Garanhuns, 24 de maio de 2003
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ENTREVISTA
 

Cacau explica porque não dá sossego a Silvino

Eleito com pouco mais de 600 votos para a Câmara Municipal, o vereador José Carlos Santos, conhecido popularmente como Cacau, tem exercido no Legislativo uma oposição implacável ao prefeito Silvino Andrade. Por conta de suas denúncias, o parlamentar chegou a ser condenado pela Justiça, em primeira instância, tendo que indenizar o chefe do Executivo local em R$ 100 mil.

Mesmo depois dessa ação do prefeito, porém, Cacau continua a bater no prefeito, a levantar suspeitas sobre alguns atos da administração pública e a fazer propostas que na maioria das vezes não são levadas em consideração por Silvino Andrade. Há pouco tempo mesmo, o vereador disse que existia uma "mala preta" no município, já que o titular no Poder Executivo se nega a revelar os valores dos contratos firmados pela municipalidade.

Nessa entrevista ao Correio, José Carlos Santos falou o tempo quase todo do prefeito, que no seu entender não tem o menor respeito pelos vereadores do município, mesmo os seus aliados. Consciente de que está cumprindo o seu papel de parlamentar, Cacau declarou que não está interessado em obter dividendos eleitorais dessa postura. "Acontece que me sinto bem cumprindo meu dever", revela.

Na conversa com o jornalista Roberto Almeida, editor do periódico, o vereador Cacau explicou como começou o seu desentendimento com o prefeito Silvino Andrade.


CORREIO - Inicialmente eu gostaria de saber se o Sr. está satisfeito com o seu trabalho de vereador? Se é gratificante representar o povo de Garanhuns na Câmara Municipal?

CACAU - Eu estou muito satisfeito com a Câmara e com meu trabalho. Agora, têm coisas que nos deixam um pouco desgostosos, pois nós vereadores muitas vezes não conseguimos atingir os nossos objetivos. Fazemos requerimentos, apresentamos propostas, queremos beneficiar determinada rua e não recebemos nem resposta por parte do prefeito. Se a solicitação for para o Corpo de Bombeiros ou o Governo do Estado, teremos pelo menos uma resposta, mas o Governo de Garanhuns esse não nos dá nenhuma satisfação.

CORREIO - E o vereador tem apresentado muitos projetos na Câmara?

CACAU - Tenho procurado fiscalizar o Executivo e apresentado propostas diversas, no sentido de conseguir o desenvolvimento do município. Eu tenho aqui o primeiro requerimento, de fevereiro de 2001, pedindo o complemento da rua que dá acesso ao Cristo do Magano, bem como a iluminação daquela área. Eu tinha um espaço do partido na TV e coloquei 60 vezes na programação, divulgando minha proposta e esse ponto turístico da cidade. E nunca recebi nenhuma resposta do prefeito.

CORREIO - No seu entender por que isso ocorre? É para não respeitar ou valorizar o trabalho do vereador de Oposição?

CACAU - Não é uma questão de respeitar o vereador de oposição é respeitar o poder. Nenhum vereador, mesmo os do Governo, recebem resposta do Executivo as suas proposições.

CORREIO - E como os parlamentares ligados ao governo reagem a isso?

CACAU - Eles reclamam. No plenário falam, desabafam. Mas como são vinculados ao prefeito temem denunciá-lo. Por isso aguentam o abuso calados.

CORREIO - Mas a Câmara poderia tomar alguma atitude concreta em relação a essa prática?

CACAU - Veja bem, hoje existe uma lei municipal que dá 30 dias ao prefeito para responder os pedidos de informação ou requerimentos dos vereadores. Eu ampliei esse prazo para 45 dias, por considerar o prazo de um mês pequeno. Mas continua do mesmo jeito, continuamos sem receber satisfação do Executivo.

CORREIO - Dizem que essa oposição cerrada que o Sr. faz ao prefeito é por questões pessoais, por que Silvino teria deixado de alugar os carros de sua empresa. É verdade que sua briga é por conta de interesses contrariados?

CACAU - A pessoa do prefeito de Garanhuns merece minha admiração. Como empresário sempre fui atendido cordialmente pelos que fazem o Executivo. Devo registrar também que sempre me pagaram em dia, nunca atrasou um mês sequer. Agora, quando me elegi vereador, no primeiro dia Dr. Silvino ligou pra mim e perguntou se eu seria oposição. Disse que sim, pois pertenço ao grupo de Izaías, e acrescentei que votaria nas propostas do Governo que fossem boas para Garanhuns. Então veio a questão daquelas barracas próximas ao Colégio XV, que a prefeitura mandou derrubar. Três barracas foram indenizadas e teve uma outra, que o dono não fez o acordo, que o prefeito mandou derrubar, mesmo o rapaz estando lá, com a família dentro. Ora, esse caso foi pior do que aquele mostrado na TV, que comoveu o Brasil inteiro.

O dono desse barraco veio me pedir ajuda e aí eu chamei a polícia, o Corpo de Bombeiro e a TV Asa Branca, conseguindo impedir a derrubada da casinha do rapaz. Inicialmente a prefeitura iria pagar R$ 2 mil de indenização ao proprietário e terminou pagando R$ 10 mil, metade desse valor foi pago na justiça, porque racharam a casa do rapaz. A briga começou assim. Ainda fui chamado pelo secretário de Finanças, Hélio Amorim, que me disse que o prefeito estaria disposto a me perdoar, mas não perdoava Izaías. Eu disse que o caso de Izaías era um e comigo a história era outra. Daí o prefeito trouxe uma firma do Recife e deixou de alugar os carros da Locar e das duas outras empresas de Garanhuns.

CORREIO - O Sr. diz que é mais fácil conseguir uma resposta do Governo do Estado do que da prefeitura a uma solicitação da Câmara. Pessoalmente já teve algum pleito atendido por parte do Governo Jarbas?

CACAU - Uma das solicitações que fiz ao Governo do Estado foi a compra de quatro bombas novas, pela Compesa, para melhoria do sistema de abastecimento d'água da cidade. Recebi resposta, as bombas foram compradas e vão melhorar em 30% a distribuição de água nas torneiras.

CORREIO - Um colega seu de Câmara disse outro dia numa rádio da cidade que o Legislativo é subserviente ao Executivo. Cacau concorda com esta afirmativa?

CACAU - Hoje melhorou muito, com o vereador Sivaldo Albino, que tem sabido se comportar como presidente de um poder. Mesmo sendo aliado do prefeito, ele tem se conduzido como presidente da Câmara com altivez e independência. Pelo menos na Mesa Diretora ele não exerce o papel de advogado do prefeito.

CORREIO - Por que motivo o vereador critica a praça de eventos construída pelo prefeito Silvino?

CACAU - Se um caminhão encostar no piso da Guadalajara, no Festival de Inverno, para descarregar alguma coisa, aquele negócio ali afunda. O piso cede porque ali tem um palmo de areia. E aquelas pedras portuguesas são inadequadas para o pátio de eventos. Um trio elétrico não entra ali e nem mesmo as moças vão poder dançar naquele local porque o sapato engancha. E sou capaz de apostar de que se colocar um caminhão na praça esse caminhão afunda, inclusive isso já aconteceu com um veiculo dos evangélicos.

CORREIO - O fato do prefeito não dar atenção as suas críticas significa que ele não leva a sério a sua atuação?

CACAU - Eu não sei. Mas é preciso ver que hoje as coisas mudaram muito. O Brasil mudou e Garanhuns também. Veja como atualmente as rádios da cidade estão abertas ao povo e existem aqui jornais de qualidade, como o Correio Sete Colinas. Temos sete promotores, sete juízes e seis emissoras de rádio trabalhando com liberdade...

CORREIO - Tem seis rádios mas parece que o Sr. está querendo calar uma delas. Que é que o vereador tem contra a Estação Sat?

CACAU - Eu não quero fechar a rádio. Eu quero é que ela siga as normas. Vereador de Garanhuns não é só pra fiscalizar o prefeito não, deve estar atento a tudo que acontece na cidade. Se a Rádio Estação Sat é de utilidade pública, se é uma rádio de caráter cultural, ela não pode estar ganhando dinheiro, concorrendo com as emissoras comerciais que pagam impostos.

CORREIO - Mas essa rádio não está servindo à cidade, não está gerando empregos e novas oportunidades aos profissionais? O vereador não poderia, nessa briga contra a Estação, aumentar o desemprego entre os radialistas?

CACAU - A Estação Sat pode estar empregando dois e desempregando um maior número de pessoas nas outras rádios, nas emissoras comerciais. Um colega meu de Câmara, Givaldo Calado, é um dos responsáveis pelo empreendimento, mas se está errado a gente tem de denunciar. A Estação é na verdade a Garanhuns FM, que pertence a Fundação Cultural Monsenhor Adelmar da Mota Valença. Então como é que pode estar com propaganda de Catuaba, com pornografia, com o programa do Mução?

CORREIO - O Sr. se elegeu vereador com dificuldades, teve pouco mais de 600 votos e só conseguiu se garantir com a ajuda da legenda. Agora, com essa atuação, espera voltar ao Legislativo com mais facilidade? Essa sua postura rende votos?

CACAU - Eu não sei se isso está rendendo eleitoralmente, mas o que importa é que me sinto bem. Estou cumprindo meu papel de vereador, no sentido de fiscalizar o Executivo e apresentar projetos que contribuam com a melhoria das condições de vida do povo de Garanhuns.

CORREIO - Eleito pelo PPB, o Sr. agora deve se filiar ao PTB, juntamente com Izaías Régis. Qual o futuro desse novo grupo que se forma na política de Pernambuco?

CACAU - Armando Monteiro entrou no PTB com o aval do ministro José Dirceu e consequentemente do presidente Lula. Aqui no Agreste o Partido Trabalhista será reforçado com o ingresso do deputado Izaías Régis e de três vereadores. Além de mim ficam na legenda o Audálio Ramos e o Aldemiro Aquino.