generosamente não hesitaram em contribuir com a idéia, que nasceu do radialista Valdir Marino, quando fez parte da equipe de cobertura da Marano FM, no Festival do ano passado. Como esta edição é especialmente dedicada ao 13º FIG, achei por bem publicar as crônicas lidas no programa, registrando assim, nesta coluna, o sentimento e a opinião de algumas pessoas "que escrevem", sobre este evento artístico-cultural que, indubitavelmente, é o maior do gênero no Nordeste.


Chegou o Festival!

Chegou o Festival de Inverno. Garanhuns se faz menina, orvalhando no brilho dos olhos que vêem arte.

Há "fog" sobre a cidade e a manta é de ritmos que jamais embalam sonos. Acordam-se janelas e portas de uma cidade que se acende para ver a cultura se exibir.

É assim que a Terra de Simoa fica mais bela e ganha mais vida.

Lembro do que me disse o poeta: "o céu existe entre sete colinas. Garanhuns é de lá". Outro, em delírio, pede a Deus que invente Garanhuns e comece o céu por aqui.

O Festival chegou no luxo que se dá uma cidade que garoa em pleno Nordeste. Bons ventos o tragam, para no trago do vinho bendizermos o quanto a natureza é generosa conosco.

Às vezes, é mais inverno no rosto de muitos quando a festa vai embora. Abrem-se córregos de lágrimas que lubrificam a lembrança do último espetáculo.

O Festival de Inverno chegou e o nosso povo mostra que ir e vir todos os dias, todas as noites, massageando as ruas e praças, é a nossa exibição mais genuína do orgulho que temos por cada centímetro quadrado desta Suíça, inventada por nós.


Há nos lares gente nova que senta-se à mesa, invade sala, o quarto, um cantinho do corredor da casa, para aconchegar-se a nós.

É de quem tanto gostamos que queremos dividir o olhar para a cidade que empresta seu brilho mais humano.

Chegou o Festival! E com ele, nuances de nós. Frescor de hálitos do que comungamos juntos pelo mesmo gosto.

A cidade fala mais arte, mais cultura e fala mais alto. E em meu canto, recanto meu, bate arte e cultura e bate forte o coração que denuncia o quanto admiramos essa festa.

Chegou o Festival!!!

Radialista Gerson Lima - Mídia 3 (10/07/2003)



Festival de Inverno!
Que idéia!

Existem períodos onde a magia do tempo, do clima e das almas, demonstra seu glamour com mais intensidade.

Para anunciar o verão, milhares de andorinhas promovem seu espetáculo nos céus. O outono é marcado pela queda das folhas, forrando os chãos com cores e formas. As flores trazem o colorido que realça e o perfume que inebria, anunciando gentilmente a primavera.

E no inverno, o frio anuncia a estação...

Ainda bem que para Garanhuns, o inverno traz muito mais...

Conta a lenda que um dia, um anjo agrestino, destes que anda pelas veredas dos sítios e aos sábados vem à cidade ver cantador e tomar caldo de cana nas feiras, achou a cidade triste nos dias de inverno.

Sentindo que essa situação poderia mudar, cochichou em sonho ao ouvido de um garanhuense que a cidade poderia ser no inverno, uma grande feira cultural, onde as cores, os sons e os sabores se juntassem ao clima à imensa capacidade de produzir arte do homem do interior.

Nascia a idéia do Festival de Inverno. E que idéia !

Hoje, para anunciar o inverno, temos sim, o frio, o frio que em Garanhuns é fundido com a arte. O frio gostoso que esfria o corpo, mas aquece o ego e o orgulho de cada pessoa que pode desfrutar dessa magia.

Para anunciar o inverno, Garanhuns tem música, tem arte, tem cores, tem menino vendendo amendoim nas ruas, restaurantes oferecendo chocolate quente, bares da periferia alardeando "o melhor caldinho que você já provou ".

Para anunciar o inverno, Garanhuns tem uma marca invejável de 13 festivais; uma história de namoros que começam (outros que terminam!) aos sons do batuque na avenida, dos violinos do pau-pombo, do pé-de-serra do Parque dos Eucaliptos ou do coco da avenida Santo Antônio.

Para anunciar o inverno, nós temos, além do frio característico, a chuva amena, os casacos e luvas (que as pessoas podem até encontrar em outros lugares), o maior festival de inverno do Brasil. Esse, só nós podemos anunciar.

Publicitário Marcelo Jorge - Free Idéia (11/07/2003)



Um Olhar de Turista

Pôr-se fora da rotina. Olhar para a cidade como se não fôra a mesma. O casaco de lã há tanto tempo guardado como se não fôra seu. Este o homem, apesar do mesmo homem, agora outro; - porque se cobre de uma estação nova, feita de nuvens baixas, rentes ao chão, que lhe ensina a enxergar na terra as coisas do céu.

Nessa época, outro olhar se debruça sobre os velhos afazeres, como se não fosse apenas para ganhar a vida, o trabalho. Por isso a vassoura se põe em pé na mão do gari e dança na rua - de repente a mulher dos melhores sonhos do rapaz da limpeza pública -, e o homem de terno e gravata tamborila uma música no couro da sua pasta e ri alvíssimo sorriso embaixo dos óculos escuros.

Nesse tempo, quando aqui aporta tanta gente nova, disposta a olhar de novo o mundo - aquele olhar próprio de quem se põe turista - aprendamos com ela a dar sobre as nossas velhas coisas olhar antigo de descoberta, e sejamos outro - capaz de se dar conta das flores desabrochadas à margem do passeio - que tantas vezes fazemos - e da moça - simples como todo dia - indo de manhã para o trabalho, que ri sozinha para um sonho que ainda guarda no coração.

Dr. Paulo Gervais - Academia de Letras de Garanhuns (12/07/2003)



Um Clima Diferente

Desde o início do mês que a terra das sete colinas vive um clima diferente.

Está presente nas serras que cercam a cidade, no frio que se aloja dentro dos lares da Boa Vista, Brasília e Heliópolis, e ainda garoa visível na Bela Vista, no Indiano e principalmente no Magano.

Um clima que incentiva noites de queijos e vinhos, um bom papo e agasalhos vistosos, deixando as mocinhas mais belas e os rapazes mais afoitos.

Nas lojas do centro, decoradas para a ocasião, o colorido dá o tom alegre da época. Nas rádios, as músicas descartáveis são substituídas por um som mais refinado.

O trânsito até parece o da cidade grande. Turistas fotografam o relógio de flores, e o Pau-pombo recebe os mestres da música instrumental.

Salve o parque Euclides Dourado, com a mistura de dança, espetáculos circenses, forró e música pop.

Antes de acabar a noite, na Esplanada Cultural Guadalajara, jovens de todas as idades namoram, inebriados pelo amor e pelo vinho, sem esquecer de tomar um chocolate quente para aquecer o coração.

É um clima diferente, particular. É o clima de Garanhuns. É o Festival de Inverno.

Jornalista Roberto Almeida - Correio Sete Colinas e Jornal Marano (13/07/2003)



Transe

O Festival de Inverno de Garanhuns atrai cada vez mais turistas, que se encantam com suas atrações, com o clima agradável da cidade, com a gastronomia e com o charme especial que poucas cidades têm. Há, por esta época, uma grande concentração de pessoas interessantes e alegres que têm a admirável capacidade de deixar ainda mais bonita esta terra.

Há, porém, ainda mais um atrativo, este espiritual: é o transe a que nos leva à arte. É impossível não se emocionar ao ver, ouvir, sentir Naná Vasconcelos, Lenine, Alderjan, Fafá de Belém ou Lula Queiroga, por exemplo. As vozes tocam a alma. É a mesma emoção que dá o arrepio que leva ao aplauso numa peça de teatro ou num apresentação de dança. A emoção que leva ao deslumbramento embasbacado de se ouvir um solo de sax no Pau-pombo.

É a emoção que faz pular ao som dos Caboclinhos de Sete Flechas e surpreende com antiquíssima magia do circo.

Sim, é um transe, esta emoção; um transe quase religioso e que nos leva a um culto sublime, o culto à arte, à representação do belo, à representação do povo, que de pernambuco-brasileiro vira-se universal.

Culto; cultura.

Marília Jackelyne Nunes - Estudante de Direito na UFPE (14/07/2003)



Os Palcos do Festival

Saí pela rua, um dia destes do Festival de Inverno. Andar pela cidade satisfaz-me, muitas vezes, passar só pela avenida Santo Antônio. Tomar as suas calçadas largas, os seus degraus, e ir pelo "torcicolo charro", da poesia de Ruber van der Linden. O primeiro palco, o da avenida. Grupos folclóricos dançam no estrado, e as cores, e os sons recompõem paisagens de antes. Eram os índios, os negros fugitivos, a gente simples de folguedos bizarros, que vinham e iam pela avenida, ainda de chão de barro. Na minha lembrança, os acontecimentos, todas as festas deste palco - a dor também, mas sempre a alegria renovando a avenida. A antiga igreja de Santo Antônio, das paredes sustentando mais de um século, com a imagem no topo e a graça e as linhas descendo até o primeiro degrau. Avenida, da minha casa, dos meus passos de menino, dos meus pés descalços, que cresceram com ela. Essa dança dos anos, das lembranças dos passistas que se foram, dos carnavais que não voltaram mais.

Julho chegou, o meu julho frio e enevoado de uma madrugada longínqua, quando chorei o primeiro choro. Hoje, o meu julho é alegre e multiplica palcos, como se perpetua a avenida numa pauta musical. Outros palcos, do Festival, todos molhados, como fica molhada a cidade, de julho. Praças e colinas embranquecidas com o alvo da névoa e da garoa fina... 7 noivas nas colinas à espera do noivo, que sou eu e todos os poetas, e todos os visitantes e andarilhos do tempo, que nos palcos da alegria não escutam apenas os anúncios dos derradeiros artistas, mas, de todas as vozes os gritos retumbantes da festa, do colorido e da graça desta cidade.

Desci da Boa Vista, com a contemplação do meu bairro nos olhos, e fui, de um a um, visitando os palcos. O da Guadalajara, com o trem passando pelo meio, apitando, puco-puco, e trazendo a gente de fora, de Recife, dos confins e da Europa. O povo de cá acena, todos acenam de braços erguidos, a multidão aplaude e dá vivas no Festival. O trem apitando passa, com a musicalidade de julho, com o meu grito de criança, com a voz de Augusto Calheiros, de Dominguinhos, do Quinteto Violado, e de todos os cantos e palavras e poesias. Os parques, o de Euclides Dourado, que se doura de outros ouros agora. Já não é só o verde, a clorofila da folhagem, dos troncos dos eucalíptos, o murmulho brando dos galhos... a festa traz neste julho, mil tambores e guitarras, que se embrenham na mata da praça e assobiam e dançam e rodopiam com os pés dos eucalíptos, numa dança da natureza e dos gigantes alegres. Pau Pombo, do parque do poeta Ruber van der Linden a reunir músicas e flores. Este poeta, achou pouco, e fez o parque, como quem erige poesia, de engenheiro, com planta de construção e tudo. Foi feliz, levantando árvores e fontes, igualzinho ao jardim do Paraíso... sou de lá também. O meu julho brincando nos carrocéis do Pau Pombo, ou do tempo de estudante, em que ia estudar latim na praça, ou do tempo de enamorado das moças bonitas, ou, enfim, da sensualidade do lugar. Chego ao parque e, antes de escutar o concerto deste Festival de Inverno, ouço nos ouvidos inevitáveis o canto das cigarras, a algazarra dos meninos brincando, e cai tudo na alma como umas trombetas do céu. O povo se aproxima numa pequena multidão - outra das árvores - e brota neste jardim, de eterna musicalidade. Ah! Meu parque Pau Pombo, não sei, entre outros parques ou entre outros palcos, em qual cante mais ou dance este Festival de Inverno... Ando, passo por todos, sempre com a Boa Vista nos olhos, embalado pelo mimo de julho, que é como os braços meigos desta minha cidade bonita, esta cidade-festival, Garanhuns!

João Marques - Presidente da Academia de Letras de Garanhuns e Editor do Jornal O Século (15/07/2003)



Declaração de Amor

"O que você faria se só te restasse um dia?", Pergunta uma canção popular. Afinal, chegamos ao último dia do Festival de Inverno. Seria possível lamentar, ou injuriar. Mas é preciso que se declare.

Sim, pois isto não é uma crônica. É uma declaração de amor. Para ser específico, são algumas declarações de amor: a uma cidade, seus cultos, sua cultura, sua índole.

Cidade esta que foi acarinhada e nos acarinhou nos últimos dias com a estonteante beleza de peças teatrais que em dado momento sedimentou em nós o amor pela terra que nos pariu e noutros momentos nos introduziu no universo assombroso e absorvente de histórias acerca de botijas, homens justos e corajosos, porém, amaldiçoados, audaciosas mulheres belas e intrigantes, vidas de belezas inefáveis, mal-assombrosos e cantigas.

Como esquecer o som excepcional praticado no Pau Pombo e no Euclides Dourado, que com suas guitarras mágicas, seus violões inebriantes, seus tambores, suas flautas encantadas, conseguiu reviver em nós o reflexo de nós mesmos refletidos no espelho de nossa alma.

Inesquecíveis também os ritmos negros e indígenas da Av. Santo Antônio que com suas rudes dialéticas relembraram os caminhos trilhados pelos nossos ancestrais no curso incerto do tempo. Sons e danças que curam e acalmam.

Há ainda, e como sempre houve, a grande comunhão da Praça Guadalajara enfeitada e engrandecida pelas imprescindíveis presenças não apenas de artistas renomados, mas também pelas gratas surpresas que lá se apresentaram, pelos turistas, profissionais da imprensa, população local, e todos aqueles que de fato se sentem como útero deste grande festival.

Mas esta declaração ficaria incompleta sem darmos voz à peça principal de toda esta engrenagem: a cidade de Garanhuns, que com sua beleza e clima peculiares tornou possível incutir no seu povo, e nos que a ela se achegam, essa predisposição para a cultura. É justamente por isso que se pergunta: por que a efervescência não permeia todo o ano? A cidade pede e exige uma resposta.

"É preciso ter sempre Garanhuns sob os pés e a mente na imensidão".

Mário Rodrigues - Escritor (19/07/2003)



Salve o Festival!

Final de mais um Festival... Festival de sonhos... Sonhos palpáveis, porque esses dias serviram de leito para a arte, para a cultura e para que nossa cidade, de clima frio, aquecesse os turistas, os artistas e também sua gente - como quisesse despertá-la, abrir seus olhos para o que ela é, o que ela representa para nós e para Pernambuco.

Salve o Palco da Cultura Popular! Quanta riqueza, meu Deus! Como são fortes nossas raízes!

Salve o Parque Euclides Dourado, com seus diversos palcos e suas atraentes opções!

Salve as Oficinas Pedagógicas, sempre plantando sementes culturais, para serem regadas pelo tempo!

Salve o Parque Ruber van der Linden, com Sua Excelência, a Música Instrumental!

Salve o Teatro Luís Souto Dourado, que nesses dias, viveu mais intensamente a magia das artes cênicas!

Salve a Praça Guadalajara, que acolheu carinhosamente todo o público que por lá passou, independente, claro, do seu gosto musical, de suas exigências!

Salve as atrações da terra! APENAS OITO, mas que marcaram de forma contundente os palcos deste Festival, pelos quais tiveram a oportunidade de se apresentar.

Salve todos aqueles que contribuíram para que o 13º FIG atingisse o êxito desejado!

Salve... Salve o Festival de Inverno de Garanhuns!!!

Carlos Janduy (19/07/2003)